Na última vez que encontrei Antunes, falamos sobre fantasmas, Apichatpong e os limites entre real e irreal

Produtor e editor, amigo de encenador narra último encontro com o diretor teatral morto no dia 2

Ricardo Muniz Fernandes

Na última vez que o encontrei falamos sobre fantasmas, sobre o cineasta Apichatpong Weerasethakul e os poucos limites entre o real e o irreal.

Uma nesga de sol atravessou por minutos sua testa. Ele elogiou a gentileza da enfermeira, galanteador, chamando-a de arco-íris.

Pretendia montar “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues, que já estava ensaiando, mas naquele momento percebeu que seria impossível pela violência do texto.

Contra esta violência pensou em Groucho Marx, e afirmou que seu próximo espetáculo seria sobre os Irmãos Marx, para todo mundo poder dar grandes gargalhadas. Ele faria Groucho Marx. Prometi-lhe um bigode e um charuto. Me contaram que, no final, nos ensaios improvisados em fonemol no quarto do hospital, ele considerava o cateter de oxigênio o bigode.

Contra a assepsia do hospital, e pela sua alegria naqueles minutos, imaginei personagens invadindo aquilo tudo. As chapeuzinhos vermelhos correndo pelas linhas do piso. Os balões de oxigênio com os lobos maus dentro. Os quartos de vidro das UTIs ocupados pelas figuras de Gilgamesh. Os banhos das enfermeiras como o lava-pés da Senhora dos Afogados, ou da Iara com sua lagoa bacia em Macunaíma. Ao fundo Ganesha dançando para sempre na mesa de cabeceira.

Se ele delirava, delirei junto, como sempre fazíamos quando nos encontrávamos.

Falamos de fantasmas que estão por aí e não nos permitimos vê-los. Falamos dos índios que não querem contato com este mundo civilizado e demasiadamente real e branco e fogem para o fundo da floresta. E deste contínuo oscilar entre o real e o irreal, que ele agora vivia, era como fugir para dentro da floresta.

Falamos de um novo projeto para o qual havia me pedido uma sugestão meses atrás, e acabei não sugerindo. Naquele momento, lembrei do "Coração das Trevas", de Conrad, e sugeri, indicando que ele agora tinha a coragem necessária para seguir rio adentro da floresta em busca de Kurtz, ele já estava no meio do caminho, já estava vendo Tio Boonmee, e vira as putas num delírio da madrugada, e elas podiam ser também as deusas camelôs do “Cemitério Esplendor”, outro filme de Apichatpong Weerasethakul.

Tangenciando o cineasta, mais uma vez ele lembrou e me perguntou se eu não ia trazer a instalação "Fever Room" deste Apichatpong para o teatro Anchieta, conforme eu prometera a ele tempos atrás. O projeto não aconteceu, mas permanece existindo no sonhado.

Naquele momento febril, alucinei aquele lugar como um novo filme chamado “Hospital Esplendor”.

Era hora de ir embora. Eu disse que voltaria. Antes de sair, ele perguntou se eu não era um fantasma... Desconfiou da minha mínima existência, da minha presença passageira. Não respondi e fui embora deixando-o na dúvida, com a sombra da dúvida, como fazem os fantasmas! Dias depois eu voltei, mas ele não me viu pois dormia profundamente. Estava do outro lado, rio abaixo, longe, sonhando.

Reli "Coração das Trevas", epopeia maior dessa fuga pro mato, pro dentro, pro escuro. E continuei sonhando esse filme que não fiz e sei que não farei, pois assim ele poderá ser todos os filmes. E posso fazê-lo e refazê-lo, e montá-lo para sempre. Obra que construiremos juntos no infinito da sua ausência. 

Falávamos sempre de Espinosa, e dessa ideia esplendor, quase impensável, do “infinito como qualidade” e não quantidade. Na ética deste tal Bento, em um dos tantos escólios, ele diz que somos “modos finitos de existência” e na morte nos dissolvemos na substância, essa substância qualidade que é o infinito.

E sempre alucinávamos esta qualidade, o infinito, e sabíamos ser sala de ensaio, palco vazio, lugares onde sempre poderemos encontrá-lo e estar com ele. Somos finitos mas podemos ousar este infinito.

Não consigo acabar este texto, não sei acabá-lo, não quero acabá-lo, deixo-o assim, aberto e infindo.

Ricardo Muniz Fernandes é produtor, curador e coeditor da n-1. 

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