Antonio Nóbrega encaixa reflexões de ordem política em poesia popular

Artista revê modos brasileiros de rimar e pede repostas sobre caso Marielle em disco que rompe uma década de silêncio

São Paulo

Antonio Nóbrega começa seu novo single, “Minha Voz Não Silencia Porque Poeta Não Cala” falando de Bob Dylan, Paulo Leminski, João Cabral de Melo Neto e de Luís de Camões, entre outros nomes conhecidos. Mas não é nesses autores que se baseia “Rima”, o recém-lançado oitavo álbum desse artista pernambucano.

“Queria fazer um trabalho que o coração dele fosse a palavra”, ele diz. “É por aí que me sinto bem. Eu queria também, por outro lado, dar visibilidade a essas modalidades de poesia popular, que às vezes são colocadas apenas como música regional, mas cuja estrutura transcende essas definições.”

homem com chapéu e paletó
O músico pernambucano Antonio Nóbrega - Divulgação

Em “Rima”, Nóbrega explora essa poesia popular brasileira em estilos como a embolada, a sextilha e o galope beira-mar. Essas modalidades, conta Nóbrega, estão presentes há anos na vida do cantor, que conheceu as manifestações culturais por meio do escritor conterrâneo Ariano Suassuna.

Na música “Na Bola da Embolada”, acompanhado por um pandeiro, ele explica as modalidades de poesia que está usando. O agalopado, por exemplo, que tem estrofes de dez versos decassílabos, ou o galope beira-mar, com dez versos de 11 sílabas cada um. “Como macaco, cada rima tem seu galho”, ele canta.

“Rima” —cujo show de lançamento ele mostra na Casa Natura Musical, em São Paulo, neste fim de semana— quebra um hiato de 12 anos que Nóbrega passou sem lançar discos.

Não que ele tenha ficado afastado da música nesse período. Nóbrega escreveu trilhas de espetáculos de dança e chegou a examinar a obra de Luiz Gonzaga para o espetáculo “Lua”, de 2012. “O cancionista é que ficou ausente de produções novas”, diz.

Músico multi-instrumentista desde a infância, Nóbrega passou os últimos anos dedicado aos espetáculos de dança. “Pai”, de 2015, e “Húmus”, de 2013, são alguns deles.

“Sou mais músico que letrista”, diz. “Então, vou armazenando as ideias musicais que eu tenho, que são consanguíneas com a poesia popular.”

Para o álbum, ele trabalhou durante o ano passado com os poetas e letristas Bráulio Tavares e Wilson Freire, além do músico Rodrigo Bragança.

​Seguindo a estética dessa poesia popular — à qual “a canção brasileira faria bem em dar um pouco de atenção”, segundo Nóbrega—, o pernambucano passa por vários temas. “Qualquer conteúdo você coloca dentro da estrutura poética”, diz. “Por exemplo, dentro de um soneto, você pode escrever o que quiser —seja algo rural, da cidade, da favela, de qualquer coisa.”

O cerne do disco, naturalmente, são os versos e a poesia, mas ele também se mostra interessado na figura e na função do poeta. “Percebi que a palavra nesse momento deve se fazer presente”, diz. “Acho que a poesia deveria colocar sua voz a serviço de mostrar nossa indignação e repulsa em relação ao que está acontecendo.”

O que estamos vivendo, diz Nóbrega, é “um período de tendência muito grande ao obscurantismo cultural”. Entre os atributos do presidente Jair Bolsonaro, o artista enumera indignidade, falsidade e ignorância.

“As forças que temos para conter isso têm que se mostrar também fortes. Temos que mostrar posição.” 

Nóbrega marca posição na música “Meu Tempo”, em que faz uma reflexão desacreditada sobre a situação do país. Também em “Bruma”, versando sobre a tragédia de Brumadinho e, principalmente, em “Quem Mandou Matar Marielle?”, sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco.

“Minha indignação pessoal estava de tal maneira que decidi colocar a canção a serviço da pergunta”, diz. “O tempo está sepultando parte dos fatos. O assassinato ainda não foi esclarecido e se posterga. Nuvens nebulosas estão pairando, e nós estamos espantados.”

Rima

  • Onde Nas plataformas digitais
  • Autor Antonio Nóbrega
  • Gravadora Tratore

Antonio Nóbrega

  • Quando Sábado (16), às 22h
  • Onde Casa Natura Musical, r. Artur de Azevedo, 2.134
  • Preço entre R$ 50 e R$ 120
 

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