Descrição de chapéu Artes Cênicas

Felipe Hirsch traduz cicatriz de ditadura, violência política e ataque às artes em peças

Diretor, que vem à MITsp, renova seu teatro com obras que discutem literatura, democracia e contradições latinas

6ª MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Espetáculo

Espetáculo "Democracia" Pamela Albarracin/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo e Rio de Janeiro

Meio que por acaso, ou por vaticínio, Felipe Hirsch vem contornando mudanças políticas e sociais que abalaram o Brasil desde os protestos de 2013.

Foi nessa época que o diretor se debruçou sobre temas e estéticas novas. Se antes, com sua Sutil Companhia, ele se voltava a trabalhos pop e estetas, passou então a se dedicar a espetáculos de narrativa fragmentada, visual sintético e um forte discurso político, embalado em tom de fábula e baseado em escritos literários e documentos históricos. 

O acaso foi um convite da Feira do Livro de Frankfurt, que homenageou o Brasil na sua edição de 2013. Envolto num contexto literário, Hirsch criou o projeto “Puzzle”, série de peças baseadas na literatura contemporânea brasileira. A predição vinha no tema, que explorava contradições e turbulências do país.

O diretor Felipe Hirsch
O diretor Felipe Hirsch - Annemone Taake/Divulgação

Lá, ele reuniu um coletivo de artistas —entre eles os cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara e o músico Arthur de Faria— que ganhou a alcunha de Ultralíricos. Não é exatamente um grupo fixo, mas nomes que viriam a participar de projetos seguintes. “Era importante entender o que seria a partir dali, porque tentávamos aproximar artistas de várias áreas, pensar uma nova linguagem”, diz Hirsch, 47.

Vieram então o díptico “A Tragédia e a Comédia Latino-Americana”, que expandia o escopo de autores para os “malditos” da literatura latina, como o cubano Virgilio Piñera e o argentino Salvador Benesdra, e “Selvageria”, baseado em documentos históricos sobre o Brasil.

O trabalho seguinte, porém, esbarrou num impasse. A ideia inicial da montagem, que reúne no elenco Debora Bloch, Guilherme Weber, Jefferson Schroeder e Renata Gaspar, era adaptar a obra do quadrinista André Dahmer. Mas o turbulento processo eleitoral do último ano mudou os rumos da criação.

“Eu me humilhei muito no segundo turno da campanha, sabe? Eu, que nunca quis confiar em nenhum político, estava em todos os atos do [Fernando] Haddad, fui parar no comitê do PT”, afirma o diretor, que se opôs à candidatura do presidente Jair Bolsonaro. “Saí tão saturado e imaginando que iríamos enfrentar um ar negro [do novo governo].”

A resposta, diz Hirsch, deveria vir de forma menos reativa e mais fabular. Convidou, então, autores diversos, do próprio Dahmer ao multiartista Nuno Ramos e o dramaturgo chileno Guillermo Calderón, para criar textos sobre o país. 

Chegou-se a “Antes que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América”, título retirado dos versos de “Soy Loco por Ti, América”, composta por Capinam e Gilberto Gil. “O ‘antes’ no nome me parecia algo razoavelmente esperançoso, porque hoje o país está funcionando como esse experimento da extrema direita”, afirma o encenador.

A peça, em cartaz no Rio de Janeiro e com previsão de estreia em São Paulo no segundo semestre, traz desde um irônico leilão dos dentes de artistas que morreram pobres a contos sobre a violência e fábulas da pós-verdade. E um questionamento do papel do artista, hoje “a primeira coisa a ser atacada”, diz Bloch.

Da dezena de textos recebidos, contudo, foram usados só seis, e Hirsch guardou o restante para o futuro. Um reaproveitamento que vem guiando os trabalhos do diretor com o Ultralíricos.

“Relatório sobre a Morte do Poeta”, do argentino Pablo Katchadjian, foi parar em “Antes”, mas havia sido escrito para outra peça, “Democracia”, que Hirsch estreou no ano passado no Festival Santiago a Mil, no Chile, e que agora chega à MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Discussão sobre as cicatrizes da ditadura chilena, o espetáculo tem por base o livro “Múltipla Escolha”, de Alejandro Zambra, mas traz trechos de outros autores e da biografia do elenco, com atores de famílias afetadas pelo regime de Pinochet —um deles foi criado na Alemanha e só aos oito anos descobriu os pais biológicos, integrantes da guerrilha.

