Descrição de chapéu Flip

Embate entre os indivíduos e a opressão guia programa da Flip 2019

Com homenagem a Euclides da Cunha, festa literária ganha temperatura política

Maurício Meireles
São Paulo

Inspirada por Euclides da Cunha, o escritor homenageado, e na história do Arraial de Canudos, a próxima Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) será marcada pela alta temperatura política, com uma programação com temas pinçados —ou surgidos como desdobramento— da obra do autor de “Os Sertões”.

A programação completa, de 10 a 14 de julho, foi anunciada na manhã desta quarta-feira (15), em entrevista na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Como nos últimos anos, a festa literária aposta em nomes internacionais menos conhecidos no Brasil.

Alguns temas atravessam todos os debates agendados: a crise climática, a ciência, a questão indígena. Esta última traz um recorte específico de outra linha que cruza o programa, que é a questão dos indivíduos em atrito com as instituições.

Os assuntos podem ser depreendidos do principal livro de Euclides, que viajou para acompanhar a campanha militar contra Antônio Conselheiro e seus seguidores, na virada para o século 20, e voltou de lá horrorizado com a brutalidade cometida pelo Estado contra os habitantes do local.

“Chamei pessoas que eu admiro e que têm a ver com Euclides de diferentes formas. Acho que é sim [política], mas menos ativista, mais para o universo da pesquisa”, diz Fernanda Diamant, curadora da edição. “As pessoas que estão pensando o contemporâneo estão lidando com essas questões.”

“Seria impossível homenagear o Euclides sem esse viés [político]. A ideia aqui é menos o quente da hora e mais a reflexão histórica sobre o país. Nós estamos no começo da República [quando a Guerra de Canudos acontece], sua fundação se dá dessa maneira. Seria incontornável não tratar dos assuntos relativos ao Brasil.”

A expectativa da produção do evento é que o orçamento deste ano chegue a R$ 5,4 milhões. No ano passado, o montante era de R$ 5,3 milhões —o menor do evento literário em 12 anos. Ainda não há notícias se o BNDES vai renovar o patrocínio ao evento neste ano.

Mauro Munhoz, presidente da Fundação Casa Azul, que organiza a festa, acenou a possibilidade da volta do tradicional show de abertura, que não aconteceu nos últimos anos por conta da limitação de recursos. Ele disse que a captação neste ano tem sido mais difícil —e não há expectativa de melhora para 2020.

Os indivíduos em confronto com forças maiores do que eles estão em nomes internacionais como o angolano Kalaf Epalanga, que se inspira em um episódio real, quando foi preso ao tentar cruzar uma fronteira europeia sem passaporte, para escrever “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia). O franco-ruandês Gäel Faye trata do genocídio de Ruanda no romance “Meu Pequeno País” (Rádio Londres). Ambos refletem sobre suas condições de negros na Europa, entre outros assuntos.

Esse recorte também está na americana Kristen Roupenian, autora de “Cat Person e Outros Contos” (Companhia das Letras), que causou celeuma ao publicar o conto que dá título ao livro na revista New Yorker, em 2017. A história foi vista como um exemplo das agruras femininas, com uma personagem vítima de um homem que desrespeitaria a noção de consentimento. Ela divide a mesa com a canadense Sheila Heti, que acaba de lançar “Maternidade”, na qual discute a decisão feminina de ser mãe.

Os debates identitários de gênero surgem nomes como a cubano-americana Carmen Maria Machado, autora dos contos de "O Corpo Dela e Outras Farras", em geral classificados como fantasia feminista. A brasileira Jarid Arraes, autora de cordéis que lançará seu primeiro livro de contos na Flip, também tem uma obra que trata da opressão feminina.

Ainda dentro desse campo político, mas no espectro da opressão estatal, está a venezuelana Karina Sainz Borgo, autora de “Noite em Caracas” (Intrínseca), romance sobre a destruição causada pelo chavismo em seu país. Ela foi um dos nomes mais badalados na Feira de Frankfurt do ano passado e já teve seu livro vendido para 22 países. A presença do encenador Zé Celso, que fez uma montagem de “Os Sertões" no Teatro Oficina nos anos 2000, pode ser lida por uma chave semelhante —há anos ele se opõe à construção de uma torre ao lado do teatro, no terreno que pertence a Silvio Santos.

