Descrição de chapéu

Fim das curtidas ameaça vocação da plataforma como acervo virtual

Uma possível consequência é o fortalecimento dos comentários nas imagens

Uma das primeiras publicações no perfil Jerry Gogosian é para nós bastante familiar —o meme Nazaré confusa, personagem da atriz Renata Sorrah com expressão pensativa e fórmulas matemáticas ilustrando uma situação de alguém que não consegue lembrar o preço de uma obra para calcular o desconto. 

É um bom exemplo do potencial de circulação de imagens em rede, que a cada postagem perdem e ganham camadas de leitura no caminho. 

Leva-se alguns minutos para correr toda a página e encontrar a publicação. Pode não ser uma busca rápida, mas é necessária para quem pesquisa e quer entender a memória das redes além do imediatismo.

Essa é uma das mudanças previstas com o fim da visualização das curtidas, adotada por enquanto em alguns países, entre eles o Brasil. As fotos no feed individual devem perder cada vez mais a importância em relação aos stories. No recurso, os vídeos de até 15 segundos muitas vezes também incluem imagens estáticas, mas, como se apagam em 24 horas, sua capacidade de circulação muda. 

E o audiovisual também passa a ser o conteúdo dominante —vantagem para quem já trabalha nessa linguagem. E embora o discurso oficial do Instagram ao ocultar o número de curtidas seja o de reduzir a competitividade entre usuários, na prática as razões são outras. 

É mais um reflexo de algo que já vinha acontecendo —a diminuição no engajamento com posts não patrocinados. E a quantidade de usuários também aumentou desde que os stories foram lançados. O número saltou de 300 milhões de pessoas ativas por dia no final de 2016 para 500 milhões em janeiro deste ano.  

Para muitos influenciadores, essa já é a principal forma de visibilidade —tanto que a maioria não lamentou a mudança. Mas para os seguidores de Jerry Gogosian —pessoas do meio da arte que usam a rede também para pesquisa de imagens— o protagonismo dos stories pode trazer uma transformação grande. Por mais que exista a função de arquivar os vídeos, não é um formato que favoreça buscas. 

Poucos usam hashtags, que permite uma difusão maior das imagens. E também a própria ideia de arquivamento contradiz a intenção dos stories —assim como o Snapchat, a ideia é que seja mesmo uma transmissão feita para sumir.  

Claro que essa discussão está longe de ser uma preocupação entre os usuários. Mas a importância que a rede ganhou na arte esteve muito relacionada às possibilidades de arquivar e controlar a apresentação da interface quase como um espaço expositivo, organização de um acervo ou estratégias de circulação. 

Muitos museus criam hoje hashtags específicas para exposições —como foi o caso da retrospectiva de Andy Warhol no Whitney. O termo “user generated content”, ou conteúdo gerado por usuário, também já faz parte do vocabulário das instituições.

Por outro lado, é interessante como o desaparecimento passa a ser adotado como estratégia ou recurso estético. É o caso do artista italiano Maurizio Cattelan, que deixava disponível só a última foto postada, deletando a anterior após 24 horas. O perfil foi encerrado em abril, mas há uma versão fake que preserva seus posts apagados. 

Às vezes o desaparecimento é involuntário. A artista Aleta Valente, que usa o Instagram como um espaço de produção, já perdeu dois perfis anteriores por causa de denúncias.   

Outra possível consequência com o fim das curtidas é o fortalecimento dos comentários nas imagens, um aspecto que resgata a vocação mais social e democrática das redes. Foi dessa forma que Jerry Saltz se tornou uma das principais referências na crítica de arte na era da internet 2.0.

O Instagram já parece hoje uma outra era em relação a quando Saltz postou sua primeira foto, em 2013. A página, com quase 7.000 publicações e 370 mil seguidores, é um ótimo arquivo com os melhores memes criados com obras de arte e uma variedade de imagens garimpadas da internet. O crítico talvez se saísse bem só com os stories, mas perderíamos muito sem a memória desse acervo que traduz muito da cultura visual dos últimos anos.

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