A mescla agradou a crítica chilena, que chamou o diretor de “o maior nome a inovar as artes cênicas brasileiras”, segundo o jornal El Mercurio.

Já com Calderón, Hirsch prepara o roteiro de um filme, “Fazenda”, que tratará de latifundiários do interior do país.

Outro autor de “Antes”, o argentino Rafael Spregelburd, acabou por delinear “Fim”, que estreia em março. A peça partiu de improvisos do elenco, com nomes como Renato Borghi, Magali Biff, Danilo Grangheia e Amanda Lyra. Os escritores Sérgio e André Sant’Anna versavam para o papel o que era criado em cena.

Mas Hirsch encontrou em textos que Spregelburd vinha fazendo um paralelo com “Fim”, que fala do ofício do teatro e da memória, tangendo questões sociais. E os escritos do argentino se mesclaram aos dos autores brasileiros e a questões pessoais do elenco.

Como no texto, a costura de linguagens diversas também se dá na encenação. “Há um apagamento de fronteiras entre teatro, performance e literatura”, diz Weber, que trabalha com Hirsch desde os tempos da Sutil Companhia.

Mas, se é diverso em outras frentes, o trabalho de Hirsch busca uma síntese visual. Da pilha de papéis que compunha o cenário de “Puzzle”, passou-se a blocos de isopor, em (“A Tragédia e a Comédia”) e sacos de lixo (“Selvageria”). 

Em “Antes”, a metáfora de um país instável se dá numa série de colchões velhos. “Democracia”, que cria em cena um jogo sem sentido, no qual ninguém ganha jamais, traz um letreiro luminoso, inspirado em shows de Elvis Presley. Já “Fim” usa restos de cenário (partes de figurino, de móveis), dispostos de forma desordenada, por vezes suspensa e fantasmagórica. Por fim, um resumo dos tempos.

A jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite do Oi Futuro

 

MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo

Os ingressos para o festival, que acontece de 14 a 24 de março em diversos espaços paulistanos, começam a ser vendidos às 17h desta quinta (21/2), no site mitsp.org. As entradas custam até R$ 40

Programação

‘O Alicerce das Vertigens’, do congolês Dieudonné Niangouna

15 a 17/3, no Sesc Pinheiros

‘Altamira’ 2042, dirigida por Gabriela Carneiro da Cunha

19 a 21/3, no Centro de Referência da Dança

‘A Boba’, de Wagner Schwartz

17 a 19/3 e 22 a 24/3, no Teatro Cacilda Becker

‘Cinco Peças Fáceis’, com direção do suíço Milo Rau

19 a 21/3, no Teatro Sérgio Cardoso

‘Compaixão. A História da Metralhadora’, com direção do suíço Milo Rau

20 a 22/3, no Sesc Vila Mariana

‘Democracia’, dirigida por Felipe Hirsch

18 a 20/3, na Faap

Mágica de Verdade’, do grupo inglês Forced Entertainment

19 a 21/3, no Sesi

‘Manifesto Transpofágico’, de Renata Carvalho

20 a 22/3, na Biblioteca Mário de Andrade

‘MDLSX’, da italiana Silvia Calderoni

22 a 24/3, no Teatro João Caetano

‘Paisagens para Não Colorir’, dirigida pelo chileno Marco Layera

20 e 21/3, às 19h, no Teatro Porto Seguro

‘Partir com Beleza’, do franco-argelino Mohamed El Khatib

19 a 21/3, na Casa do Povo

‘A Repetição. História(s) do Teatro (I)’, com direção do suíço Milo Rau

14 a 16/3, no Auditório Ibirapuera


Outras peças dirigidas por Felipe Hirsch

Antes que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América

Oi Futuro, r. Dois de Dezembro, 63, Rio de Janeiro. Qui. a dom., às 20h. Até 24/2. Ingr.: R$ 30. 14 anos

Fim

Sesc Consolação, r. Dr. Vila Nova, 245. Qui. a sáb., às 21h, dom., às 18h. De 8/3 a 14/4. Ingr.: R$ 12 a R$ 40. 16 anos

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