Descrição de chapéu Moda

Com neogótico tropical, estilistas reverenciam Brasil sem cores e estampas

Nomes são inspirados pelo balé e pela arquitetura brutalista

Pedro Diniz
São Paulo

Enquanto o exagero dos anos 1980 e 1990 define as tendências nas vitrines, parte dominante da moda brasileira se vale de estampas, logomania, cores estridentes e pele aparente para reproduzir um ideal de brasilidade compatível com o que se vê lá fora. Mas há o surgimento de uma geração interessada no apagamento dessa estética.

Como se reagissem à overdose de tons ácidos, oncinhas e pedrarias da roupa de festa, estilistas na casa dos 30 anos estão tirando a poeira da corrente minimalista que fez brotar e explodir na paisagem brasileira, no final do século passado, nomes como Mareu Nitschke e Sonia Pinto.

Entre o autodidatismo e o desejo de negar a ideia de que moda brasileira precisa reverenciar ao pé da letra a imagem de flora, fauna e heranças dos povos nativos, esses designers conjuram o modernismo, o balé clássico e a arquitetura, criando algo próximo de um neogótico tropical.

Não é que vendam o estereótipo vampiresco popularizado pela cultura pop, com cruzes invertidas, maquiagem pesada, anéis de caveira e sobretudo pesados. Algumas dessas referências podem até aparecer num acessório ou outro, mas as linhas, o metal pesado e a geometria parecem mais vinculados ao brutalismo de Le Corbusier do que ao ocultismo.

Look de Carlos Penna
Look de Carlos Penna - Henrique Falci/Divulgação

O ponto de interseção entre essas tesouras é o apreço pelo rigor da forma, os cálculos de modelagem que diferenciam sua moda daquela feita para vender a rodo. Essa ideia é levada ao extremo nas mãos de Alex Kazuo, 37, que atende na casa das pessoas ou com hora marcada em seu ateliê na Casa do Povo, no Bom Retiro —laboratório para marcas e projetos de colaboração entre artistas de diversos segmentos.

No último desfile que fez na Casa de Criadores, no mês passado, em São Paulo, ele trabalhou texturas, aviamentos e um balanço das gramaturas dos tecidos para criar roupas feitas em técnica de moulage, ou seja, costuradas com mão livre direto na forma do corpo.

A leveza do balé clássico conduziu a opereta de formas sinuosas visivelmente inspiradas nas vestes tradicionais do Japão, complementadas por aberturas nas golas, decotes e fendas que pincelam a relação do brasileiro com o corpo.

O preto é a base de quase todos os looks, mas ele não acredita que esses elementos o definam como estilista japonista, uma alcunha que por muito tempo tachou de colonizados os brasileiros que se aventuravam nessa estética. “Mas é claro que a origem da família influencia nas coleções”, diz.

Kazuo prefere aplicar medidas disformes inspiradas na antropofagia do modernismo brasileiro do que sagrar a visão hipercolorida que se vê na criação de moda atual.

O estilista Lucas Menezes, dono da grife D-Aura
O estilista Lucas Menezes, dono da grife D-Aura - Bruno Santos/ Folhapress

“Acho o carnaval visualmente incrível, mas não preciso das cores dele. Não por achar que a cultura nacional seja inferior ou que não encaixe na ideia de bom gosto, pelo contrário, posso tocar em aspectos mais sutis da cultura para imprimir um estilo”, diz o designer, que estudou um ano de arquitetura antes de enveredar pela moda.

Outro centro das atenções na Casa de Criadores, o estilista Lucas Menezes, 26, da grife D’Aura, já cansou de ouvir de críticos e clientes a pergunta “mas não tem uma estampa?”.

“Não. Minha visão de moda fala sobre uma experiência espacial, formas dentro da roupa, faixas e uma leitura da arquitetura e da vida na cidade. Vejo uma limitação sobre o entendimento de Brasil na moda. A arquitetura modernista influenciou gerações, e ninguém acha que eles foram menos brasileiros por isso. Se um dia estampar alguma coisa, não terá essa noção de ‘terra brasilis’”, diz o estilista.

Branco sobre branco, cinza concreto e, principalmente, preto sobre preto, identificam looks cortados em túnicas, camisões e golas ampliadas, um caldeirão pesado em uma imagem leve.

Com apenas três anos de marca, ele já acumula seis pontos de venda no Sul e no Sudeste, muito porque a turma neogótica vem se beneficiando do surgimento das “concept stores”, multimarcas experimentam no varejo uma moda independente de pressões comerciais.

Menezes, no entanto, não tenta fechar aos amigos e amigos de amigos o escopo da D’Aura. Estilista da marca jovem 2ndFloor, irmã mais nova da Ellus, seu posto lhe dá o bônus de assimilar os signos urbanos que funcionam e o comportamento da juventude.

Mas não é só de jovens que vivem essas marcas. O neófito do tecido Carlos Penna, 30, conhecido no meio fashionista pelos acessórios marcantes que povoam tanto passarelas famosas da São Paulo Fashion Week quanto independentes, já tem clientela de senhoras que curtem a modelagem ampliada de seus vestidos e conjuntos de matéria-prima nobre.

Penna não trabalha com divisão de gênero, estações e tecidos comprados em lojas comuns. Ele garimpa linhos, malhas e linhas para costurar os camisões-vestidos, as calças e blusas da POR.

O nome vem da ideia de conforto, de se cobrir sem querer modelar a aparência, não há nada de decotes ou pele à mostra em seus estudos de preto e off-white, aquele branco envelhecido, que é o máximo de coloração na qual quer chegar.

Mineiro com ateliê em Belo Horizonte, a meca da moda rococó e dos bordados suntuosos da costura nacional, acostumou-se a enfrentar preconceitos de donos de loja que dizem, por exemplo, que “brasileira não compra se a gola não for ‘v’” ou “se não tiver cintura marcada não funciona”.

Funciona, e tanto que a terceira coleção do projeto, a ser lançada em setembro, terá 25 modelos, o dobro da primeira leva, feita para testar a estética. As lojas dos estilistas Graça Ottoni e Ronaldo Fraga receberam o pretinho pouco básico de Penna, que também acaba de lançar um site.

“Nem toda mulher quer mostrar peito, cintura e sair por aí toda de oncinha, e nem todo garoto quer usar camiseta justa estampada. Essa ideia já deu.”

Jovens e quadrados

Lucas Menezes
Arquiteto, interessou-se em pesquisar forma e construção nos anos em que estudou na USP. Sua grife D’Aura é uma evolução dessa busca por funcionalidade. Também desenha para a 2nd Floor, segunda marca da Ellus

Alex Kazuo
Um dos mais sensíveis estilistas da Casa de Criadores, mescla conhecimentos em arquitetura e tesoura livre para criar uma imagem que bebe do japonismo e do modernismo brasileiro. Balé, artes visuais e música o inspiram

Carlos Penna
Expoente da nova geração do design de acessórios, estreou neste ano sua marca POR. O nome remete ao propósito de criar peças que cobrem o corpo mas não o definem. Cada camisa-vestido, calça ou blusa pretas esconde matemática afiada

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.