Ganhadora de três Grammys, Lizzo usa humor para falar de ódio

Rapper recusa alcunha de 'fora do padrão' para reafirmar sua beleza e diz que seu sucesso vem da dedicação

Rio de Janeiro

“Eu ganhei três Grammys. É mais que... Quantos Grammys você já ganhou?”, pergunta Lizzo, nada feliz com a pergunta sobre como se sentiu ao perder as categorias principais para Billie Eilish na cerimônia que aconteceu em Los Angeles há pouco mais de duas semanas.

“Não ter vencido oito Grammys? Quem no mundo espera vencer todos os Grammys para os quais é indicado?”, continua. “Me perguntar esse tipo de coisa não é justo porque eu não vou sentar aqui e dizer por que eu não ganhei oito Grammys. Eu ganhei três. Merda. Eu estou feliz. Eu sou agradecida. É uma sensação ótima.”

A entrevista fez parte de uma turnê de divulgação que a cantora tem feito pelo mundo com uma entourage de cerca de 15 pessoas. Todas as conversas foram gravadas em vídeo — assista abaixo.

 

Lizzo também fez um pocket show na noite de quinta (6), para a intelligentsia carioca de influenciadores digitais no YouTube Space, no Rio. Centenas deles, além de jornalistas e convidados, formaram o público de 450 pessoas que acompanhou o show de 22 minutos.

Não há dúvidas de que é uma ótima sensação para Lizzo ter ganhado os prêmios de performance solo em música pop, performance em R&B e álbum urbano contemporâneo. Mas era ela quem tinha o maior número de indicações nesta edição do Grammy.

E ter perdido para Eilish nas categorias de gravação do ano, álbum do ano, música do ano e melhor nova artista certamente foi um balde de água fria na ascendente carreira dessa cantora de Detroit, que tem chamado atenção ao desafiar as convenções de beleza com suas bem-humoradas letras de autoafirmação e empoderamento.

Como em “Truth Hurts”, a que ganhou o Grammy de melhor performance solo em música pop. “Acabei de fazer um teste de DNA/ Deu que sou 100% aquela vadia/ Mesmo quando estou chorando loucamente/ Sim, eu tenho problemas com garotos.”

Ou em “Jerome”, que venceu a performance em R&B, uma canção que, pelo tema, pelo estilo e pela impressionante interpretação, poderia figurar em qualquer um dos grandes álbuns de Amy Winehouse: “Jerome, Jerome/ Tira a bunda daí e vai para casa/ Volte quando você tiver crescido”.

 
Apresentação exclusiva de Lizzo no Brasil - Divulgação

O Grammy tem regras elásticas o suficiente para que Lizzo tenha concorrido como nova artista, mas ela está longe de ser estreante. Seu último disco, “Cuz I Love You”, de 2019, é o seu terceiro. Em 2015, ela já havia lançado dois álbuns que não chegaram às paradas.

Com 31 anos, 1,78 m de altura e 140 kg (segundo sites americanos de celebridades), Lizzo não acha que sua beleza fora dos padrões tenha sido a causa de seu sucesso.

“Eu acho que as pessoas ficaram tipo ‘Nossa ela é tão linda’ e eu fico ‘É, né?’. Quer dizer, o que é uma beleza convencional? Sabe, eu ando em um lugar e as pessoas param para me encarar. O que é ser mais bonito que isso?”

“Mas não acho que é por isso que eu tenho sucesso. Eu tenho porque sou muito talentosa, trabalho muito. Acho que mulheres sempre vão ser criticadas por existirem e por seus corpos, e eu não sou diferente de nenhuma outra mulher incrível que tenha vindo antes de mim e teve que, literalmente, lutar para não ser sexualizada. Nós não falamos do tamanho do pau de vocês, não saímos por aí dizendo ‘Esse não é um tamanho convencional de pau, é muito pequeno’. Entende? [risos]” 

Apesar de seus posicionamentos claros, Lizzo prefere usar o humor ao ódio em suas letras. “Sim, sim. Quer dizer, eu escrevi músicas sobre ódio, mas elas são engraçadas [risos]. Sabe? Como em ‘Truth Hurts’. ‘Eu nunca, nunca, nunca, nunca, nunca serei sua amante’, sabe? ‘Eu sou 100% aquela vadia’. Entende o que eu estou dizendo?”, tenta explicar.

“Ainda é um ‘vai se foder’, mas estou fazendo isso com um sorriso, sabe? Eu acho que essa é a minha personalidade. Tudo é engraçado. Eu rio quando choro. E acho que é isso que mostra a minha música. Acho que as pessoas gostam disso.”

Quanto à sua grande inspiração, Lizzo diz buscar seguir os passos de Aretha Franklin. “Mulher negra forte criada em Detroit, cresceu no meio do gospel, tocou seus instrumentos, tinha uma voz forte, uma voz política. Uma rainha.”

“Eu estava ‘Oh, eu quero ser como Aretha!’. E eu acabei colocando isso na cabeça dentro do estúdio, tipo, ‘Se a Aretha lançasse um álbum de rap hoje, como seria?’. E em 2018, eu trabalhei tanto para fazer isso, e eu queria tanto que ela ouvisse. Infelizmente, ela morreu [em agosto de 2018]. Mas eu ainda tenho essa motivação, de tipo ‘Isso é para a Aretha’.”

Outra inspiração é Prince, com quem chegou a trabalhar em um disco de 2014, participando da banda que o acompanhou. Sobre ele, porém, Lizzo é bem menos verborrágica do que sobre Aretha.

“Eu sempre quis ser bastante privada em relação ao Prince porque não é da conta de ninguém. Mas o Prince é um músico incrível, um mentor incrível, pessoa incrível, eu aprendi muito com essa experiência. Recebi meu primeiro grande cachê.”

De quanto foi? “Eu não posso te dizer quanto foi. Mas foi algo grande que mudou a minha vida. É o mesmo sentimento surreal que ser indicada ao Grammy. Qual o sentimento de gravar com o Prince? Essas coisas não acontecem na vida das pessoas. Então eu sou muito graciosa e agradecida.”

Mas como ele era? “Hmm, isso não é da sua conta [risos]! Vá ler uma biografia dele.”

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