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Cinema

'Minha Lua de Mel Polonesa' faz difícil humor com Holocausto

Filme acerta em não forçar piada o tempo todo; talvez com isso não seja desrespeitoso, apesar de um certo incômodo

Minha Lua de Mel Polonesa

  • Quando Estreia nesta quinta (29)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Judith Chemia, Arthur Igual, Brigitte Roüan
  • Produção França, 2019
  • Direção Élise Otzenberger

Comédia é um gênero difícil. Exige precisão e o tom certo. Pior ainda se há algum tipo de ruído na recepção, causado, geralmente, por diferentes costumes de culturas distantes. Mas também quando o assunto é sério demais e requer alguns cuidados especiais.

É o caso de "Minha Lua de Mel Polonesa", de Élise Otzenberger. A recepção ao filme pode variar entre a sensação de que é sem graça ou a de que é desrespeitoso.

Sem graça porque Anna (Judith Chemia) é uma chata de galochas, e seu marido Adam (Arthur Igual) é boboca além de nossa paciência. Estou falando dos personagens, obviamente.

Eles formam o casal francês, de origens polonesas, que viaja ao interior da Polônia para prestigiar uma homenagem à destruição de uma pequena cidade judaica, há 75 anos. Adam não está muito animado com a ideia, mas Anna o convence.

Fazer piada com o Holocausto é muito delicado. Pode-se chegar a bons resultados, mas deve haver uma sintonia fina para não cair no puro e simples desrespeito.

O filme acerta em não forçar o humor o tempo todo. Talvez com isso não seja realmente desrespeitoso, apesar de um certo incômodo. Por outro lado, talvez Otzenberger pudesse ter evitado um tom jocoso, quase esbarrando num certo nariz empinado de quem se acha acima do judaísmo.

É o que dá a entender as reações de Adam na primeira metade, quando ele nega insistentemente (e tolamente) suas origens judaicas.

Há poucos momentos interessantes. Os amigos poloneses, que apelidamos de Ping e Pong, e as confusões feitas com a língua na hora que vão alugar um carro com eles têm alguma graça.

Brigitte Roüan, atriz e diretora do belo "Post Coitum – Animal Triste" (1997), como a mãe moderninha de Anna, é uma das presenças que salvam o filme do desastre.

Se esperarmos alguma leveza do casal protagonista, contudo, estamos perdidos. Chemia e Igual parecem um tanto deslocados também, e por isso o humor raramente funciona.

Quando chegam à cidade da homenagem, local do nascimento da avó de Anna, e se tornam conscientes das questões locais, o filme cresce. Ali percebem que há poucos judeus, e que o nazismo fez estragos que duram até hoje, sendo perpetuado por novos nazismos.

Se o filme cresce no terço final, há o problema que é tudo que vem antes, ou seja, os dois terços iniciais. A impressão final deixa de ser tão negativa. Mas é tarde demais para salvar a sessão.

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