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Livros É Coisa Fina

Os patrocinadores do nazismo e um exército ridículo

Em resenha do livro 'A Ordem do Dia', o Guardian aponta semelhanças com Steve Bannon e Jair Bolsonaro

Tati Bernardi

A Ordem do Dia

  • Preço R$ 41,90 (144 págs.)
  • Autor Éric Vuillard
  • Editora Tusquets
  • Tradutora Sandra M. Stroparo

Começo por umas das últimas cenas do livro. Na primavera de 1944, Gustav Krupp, um dos “padres da indústria que entregou esmolas aos nazistas”, pergunta à sua família: “Mas quem são todas essas pessoas?”. Ele está delirante, vendo dezenas de milhares de cadáveres.

Fico sabendo, por essa esplendorosa obra (vencedora do prêmio Goncourt de 2017), que o elevador que todos os dias me transporta morosa até dar de cara com a rua agitada— e, mais tarde, me devolve cansada e saudosa à minha casa— leva uma das marcas que financiaram o nazismo: Thyssenkrupp. E, para continuar na temática “empresas que fazem parte de nossas vidas”, Basf, Bayer, Siemens e Allianz são algumas das 24 “máquinas de calcular nas portas do inferno” que estiveram no palácio do Reichstag em 20 de fevereiro de 1933, a fim de dar dinheiro para o partido de Hitler.

O cerne da proposta apresentada àqueles empresários, “o alto clero da indústria”, não soa tão distante de nossos dias: “[…] era preciso acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa”. Não à toa, em sua resenha desse livro, o The Guardian aponta semelhanças de discurso, logo de início, com Steve Bannon e Jair Bolsonaro

A narrativa de Éric Vuillard apresenta fatos curiosos, como a morfinomania e o egocentrismo delirante de Hermann Goering, fundador da Gestapo; o intelectual Günther Stern lustrando botas de nazistas no Hollywood Custom Palace, uma locadora de trajes para o cinema; o conservador Lord Halifax, um diplomata britânico que foi secretário de relações exteriores e embaixador nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, confundido Hitler com um serviçal.

 

Cheguei a sorrir ao imaginar o exército nazista, representado por “veículos de combate medíocres com blindagens leves demais” enguiçados: “no lugar da velocidade, a congestão; no lugar da vitalidade, a asfixia, no lugar do ímpeto, o freio”.

Contudo, o que mais fascina e envolve nesta obra é o modo como o autor francês compõe com uma narrativa ficcional sublime sua investigação precisa e necessária (sobretudo para que esses acontecimentos não se repitam —se é que ainda é possível, perante o avanço dos populistas de direita).

Livros de história nos dão as datas, os nomes e as situações mais terríveis sobre a anexação da Áustria ao Reich (e o apoio da maioria dos austríacos, que esperava emocionada pela chegada de Hitler), mas o que o chanceler Kurt Schuschnigg pensou ao encarar as montanhas pela janela da sala do Führer, o que os suicidas daquele ano de 1938 sentiram ao ver judeus ajoelhados nas ruas, isso só nos pode ser dado pelas mãos de um escritor brilhante: “A arte de narrar é tal que nada é inocente”.

 
Tati Bernardi
Tati Bernardi

Escritora e roteirista de cinema e televisão, é autora de “Depois a Louca Sou Eu”. Na seção É Coisa Fina, no site da Folha, escreve sobre livros de até 200 páginas.

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