Secretário de Cultura nomeado por Bolsonaro nunca atuou no setor

Ocupante anterior do cargo saiu por não admitir que governo imponha 'filtros' na cultura

Clara Balbi Thaiza Pauluze
São Paulo e Brasília

O novo secretário especial da Cultura do Ministério da Cidadania, Ricardo Braga, 50, é um economista paulistano que nunca atuou no setor cultural. Ele foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira (4).
 
Formado em economia e com MBA em finanças corporativas, Braga fez carreira no mercado financeiro, em bancos e corretoras. Foi superintendente de operações do banco Votorantim e deixou o cargo de diretor de investimentos do Andbank Brasil, um banco de investimentos europeu que opera no país desde 2011, para assumir o posto na secretaria.

O economista Ricardo Braga, novo secretário especial da cultura do Ministério da Cidadania
O economista Ricardo Braga, novo secretário especial da cultura do Ministério da Cidadania - Divulgação

Segundo interlocutores que acompanham o caso relataram à Folha, Braga foi indicado diretamente por Bolsonaro, sem consulta ao ministério comandado por Osmar Terra. Sua nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União.
 
Em nota, na noite desta quinta-feira (5), Terra afirmou que a indicação de Braga “corresponde às necessidades da pasta em imprimir um maior dinamismo e eficiência” aos projetos da secretaria, “conforme também desejava o presidente da República, Jair Bolsonaro”.

Braga deve ter sua primeira reunião com o ministro nesta segunda-feira (9).

A produtora Bianca De Felippes, de filmes como “Carlota Joaquina” (1995) e “Faroeste Caboclo” (2013), critica a nomeação de alguém sem experiência no setor. "É como chamar um malabarista para dirigir um hospital, mesmo ele não sendo médico e não sabendo nada da área, porque só atuou em circo", afirmou.

Laís Bodanzky, presidente da Spcine, diz ter recebido com espanto o anúncio do novo secretário, e afirma aguardar um primeiro pronunciamento para entender o motivo pelo qual ele aceitou o cargo.

Ela não avalia de modo necessariamente negativo o perfil do economista, e acredita que ele possa ajudar a “traduzir os números” da área.

Mas espera que ele seja capaz de entender com rapidez as complexidades da cultura como um todo. “Tem muita coisa parada. Se formos esperar cem dias até ele diagnosticar os problemas, vai acabar o ano”, diz.
 
Braga substituirá Henrique Pires, que deixou o cargo no final de agosto por não admitir que o governo imponha "filtros" à cultura (desde então, José Paulo Soares Martins estava no posto como interino).

A decisão de Pires de sair da secretaria ocorreu pouco depois da suspensão de um edital com projetos LGBT para TVs públicas.

Na ocasião, ele disse à Folha que aquele era apenas a "gota d'água" de uma série de tentativas do governo de impor censura a atividades culturais e que há há oito meses vinha tentando contornar diversas tentativas de cerceamento à liberdade de expressão.

Segundo o agora ex-secretário, esses filtros estão se propagando pelo governo e as pessoas estão chamando censura "por outro nome". 
 
"Ficou muito claro que eu estou desafinado com ele [Terra] e com o presidente sobre liberdade de expressão", disse o então secretário. "Eu não admito que a cultura possa ter filtros, então, como estou desafinado, saio eu", afirmou Pires, à época.

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