Descrição de chapéu Cinema

Festival de cinema em Curitiba abre primeira edição sem a Petrobras

Seleção de filmes na mostra Olhar de Cinema, que perdeu o patrocínio da estatal, ainda tem ousadia e descobertas

Sérgio Alpendre
São Paulo

Depois da Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, e do Festival do Rio, o caçula Olhar de Cinema, realizado em Curitiba, é o terceiro maior festival internacional do Brasil. E o primeiro, entre esses três, a enfrentar a retirada da Petrobras do posto de grande patrocinadora da cultura no país.

Em tempos de desmonte na área, é preciso sobreviver de algum modo. E o Olhar de Cinema, em sua oitava edição dedicada ao cinema independente, dá mostras de que é capaz disso, com o mesmo tipo de programa que o tornou importante, com ousadia e descobertas.

Cena do filme ‘Força Dupla’, da americana Barbara Hammer, que está no festival Olhar de Cinema em Curitiba 
Cena do filme ‘Força Dupla’, da americana Barbara Hammer, que está no festival Olhar de Cinema em Curitiba  - Divulgação

Temos, de início, a mostra competitiva. Não é composta necessariamente pelos melhores filmes, mas é a que atrai maior atenção. Nela há três filmes brasileiros: "Casa", de Letícia Simões, "Chão", de Camila Freitas, e "Diz a Ela que Me Viu Chorar", de Maíra Bühler.

Concorrem com uma turma de peso, com destaque para o apaixonado e politizado "Seguir Filmando", de Ghiath Ayoub e Saeed Al Batal, sobre o amor pelo cinema em meio à guerra civil na Síria.

Nas outras mostras, algumas recomendações. Ramon Porto Mota, o principal nome por trás do interessante filme de episódios "O Nó do Diabo", desta vez está solo, com "A Noite Amarela" (Novos Olhares). Vale conferir também "Enquanto Estamos Aqui" (Outros Olhares), pois Clarissa Campolina e Luiz Pretti têm certa bagagem no cinema brasileiro contemporâneo.

Outros brasileiros que merecem atenção: "A Rosa Azul de Novalis", de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, e "Ilha", de Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ambos estão na mostra Olhares Brasil.

Na seção Exibições Especiais, estão longas imperdíveis. Do Brasil, "A Mulher de Luz Própria", de Sinai Sganzerla (filha de Rogério Sganzerla e Helena Ignez), e "Sedução da Carne", de Júlio Bressane, marcam a relação com o saudoso cinema de invenção da virada dos anos 1960 para os 1970.

"A Portuguesa", de Rita Azevedo Gomes, representa o excelente cinema que tem sido feito em Portugal. Vale apostar também no longuíssimo "Uma Fábrica de Pão", de Patrick Wang, que costuma ser exibido em duas partes.

Há ainda a ótima mostra Olhar Retrospectivo, com alguns filmes do grande diretor chileno radicado na França Raúl Ruiz, entre eles a obra-prima "As Três Coroas do Marinheiro". Sua obra dialoga com a de brasileiros que filmaram no exterior, com destaque para os dois filmes de Helena Solberg, além de "Memórias de um Estrangulador de Loiras", de Júlio Bressane, e "O Leão de Sete Cabeças", de Glauber Rocha.

Por último, vale destacar a mostra Olhares Clássicos. Entre filmes que se vendem sozinhos, temos as pérolas "Conhecendo o Grande e Vasto Mundo", de Kira Muratova, "Filhas do Pó", de Julie Dash, e "O Funeral das Rosas", de Toshio Matsumoto.

A lista de indicações, contudo, seria muito maior do que caberia neste espaço, incluindo alguns curtas. Convém então arriscar um certo exercício de prospecção. Outras pérolas se escondem por vezes em lugares insuspeitos.

 

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