Descrição de chapéu Moda

Chanel produz seus bordados em ateliê escondido em zona industrial afastada de Paris

Produtos que fizeram de Karl Lagerfeld um mestre da alta-costura saem da Maison Lesage

Modelos com bordados da Chanel em fábrica na França Anne Combaz/Divulgação

Pedro Diniz
Pantin (França)

Os olhos da moda se voltam para a temporada francesa de inverno 2020, que começou nesta segunda-feira, e o desfile póstumo do estilista Karl Lagerfeld para a Chanel já é o passe mais disputado pela indústria. 

O que será visto na passarela parisiense na próxima semana ainda é mantido em segredo pela marca, mas se sabe que a coleção conservará o esmero característico de sua tesoura.

Para entender a influência do “kaiser” na alta-costura e no prêt-à-porter, é preciso olhar com lupa seus vestidos bordados, as flores costuradas nos tweeds e as pedrarias glamorosas coladas nos tailleurs da grife. Todos eles saem de um mesmo lugar, a Maison Lesage, o bunker de Lagerfeld e de quase todas as 
marcas do luxo mundial.

 

Afastado de Paris, numa zona industrial cercada por fábricas têxteis, o prédio cinza não dá pistas de que ali trabalham os artesãos mais disputados da França, com média de idade de 45 anos, que passam o dia com os olhos grudados nos croquis e as mãos balançando numa dança de linhas, pedras e até madeira.

Foi da Lesage que partiram os produtos acabados de todas as ideias de Lagerfeld, das flores bordadas da derradeira coleção de alta-costura, desfilada em janeiro, até os looks dourados do último desfile Métiers d’Art, uma coleção exclusiva apresentada pela Chanel anualmente só para mostrar as novidades de seu ateliê.

Na visita deste repórter, os artesãos trabalhavam para bordar pedaços de cristais e madeira com uma técnica registrada pela maison, fundada em 1858 e adquirida pela grife em 1986 dentro de um plano hercúleo para resgatar pequenos ateliês em crise.

Com a compra das empresas, a Chanel criou um grupo de manufatura artesanal chamado Paraffection. Além da Lesage, o grupo abarca a Desruis, de botões; a Lemarié, especializada em plumas e na confecção das flores artificiais que adornam os looks da marca; o ourives Goossens e a chapelaria Maison Michel. Há também outras cinco casas de diferentes técnicas sob o guarda-chuva da Paraffection.

Não se trata apenas de uma fornecedora de matéria-prima, mas de uma instituição francesa que abastece parte importante da concorrência, das marcas do grupo LVMH até a restrita Hermès.

De todos os ateliês mantidos no bunker da comuna de Pantin, o Lesage é um dos que demandam mais esforço para ser mantido, porque, além da confecção, lá são conservados arquivos de bordados raros da história da moda francesa.

A década de 1950 foram anos dourados para os bordados na criação de roupas. Christian Dior, Hubert de Givenchy, Pierre Balmain, Cristóbal Balenciaga e, claro, Coco Chanel, encomendavam a Lesage as bases bordadas de suas peças. Várias dessas criações estão guardadas a sete chaves em gavetas, além de tecidos do século 19 em bom estado de conservação.

O que seduziu meio mundo de estilistas é o aspecto puramente manual do trabalho. Nada ali passa por máquinas, a não ser quando o tecido é furado nos contornos do desenho encomendado —isso para que as agulhas não se percam no meio do caminho.

Lagerfeld tinha um apreço especial pelas formas tridimensionais, que saltavam da roupa. Conchas, flores, tudo era milimetricamente alinhavado a partir de desenhos técnicos enviados por sua equipe. 

Os cristais bordados que o estilista alemão tanto gostava de aplicar em sequências irregulares nunca poderiam sair de uma máquina, porque ela só reproduz contornos geométricos e de uma única camada.

Quando acenderem as luzes do Grand Palais, local onde Lagerfeld sempre realizava os desfiles da Chanel, a Lesage dará adeus ao criador que fez o mundo entender do que é feita a alta-costura de verdade.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.