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Bolsonaro é 'apenas o aprendiz' de Trump, diz vencedor do Prêmio Camões

Escritor angolano Pepetela critica não assinatura de diploma a Chico Buarque e o momento atual da literatura

Fábio Zanini
São Paulo

Prestes a completar 78 anos, Pepetela acompanha de sua casa, de frente para a baía de Luanda, as notícias que afligem o meio cultural do lado de cá do Atlântico.

O escritor angolano, que vem ao Brasil há mais de 40 anos e tem amigos em várias cidades, tenta não superestimar as notícias sobre censura oficial e corte no financiamento a projetos.

“O Brasil tem uma tradição cultural tamanha que não há problema em continuar a desenvolver-se tranquilamente. É impossível calar os criadores neste momento”, disse à Folha, em voz pausada e tão baixa que às vezes se confunde com um murmúrio.

Nome de guerra de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que usa desde sua participação na guerrilha marxista durante a luta pela independência angolana de Portugal, nos anos 1970, Pepetela está lançando no Brasil “O Quase Fim do Mundo”.

O romance, lançado originalmente em 2008, trata de uma comunidade que sobrevive a um evento apocalíptico. Pepetela escolheu como cenário a África, com personagens simbólicos do continente, como uma curandeira, um pescador e uma senhora religiosa.

A opção por situar uma distopia em solo africano segue fazendo sentido, diz ele, mesmo com o avanços democráticos em vários países e maior crescimento econômico.

A principal dificuldade enfrentada hoje pelos países pobres, segundo o escritor, é causada por “alguns seres que parece que vieram de alguma estrela gélida e com muito poder governam com o Twitter”.

Refere-se, claro ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de quem desdenha com  sua forte veia irônica. 

“Ele é o que Mao Tsé-tung dizia do imperialismo, um tigre de papel”. E Jair Bolsonaro?

“É apenas o aprendiz.” Pepetela expressa satisfação com os novos tempos em seu país, que trocou de presidente em 2017 após 38 anos.

“Já senti mais otimismo. Agora é o ano do realismo, é impossível cumprir tudo o que se prometeu. De qualquer maneira, o governo atual é muito melhor. Não há mais problema com jornalista, a liberdade de expressão cresceu”, diz ele, que durante sete anos, até 1982, foi vice-ministro da Educação.

Depois tornou-se um crítico da esquerda dogmática e hoje se define como um “libertário”. Vencedor do Prêmio Camões de 1997, Pepetela faz eco com Chico Buarque ao menosprezar a recusa de Bolsonaro de assinar a honraria. 

“Eu tenho o certificado assinado pelos presidente Fernando Henrique e [o português] Jorge Sampaio, pessoas de grande valor intelectual”, afirma, deixando no ar o contraste com o que pensa sobre o valor intelectual de Bolsonaro.

Ele não vê a literatura num grande momento, em parte porque muitos países passam ou passaram por crises severas. “As pessoas não têm dinheiro. O primeiro bem que se dispensa é o livro”, diz.

E também, acredita, o mercado literário ainda está se adaptando a um mundo em que as pessoas ficam mais tempo a teclar do que a ler.

Um pouco em razão desse cenário, ele enxerga uma crise no prêmio mais cobiçado de sua área, o Nobel de Literatura.

Diz que não tinha ouvido falar dos vencedores deste ano, a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke. Mas assegura que esse não é o motivo de sua crítica, e sim a sucessão de polêmicas extraliterárias envolvendo o Nobel.

No ano passado, o prêmio não foi entregue devido a um escândalo sexual. Neste ano, o problema foi a proximidade de Handke com o ex-ditador sérvio Slobodan Milosevic.

“O Nobel está a ficar desacreditado, por razões de fora da literatura. Não devemos pensar que o prêmio seja muito importante, já foi mais.”

Um ano após lançar seu último romance, “Sua Excelência de Corpo Presente”, Pepetela diz que não tem definido seu próximo projeto. “Isso não me preocupa, um livro ou acontece, ou não acontece”, diz ele.

Mas é provável que o jejum dure pouco, revela. “Minha mulher começa a dizer que estou na fase da implicância. E que é hora de ir para o computador.”

O Quase Fim do Mundo

  • Preço Ed. Kapulana. R$ 56,90 (360 págs.)
  • Autor Pepetela
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