Sala São Paulo completa 20 anos entre a excelência e a violência da cidade

Osesp faz concerto de aniversário com transmissão gratuita pela internet

Os violinistas Cesar Miranda,43, e Guilherme Prado Perez, músico da Osesp e da academia da orquestra, respectivamente - Eduardo Knapp/Folhapress
Felipe Arrojo Poroger
São Paulo

“Veja seus dedos, eles estão sagrando? É preciso que sangrem”. Com mão erguida, o olhar no violino e certa nostalgia, o músico César Miranda, 44, relembra as palavras duras que ouviu de Jozsef Lendvay, renomado violinista húngaro.

Fascinado pela apresentação do Concerto nº 1 de Paganini, peça de assombrosa dificuldade, César quis saber do colega o segredo de sua técnica. A resposta, inequívoca na objetividade, é uma das tantas histórias que o violinista coleciona em seus 20 anos de Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).

Mas 1999 não seria marcante apenas para César. Às vésperas do novo milênio, também a Osesp ganharia nova casa. Nos interiores da histórica Estação Júlio Prestes e desenhada para estar à altura dos mais importantes espaços de concerto do mundo, surgia a Sala São Paulo.

César não esconde a saudade. Bem-humorado, vê realizados os sonhos do menino que, na primeira infância, já fantasiava em domesticar o violino, usando colheres de pau para simular corpo e arco do instrumento.

“Se eu disser que comecei exatamente assim, você vai acreditar?”, interrompe Guilherme Perez, 20, que escuta as memórias de César como quem antevê o próprio futuro. “Músicos como ele são, para nós, o máximo”, completa o garoto, violinista da Academia de Música, centro de formação da Osesp.

Com doçura, emenda a admiração com o relato de seu empenho. Desde os 12, encara ônibus e trem para ir da zona leste ao centro. “Difícil dizer que abri mão de algo; isto é o que mais gosto na vida”, completa timidamente, apontando para o violino.

O jovem, claro, não presenciou a abertura da Sala. Sua idade coincide com a do espaço, o qual considera “o melhor que conhece”. Não presenciou, portanto, naquele 9 de julho de 1999, a tão falada apresentação inaugural, com a Sinfonia n.2 de Mahler, a “Ressureição”, sob regência de John Neschling.

“A belíssima Sala São Paulo tem tudo para se firmar como a grande sala sinfônica da cidade”, atestava a crítica publicada na Folha. “Do presidente ao pipoqueiro”, como também afirmou o jornal, os holofotes voltavam-se ao evento. Do lado de fora, porém, nos quarteirões da Luz, manifestações por inclusão social não faziam coro à festa.

Questionado sobre o repentino sumiço dos usuários de crack nos arredores, um policial não hesitou: "Durante duas semanas, tivemos a preocupação de fazer uma varredura em toda a área para minimizar o problema". Nas acepções tortas das palavras, a violência naturalizada de uma metrópole segregacionista já se expressava sem constrangimento.

Tanto lá, como cá. Em 5 de julho de 2019, no concerto em comemoração aos seus 20 anos, as janelas translúcidas do hall ainda são ultrapassadas pelo vermelho das viaturas. Se a Sala cumpriu as suas promessas de excelência –eleita, inclusive, como um das dez melhores do mundo pelo jornal The Guardian—, a cidade que a envolve insiste em descumprir garantias mínimas de humanidade.

César pede licença para se concentrar. A experiência não aplaca o nervosismo de assumir um dos violinos do concerto, no palco com 350 profissionais. “Como aprendo com esses caras”, confidencia Guilherme ao ver o veterano se distanciar. “Hoje, será a 8ª de Mahler. É linda.”

O garoto tem razão. Nas primeiras notas, a certeza comovente de se estar diante de uma obra magistral, num país onde múltiplos talentos dependem apenas de oportunidade para aflorar. Na sala de contradições pulsantes, o coro, regido pela americana Marin Alsop, canta: “o inalcançável se alcança, o indescritível aqui se completa”.

No empenho de um jovem ou nas conquistas de um experiente, a Sala que forma gerações merece não só as justas homenagens, mas a garantia de que o alcance da cultura jamais seja menosprezado. 

Osesp nos 20 anos da Sala São Paulo

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