A curadora da Flip 2019, Fernanda Diamant
A curadora da Flip 2019, Fernanda Diamant - Karime Xavier/Folhapress

Outra autora dentro desse universo é a nigeriana Ayobami Adebayo, que escreveu “Fique Comigo” (HarperCollins), no qual reflete sobre a tradição poligâmica de seu país e seu efeito sob as mulheres —com um viés crítico, portanto.

Com ela, está uma das estrelas em ascensão da literatura internacional, a israelense Ayelet Gundar-Goshen, ainda pouco conhecida no Brasil. No romance “Uma Noite, Markovitch” (Todavia), sobre um jovem judeu que sai da Palestina para a Alemanha nazista, onde resgata uma jovem por meio de um casamento fictício. Já em Israel, ele recusa se divorciar, na esperança que ela um dia goste dele.

Já questão indígena, por exemplo, aparece no convite à antropóloga Aparecida Villaça, autora que relata em “Paletó e Eu” (Todavia) sua relação filial com um líder indígena da etnia wari. Outro convidado é Ailton Krenak, uma das principais lideranças indígenas do país.

A ciência, por sua vez, está representada por Stuart Firenstein, biólogo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, com um livro em que defende como a ignorância serve para fazer avançar o conhecimento científico. Nessa esfera, mas tratando de mudança climática, participa do programa o jornalista americano David Wallace-Wells, autor de “A Terra Inabitável”.

Na lista de convidados brasileiros estão nomes como Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik, Marcelo D’Salete, Zé Celso e José Murilo de Carvalho, entre outros. A tradicional conferência de abertura da festa será realizada pela crítica literária Walnice Nogueira Galvão, uma das principais especialistas na obra de Euclides do país.

Outra novidade do ano será a existência de algumas mesas mais curtas, com duração de 45 minutos e apenas um convidado. As casas parceiras, um dos destaques da última edição, serão 21. A Flip promete resolver um dos principais problemas da edição passada, a dificuldade de se localizar em meio a uma programação paralela tão extensa, com um site no qual essas casas poderão publicar sua agenda de eventos e atualizá-las, caso haja mudanças de última hora.

Veja a programação completa

Quarta-feira, 10 de julho

19h - 20h | Mesa 1 I Sessão de Abertura - Canudos
Walnice Nogueira Galvão

Quinta-feira, 11 de julho

10h30 - 11h15 | Mesa 2 | Bendegó
Aparecida Vilaça

12h - 13h15 | Mesa 3 | Uauá
Adriana Calcanhotto
Guilherme Wisnik
Nuno Grande

15h30 - 16h15 | Mesa 4 | Sincorá
José Miguel Wisnik

17h - 18h15 | Mesa 5 | Bom Conselho
Kristen Roupenian
Sheila Heti

19h - 19h45 | Mesa 6 | Serra Grande
Maureen Bisilliat

20h30 - 21h45 | Mesa 7 | Quirinquinquá
Gaël Faye
Kalaf Epalanga

Sexta-feira, 12 de julho

10h - 11h15 | Mesa 8 - Mesa Zé Kleber | Cumbe
Marcela Cananéa
Marcelo D’Salete

12h - 13h15 | Mesa 9 | Angico
Ayelet Gundar-Goshen
Ayobami Adebayo

15h30 - 16h15 | Mesa 10 | Tróia de Taipa
José Murilo de Carvalho

17h - 18h15 | Mesa 11 | Jeremoabo
Karina Sainz Borgo
Miguel Del Castillo

19h - 19h45 | Mesa 12 | Mata da Corda
Grada Kilomba

20h30 - 21h45 | Mesa 13 | Vaza-Barris [O Irapiranga dos Tapuias]
Ailton Krenak
José Celso Martinez Corrêa

​Sábado, 13 de julho

10h30 - 11h15 | Mesa 14| Cansanção
Marilene Felinto

12h - 13h15 | Mesa 15 | Monte Santo
Ismail Xavier
Miguel Gomes

15h30 - 16h15 | Mesa 16 | Poço de Cima
Grace Passô

17h - 18h15 | Mesa 17 | Vila Nova da Rainha
Carmen Maria Machado
Jarid Arraes

19h - 19h45 | Mesa 18 | Massacará
Stuart Firestein

20h30 - 21h45 | Mesa 19 | Cocorobó
Cristina Serra
David Wallace-Wells

Domingo, 14 de julho

10h30 - 11h45 | Mesa 20 | Santo Antônio da Glória
Braulio Tavares
Mariana Enriquez

12h30 - 13h15 | Mesa 21 | Livro de Cabeceira
participação especial: Amyr Klink

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