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Força de 'Escravidão Volume I' repousa em números e pormenores

Ao amor aos detalhes, Laurentino Gomes combina sua declarada aversão a 'anacronismos históricos'

Thiago Amparo

Escravidão - Volume I

  • Preço R$ 49,90 (504 págs.)
  • Autor Laurentino Gomes
  • Editora Globo Livros

“Personagens, datas e acontecimentos históricos são ferramentas de construção de identidade. Funcionam como âncoras lançadas no passado nas quais procuramos alicerçar valores, convicções, sonhos e aspirações do presente, enquanto preparamos a jornada rumo ao futuro.”

É assim que o jornalista Laurentino Gomes nos resume sua visão da história em “Escravidão – Volume I”.Oportuno num momento em que fatos históricos são esquecidos ou convertidos em meras opiniões, o livro nos proporciona um emaranhado de detalhes sobre a origem na África da escravidão negra e se estende por cerca de 250 anos, das primeiras capturas de escravizados por portugueses na costa africana até a morte de Zumbi dos Palmares.

Sendo hercúleo o esforço, Gomes o realiza com potência. Navega pela história, narrando o leilão e tráfico de escravizados, a relação perniciosa entre europeus e a elite africana à época e os horrores do período, e expõe, como se sob uma lupa, detalhes que aproximam na escrita do jornalista os fatos de sua dimensão humana de dor e crueldade.

Entre números e pormenores, repousa a força do livro.

Lembro aqui como Gomes descreve o comportamento dos tubarões que mudaram de rota para seguir os navios negreiros e seus corpos jogados ao mar, ou como dedica um capítulo inteiro aos números da escravidão negra.

Ao amor aos detalhes e números, Gomes combina sua declarada aversão a anacronismos históricos (termo dele). Teme que alguns no Brasil atual estejam incorrendo no erro de ler fatos de então com os olhos de hoje e não de outrora. E aqui chega a conclusões que demandam análise mais primorosa nos próximos volumes da trilogia do que de fato entrega neste. 

Segundo o autor, Zumbi dos Palmares “nunca foi abolicionista” e tinha escravos “capturados nos engenhos vizinhos”; “miscigenação racial entre a casa-grande e a senzala” só é mencionada à luz de Gilberto Freyre, e o mesmo tratamento é dado a teorias racistas; as origens da escravidão negra perpetuada por europeus são encontradas na existência de escravos na África antes da chegada dos portugueses; e “mulato” é uma palavra usada no livro de forma recorrente. 

Melhor compreender tais fatos não me parece um esforço anacrônico. Diferenciar que na África escravizados eram considerados prisioneiros de guerra, muitas vezes sendo livres depois de algumas gerações, e não mercadoria, como no regime europeu, não é uma distinção trivial. 

Explorar os fundamentos de violência sexual de gênero nos quais se baseava a miscigenação e oferecer olhar crítico sobre dúvidas etimológicas e uso contemporâneo da palavra “mulato” igualmente não me parece anacrônico.

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