Descrição de chapéu Flip

Flip terá espetáculo inspirado em 'Os Sertões' com atores do Teatro Oficina

Evento, que nesta edição homenageia Euclides da Cunha, acontece de 10 a 14 de julho

Maurício Meireles
São Paulo

Há anos sem seu tradicional show de abertura, a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) tem buscado soluções diferentes para dar início à sua programação. Neste ano, após a conferência inicial, o evento literário vai receber o espetáculo "Mutação de Apoteose", inspirado em "Os Sertões", de Euclides da Cunha, o autor homenageado deste ano.

Com roteiro coletivo, a apresentação é dirigida pela atriz Camila Mota e foi concebida a partir da peça baseada no livro --e das canções que a acompanhavam-- realizada pelo Teatro Oficina no início dos anos 2000. Mota, à época, foi a diretora assistente e atuou na série de peças. O encenador José Celso Martinez Corrêa, que estava à frente daquela adaptação, aliás, é um dos convidados da programação oficial.

Ao todo, 20 atores do Oficina devem ir a Paraty para a encenação, que deve contar ainda com 50 crianças e jovens da cidade fluminense para fazer o estouro da boiada, cena famosa de "Os Sertões".

"Não estamos refazendo [a montagem original do Oficina], mas estamos pegando coisas da encenação. Euclides não só fez uma denúncia, mas revelou um modo de existir no qual todo mundo produzia junto, no qual conviviam o vaqueiro e o assassino, a beata e a puta", diz Mota.

Embora tenha algumas cenas como a da boiada, é um espetáculo principalmente musical, feito a partir das canções criadas para o Oficina no começo dos anos 2000 --com músicas de nomes como Tom Zé, José Miguel Wisnik, Adriana Calcanhotto, Chico César e Arnaldo Antunes.

As músicas, afirma Mota, foram escolhidas de acordo com sua sintonia com linhas temáticas que serão destacadas do livro. "São várias camadas [exploradas por Euclides]. O crime de Estado é uma. A cosmopolítica é outra."

O espetáculo começará no auditório principal --com um ator interpretando Euclides e dando uma nota preliminar sobre a história--, mas sairá dele para a praça da Matriz, onde fica a tenda do telão. Este, como já é praxe na linguagem do Oficina, deve ter a projeção de um vídeo, concebido por Cafira Zoé e Cecília Lucchesi. A cenografia é de Marília Gallmeister, com alunos da Escola da Cidade.

Mota estima que cerca de 40% do espetáculo que o grupo concebeu é inspirado em "A Terra", primeira parte de "Os Sertões", na qual Euclides fazia longas descrições sobre a natureza. Mas haverá referências também a "O Homem" e "A Luta", os outros dois pedaços.

"É um livro que ainda ressoa hoje. Em 1902, ele já fala de queimadas. O martírio secular da terra é o nosso martírio. O crime de Estado continua a existir nos massacres de uma população favelada. Euclides fala da força estética das insurreições. Ao fazer uma reportagem como obra de arte, ele revela a força estética de modos de vida diferentes", diz ela.

"E isso é importante, num momento em que estamos vivendo de guerra cultural, com artista criminalizado, [com o discurso de que] acabou a 'mamata'. É muito importante fazer um levante."

A apresentação acontece depois da sessão de abertura, com a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, umas das principais especialistas do país na obra de Euclides da Cunha. A Flip deste ano acontece entre 10 e 14 julho e tem curadoria de Fernanda Diamant.

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