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Cinema

Palavras do primeiro rabino gay assumido valem ingresso de filme

'Alma Imoral' às vezes fica num perigoso pêndulo entre o concreto e o abstrato

Sérgio Alpendre

Alma Imoral

  • Quando Estreia nesta quinta (8).
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Silvio Tendler

Apenas dois meses depois de "Fio da Meada" ser exibido na Mostra Ecofalante , o cinema didático de Silvio Tendler está de volta com "Alma Imoral", documentário inspirado no livro quase homônimo do rabino Nilton Bonder (Tendler, que parece avesso a artigos, suprimiu o artigo definido no feminino que está no título do livro).

O filme parte das palavras de Bonder, que é também roteirista e entrevistador no filme, e parte também de dogmas do judaísmo, da questão palestina e de uma série de entrevistas para pensar sobre o corpo e a alma, sobre as transgressões e os desejos de ruptura com uma ordem estabelecida.

Ou seja, Tendler está agora diante de algo um tanto mais abstrato do que veneno na comida, lutas sociais ou crises econômicas, motivos de seus filmes anteriores. Isto representa um desafio para sua linha didática.

O que mais interessa, no livro de Bonder e no filme de Tendler (a também na peça de teatro baseada no livro), é o pensamento. De certo modo, o filme continua o livro nessa busca. Pode-se reclamar do tipo de cinema buscado por esse diretor, mas ninguém pode negar sua personalidade.

O longa "Alma Imoral" é a condensação de uma minissérie em cinco capítulos com duração média de 52 minutos, que será exibida pelo Canal Curta a partir de 20 de agosto. Isto não significa que seja pior, pois a ordenação das imagens tem de buscar obrigatoriamente uma outra lógica, mais sintética no longa.

Os nomes dos cinco capítulos da minissérie elucidam a busca: "Ruptura e Continuidade", "Ruptura e Gênero", "Ruptura e Política", "Ruptura e Território" e "Ruptura e Tradição". Ou seja, a ideia de ruptura é fundamental na minissérie, como no longa e no livro.

E nesse processo, a própria direção rompe com o que seria esperável em cenas de dança: a câmera não capta os corpos dançantes da melhor maneira possível. No lugar, a câmera dança junto desses corpos. Ela é parte da coreografia de Deborah Colker. A imersão em vez da contemplação.

"Alma Imoral" não é um filme fácil. Às vezes fica num perigoso pêndulo entre o concreto e o abstrato, em outras vezes parece ambicioso demais para o tamanho de seus braços. Funciona pelo que tem de dissonante, de ruptura, e porque sentimos, mais uma vez, que há muita paixão no didatismo de Silvio Tendler.

E como sempre em seus filmes, uma entrevista, entre as muitas realizadas, é desnorteante, no melhor sentido possível. As palavras de Steven Greenberg, primeiro rabino assumidamente homossexual, valem o ingresso.


 

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