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Artes Cênicas

Musical 'Billy Elliot' é uma celebração do corpo

No espetáculo, diferentemente do filme, acumulam-se cenas de arrebatamento físico

Nelson de Sá

Billy Elliot

  • Quando Sex., às 20h30, sáb., às 15h e às 20h, dom., às 14h e às 18h30. De 15/3 a 30/6
  • Onde Teatro Alfa - r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo
  • Preço Ingr.: R$ 75 a R$ 310
  • Classificação Livre

Soa fora de lugar uma peça como "Billy Elliot" no Brasil de 2019. Sua nostalgia dos mineiros que enfrentaram Thatcher contrasta com a imagem que ela estabeleceu por aqui. E seu retrato da homossexualidade levou um teatro estatal da Hungria, presidida por um dos modelos deste Brasil de hoje, a cancelar o espetáculo.

Independentemente de qualquer estranhamento local, o que se tem é teatro contemporâneo de primeira grandeza, em que o diretor original Stephen Daldry volta a entrar fundo na sociedade inglesa.

No espetáculo, diferentemente do filme também dirigido por Daldry, acumulam-se cenas de arrebatamento físico. Já na primeira, com a elétrica Mrs. Wilkinson de Vanessa Costa e suas alunas de balé, é anunciado o assunto central: este é um musical menos para cantar, embora as músicas de Elton John tenham sempre grande apelo, do que para dançar.

É uma celebração do corpo em expansão, em contraste com o sindicalismo em repressão ao fundo, em 1984. Daldry é talvez o diretor-produtor de maior impacto sobre o teatro inglês nas últimas três décadas, na busca de um teatro "raw", cru, como ele mesmo dizia, ao abordar questões como política e sexualidade.

No caso, retrata o drama dos mineiros do norte da Inglaterra, cuja derrota abriu caminho para décadas de neoliberalismo, nas figuras brutas do pai e do irmão de Billy, bem representados por Carmo Dalla Vecchia e Beto Sargentelli. A política está lá, na ascensão do que o espetáculo chama de "fascismo" e "poder judicial", mas principalmente estão lá o menino e seu corpo.

Tiago Fernandes, que foi Billy na pré-estreia há dois dias, tem seus maiores momentos, aqueles em que empolga o público a ponto de ganhar aplausos no meio da cena, nos números exclusivos de dança, inclusive seu solo —que é derivado daquele do filme, mas mais claro na oposição do indivíduo contra todas as demandas coletivas.

Não à toa, o espetáculo mobiliza três coreógrafos só na versão local. São ações vigorosas, em cenas muitas vezes com ápices de êxtase, comandadas fisicamente por Fernandes, Costa, bailarinos como André Luiz Odin e Guilherme Pivetti e o coro das meninas, entre elas Luisa Bresser.

"Billy Elliot" se concentra neles, mais que tudo. E se compreende afinal, como não acontecia com o filme, por que os mineiros se deixam vencer pela arte de Billy.

Mas o público tradicional de musicais também tem seu quinhão, em quadros como aquele em que a avó de Billy, feita por Inah de Carvalho, veterana de décadas do gênero, canta sua aversão e sua saudade do avô do menino —que era também um bruto, porém dançava como Fred Astaire.

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