Descrição de chapéu
Livros

Livro celebra face demasiadamente humana de Susan Sontag

Benjamin Moser desvenda contradições de escritora que deu nova roupagem à figura da mulher intelectual

Sontag: Vida e Obra

  • Quando Nas livrarias a partir de 29/11
  • Preço R$ 109,90 (704 págs.)
  • Autor Benjamin Moser
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução José Geraldo Couto

Ao escrever sobre o filósofo Walter Benjamin, Susan Sontag chama-nos a atenção para que, embora não possamos interpretar a obra de um autor a partir da sua vida, seríamos capazes de interpretar a sua vida a partir de simples exame do seu trabalho. Benjamin, segundo a escritora, teria se projetado nos seus principais textos em uma tentativa de mapear diversas expressões da sua personalidade.

O mesmo poderia ser dito de Sontag, cujo amor pelos livros e pela cultura muitas vezes se confunde com a sua necessidade de se fazer evidente para justificar a busca por autoconhecimento. De modo que, ao nos brindar com textos sobre alguns dos seus heróis, Benjamin, Artaud, Cioran e outros, ela estaria nos revelando algo sobre si; assim como Goethe fizera ao admitir que todas as suas publicações nada mais seriam do que fragmentos de uma confissão.

Esta comparação não é por acaso. Entusiasta da literatura alemã, Sontag não deixa de ser herdeira distante daquele ideal de formação proposto no século 18 pelo autor, fonte de inspiração de Thomas Mann em “A Montanha Mágica”. Obra na qual, ainda muito jovem, Sontag identificou a si própria.

É ao emular a dinâmica entre o mundo das ideias e a experiência de vida que a biografia de Susan Sontag por Benjamin Moser apresenta-nos uma personalidade extraordinariamente complexa a determinar as tendências culturais de uma geração na medida em que se lança ao mundo na tentativa de superar os seus próprios limites. 

A biografia de Sontag trata da morte precoce do seu pai, quando ela ainda era criança, das seguidas mudanças da sua família pelo país e do casamento de sua mãe com o piloto de guerra Nathan Sontag. 

Também relata o seu casamento com o professor de sociologia Philip Rieff, com disputas entre o casal pela autoria de “Freud: The Mind of the Moralist” (no Brasil, "Freud: Pensamento e Humanismo"), bem como o seu conturbado relacionamento com o filho, David, e o tumultuoso convívio com algumas das suas mais célebres companheiras, dentre elas, a fotógrafa Annie Leibovitz.

As análises de Moser desenvolvem-se a partir de duas importantes hipóteses. A primeira é o impacto do alcoolismo materno na formação da escritora, ora a demonstrar excessiva maturidade, ora a não conseguir lidar com as exigências mais simples do universo adulto. A segunda é a ambivalência de Sontag quanto à sua homossexualidade, excitando a desconfiança de uma geração que, no final dos anos 1970, lutava por maior visibilidade. 

Assim, mesmo abordando erros e acertos da escritora, Moser celebra uma personagem demasiadamente humana, dando-nos oportunidade de formarmos opinião sobre a autora que, segundo a crítica Camille Paglia, teria emprestado uma nova roupagem à figura da mulher intelectual.

Moser desvenda as contradições da autora e do seu projeto intelectual para que, quem sabe um dia, todos possam melhor compreendê-la.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.