Descrição de chapéu Livros

Autor de 'A Sutil Arte de Ligar o Foda-se' defende esquecer coisas pequenas

Escritor americano Mark Manson só alerta que não dá para deixar de dar bola para tudo

Ivan Finotti
Rio de Janeiro

Quando escreveu o livro “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se”, o americano Mark Manson teve ao menos uma ideia para lá de brilhante: o título. Não que tenha sido fácil lançar seu livro de autoajuda com um palavrão no nome da obra.

Com o texto pronto, Manson e seu agente começaram a buscar editoras nos Estados Unidos dispostas a lançar um título desses. “No fim das contas, ficamos entre as poucas que toparam. Foi bem controverso”, contou em entrevista à Folha na semana passada, durante a Bienal do Livro do Rio. O nome, afinal, era ótimo e ele sabia disso. A escolhida foi a HarperCollins.

Ligar o foda-se significa não dar bola para nada, desencanar, deixar de se preocupar. E ele não estava preocupado. A saída nos Estados Unidos, e repetida no Brasil, foi botar uma mancha de tinta no lugar do “o”, mais ou menos assim: “f*da-se”. Ou do “u”, no caso da edição americana de “The Subtle Art of Not Giving a F*ck” (há ainda, nos EUA, uma versão com tarja em cima do palavrão).

 

O sucesso foi imediato e estrondoso. Manson foi para o primeiro lugar da lista de best-sellers do New York Times, o que o catapultou para ser traduzido no mundo inteiro. 

Foi o livro certo na hora certa, uma vez que toda a humanidade parece estar estressada e brigando pelas redes sociais. “Sim, obviamente o título é responsável por muito do sucesso do livro. Mas se fosse um livro ruim, não iria em frente”, acredita Manson.

Lançado nos Estados Unidos em setembro de 2016, com o subtítulo “Uma Estratégia Inusitada para uma Vida Melhor”, vendeu 8 milhões de exemplares no mundo em três anos. Para ter uma ideia, o prestigiado romance “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, que deu origem à série “The Handmaid’s Tale”, também vendeu 8 milhões, mas após 34 anos de seu lançamento. 

No Brasil, “A Sutil Arte...” foi lançado um ano depois pela Intrínseca e, segundo a editora, alcançou espantosos 1,3 milhão de cópias. É uma vitória especial para quem é casado com uma brasileira e frequenta o país há uma década.

“Vim para o Carnaval de Salvador em 2010. Foi uma experiência [arregala os olhos] maluca. Depois, em 2012, vim para São Paulo e morei na cidade por dois anos. Venho todo ano. Me casei no Brasil”, afirma o autor, que vive com a mulher em Nova York.

Para ele, o título dá a impressão que ele ligou “o foda-se para tudo”, mas não é bem isso. 

“Acho que quem compra está estressado, gostaria de se preocupar menos, mas após 20 páginas percebe que, sim, precisa se preocupar com alguma coisa. O fato é que, se você está constantemente preocupado com o que não é importante, não terá tempo para o que vale a pena se preocupar.”

Como estamos expostos a muita informação nos dias de hoje, a grande questão é o que vamos escolher para prestar atenção, diz. “Nos últimos dez anos, acho que todo mundo teve a experiência de ficar muito bravo com alguma coisa e depois percebeu que não era para tanto. Parece ser um problema constante com a atual tecnologia. Então o livro é sobre o que vale a pena se preocupar”, completa.

Para quem sobrevivia desde 2007 de escrever um blog pessoal —“sim, é possível viver de blog nos EUA”, explica—, foi a realização de um sonho. Curiosamente, o autor ficou melancólico após o sucesso.

“Eu não sabia mais o que fazer, ficava jogando videogame o tempo todo e não entendia por que estava pra baixo. Quando você vende milhões, você deveria estar feliz, né? O que está acontecendo? Demorei quase um ano para entender. Passei a vida querendo estar na lista do New York Times. E aí aconteceu e eu não tinha mais sonhos para perseguir. A saída foi escrever outro livro”, disse.

Assim que seus editores souberam que vinha nova obra por aí, se prontificaram em dar sugestões: “Que tal ‘A Sutil Arte de Ligar o Foda-se para Adolescentes’? Ou ‘A Sutil Arte de Ligar o Foda-se para Pais’? E ‘A Sutil Arte de Ligar o Foda-se para Professores’?”.

“Nãooo”, Manson respondeu. E veio com “Fodeu Geral – Um Livro Sobre Esperança?” (“Everything Is Fucked – A Book About Hope” no original).

“Tive duas inspirações para escrever esse novo livro. Uma é que as pessoas em todo lugar estão bravas o tempo todo. Por outro lado, esta é a melhor época para se estar vivo. Juntei isso com minha experiência pessoal, em que, quando atingi minha meta, me senti pior do que antes.”

Sua grande ideia, contou, foi ter concluído que quanto mais as coisas melhoram, pior nos sentimos. “O novo livro é uma investigação nesse sentido. Meu argumento é que o homem precisa de conflito em sua vida. Se as coisas ficam mais confortáveis, inventam-se novos problemas.”

Em “Fodeu Geral”, que também atingiu a primeira posição do New York Times, Manson não fala sobre política especificamente, mas aborda o tema de modo mais geral. “Por que tanto os direitistas quanto os esquerdistas estão tão irritados?”, pergunta.

Nesse ponto da entrevista, Mark Manson foi questionado sobre quem está mais fodido hoje: os brasileiros ou os americanos?

“Bem, ó meu Deus”, começa a responder em meio a risos. “Pessoas estão muito irritadas com Trump. E com Bolsonaro. Irritadas com florestas em chamas ou com um furacão. Mas há muito foco em coisas pequenas, quando acho que o problema de verdade está no sistema, em como as coisas funcionam”, respondeu o autor.

Como Manson claramente saiu pela tangente, o repórter liga o foda-se e insiste: “Você não respondeu à pergunta”.

“Ah, vai...  Quero dizer, quero dizer. Ok, obviamente são os brasileiros. Há muitos problemas gigantescos aqui. E vocês têm muitos problemas aqui que nós não temos lá.”

Pois é. Tá foda.

‘A Sutil Arte de Ligar o Foda-se’ 
(Intrínseca, 224 págs., R$ 34,90)

Obra de autoajuda de 2016 que questiona as razões pelas quais ficamos irritados e aponta caminhos para que o leitor gaste seu tempo apenas com o que realmente importa

‘Fodeu Geral’
(Intrínseca, 288 págs., R$ 34.90)

Livro de 2019 no qual o autor aborda o conceito de que o ser humano inventa conflitos na mesma medida em que a vida vai ficando mais fácil

‘Models’
(Edição do autor, 260 págs., US$ 12,12, apenas em inglês)

Livro de 2011 traz o subtítulo “Atraia Mulheres por meio da Honestidade” e sugere aos homens relações não baseadas em táticas de conquista e na manipulação feminina

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.