Descrição de chapéu Artes Cênicas

Atores nus se misturam em cenário tomado por sacos plásticos em 'Macunaíma'

Como uma metáfora do brasileiro, protagonista é interpretado por dois negros e um branco

Cena da montagem de Macunaíma, com a Cia. A Barca dos Corações Partidos

Cena da montagem de Macunaíma, com a Cia. A Barca dos Corações Partidos Silvana Marques/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
Belo Horizonte

​Macunaíma, o herói da nossa gente, teima em nascer. Debaixo de sacos pretos, dispostos desordenadamente sobre o chão, ele rasga a camada de plástico e vem ao mundo, chorando como um recém-nascido, mas logo é puxado de volta para dentro. 

A cena se repete, e outra vez e mais uma. Até que ele é expelido de vez. Do parto derradeiro nasce não apenas um, mas todo o elenco, que cobre o palco como um mar de bebês.

Afinal, Macunaíma não é um só, mas uma mistura de tudo o que é o Brasil. E é dessa polifonia que a diretora Bia Lessa tece “Macunaíma - Uma Rapsódia Musical”, espetáculo que chega agora a São Paulo, depois de uma estreia em Belo Horizonte —em setembro, ainda fará uma temporada no Rio de Janeiro.

Sua adaptação do livro de Mário de Andrade expõe ainda mais a colcha de referências que o modernista costura em sua obra mais célebre. Em fins dos anos 1920, o escritor estava embebido em estudos sobre a cultura brasileira e na leitura de “Do Roraima ao Orinoco”, relato das viagens do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg pela Amazônia em que é citada a lenda do guerreiro Macunaíma. 

Disso, Andrade criou a metáfora do brasileiro, um povo em formação. Daí o “herói sem nenhum caráter” do subtítulo do romance, ou seja, herói sem caráter definido. E resumiu o caldeirão num protagonista que é, ao mesmo tempo, índio, negro e branco, um personagem pueril, preguiçoso e sensual —crítica à imagem negativa da brasilidade.

Em sua encenação, Lessa deixa tudo muito fluido, a começar pelo cenário do primeiro ato, que se passa na mata virgem onde nasceu Macunaíma. Sacos pretos de plástico cobrem o palco e são manipulados pelos atores, ganhando formas diversas, de árvores a criaturas mitológicas. 

Principal elemento visual, o plástico também surge na segunda parte, quando o protagonista, já transformado em homem branco, vai para São Paulo em busca do amuleto muiraquitã. Mas, na cidade repleta de máquinas, o plástico surge quadrado e enrijecido.

O elenco, formado pelos oito integrantes da companhia Barca dos Corações Partidos (de “Suassuna, o Auto do Reino do Sol”) e outros seis atores, por vezes não se distingue. Estão quase sempre nus, apenas cobertos por pinturas corporais. Como numa coreografia, alternam-se entre dar forma aos personagens e também ao cenário. Mesmo Macunaíma é vivido por três atores —dois negros e um branco.

“Para mim, era interessante não ter um protagonista. O protagonista ali é o mundo, que se transforma”, diz Lessa. “Teve uma fala do [antropólogo] Eduardo Viveiros de Castro que foi muito importante para o trabalho. Ele diz que o grande perigo do mundo hoje é a monocultura. Então a gente tenta explicitar o diálogo, a diversidade, coisas tão importantes e que agora estão acabando.”

Algo que também reforça uma leitura da escritora Veronica Stigger, responsável por adaptar ao palco o texto de Andrade. Para ela, o bordão de Macunaíma, “ai, que preguiça” (uma brincadeira com sua pecha de indolente), ganha aqui outro sentido —ai, que preguiça do mundo como está hoje, com seus extremismos e conflitos.

“Estamos num tempo em que as pessoas tratam as coisas de forma maniqueísta”, afirma o ator e músico Alfredo Del-Penho, que divide a direção musical com Beto Lemos. “Mas é justamente a contradição que diz mais sobre a gente, sobre a nossa formação.”

Tanto que há em cena um mar de referências, por vezes não muito bem compreensíveis. Além de português, pequenos trechos são falados em alemão (alusão a Koch-Grünberg), em espanhol (já que a lenda original se passa na fronteira entre o Brasil e a Venezuela) e em tupi-guarani (falada por uma atriz indígena, Zahy Guajajara).

A polifonia linguística se estende para a música, em dez idiomas, do japonês ao iorubá. Por vezes até soam familiares, mas são 62 composições originais (algumas criadas com o grupo O Grivo), que representam a diversidade rítmica brasileira. 

Surgem ora como protagonistas, ora mais discretas, apenas sonorizando uma passagem. Os instrumentos, cerca de 80, também fazem as vezes de cenário e personagens —uma anta, por exemplo, tem olhos de pandeiro e nariz de tambor. “Tudo é feito com coisas muito ordinárias, plástico e outros objetos. É essa engenhosidade, a criatividade brasileira que nasce do nada”, comenta a diretora.

Também surgem, pinceladas aqui e ali, referências a uma série de artistas brasileiros, de Tunga (e suas “Xifópagas”) a Décio Pignatari (“Beba Coca-Cola”) e Caetano Veloso (“Sampa”). Além do diretor Antunes Filho, cuja montagem teatral de “Macunaíma”, de 1978 se firmou como um marco do teatro brasileiro.

Lessa foi aluna de Antunes e chegou a atuar numa remontagem do “Macunaíma” do diretor nos anos 1980. A produção tinha planos de se encontrar com o encenador, mas eles não conseguiram espaço na agenda, explica a produtora Andrea Alves. Em maio, Antunes morreu, aos 89, e ele agora dá nome ao teatro onde o novo espetáculo faz sua temporada paulistana.

“Estávamos distantes, mas com a morte dele parece que ele voltou de um jeito. Ele me ensinou muito, me deu uma gramática do teatro”, explica Lessa, que não replica a obra do mestre, mas se inspira em sua engenhosidade —na versão dele, um grande pano branco criava formas fluidas e cenários diversos.

Macunaíma, afinal, não veio ao mundo para ser pedra.

A jornalista viajou a convite da produção 

Macunaíma - Uma Rapsódia Musical

  • Quando De 19/7 a 15/8. Qua., às 15h, qui., sex. e sáb., às 20h, e dom., às 18h
  • Onde Sesc Vila Mariana - Teatro Antunes Filho, r. Pelotas, 141
  • Preço Ingr.: R$ 15 a R$ 50
  • Classificação 18 anos
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