Por que os últimos 50 anos não seriam os mesmos sem o Black Sabbath

Banda deixa um legado que vai do surgimento do heavy metal ao sucesso dos reality shows com famílias

São Paulo

Um nome pode fazer muita diferença. É difícil imaginar o mundo do rock comemorando os 50 anos do primeiro álbum da Polka Tulk Blues Band. E assim era chamada a primeira formação do Black Sabbath, três anos antes de o grupo lançar seu homônimo disco de estreia, que completa meio século de influência nesta quinta-feira (13).

Entre Polk Tulk e Sabbath, a banda teve um breve período como Earth, nome abandonado porque havia outro grupo na cena britânica chamado assim. E, é bom dizer, era hippie demais para um bando de garotos bebedores de cerveja vindos da classe baixa de Birmingham.

Em 1968, tudo o que eles queriam era tocar blues pesado. O caminho era trilhado na época pela nova banda de Jimmy Page, que de New Yardbirds se transformaria no Led Zeppelin. Musicalmente, o quarteto que se tornaria o Sabbath tinha influências dos Beatles, do Cream de Eric Clapton, do bluesman americano Robert Johnson, do folk inglês e até de música clássica.

Mas aí veio “Black Sabbath”, a canção. Os acordes graves da guitarra de Tony Iommi e o batuque meio “quebrado” do baterista Bill Ward vão construindo uma música arrastada. Em clima apavorante, o vocal berrado, desleixado e titubeante de Ozzy Osbourne canta os versos escritos pelo baixista Geezer Butler.

Não é exagero dizer que os seis minutos dessa gravação criaram o heavy metal. Butler era louco por literatura e cinema de terror, e essa paixão contaminou o grupo. O nome da música e da banda veio do filme que o italiano Mario Bava dirigiu em 1963, “As Três Máscaras do Terror”, exibido na Inglaterra e nos Estados Unidos como “Black Sabbath”. No elenco, o ícone Boris Karloff.

A letra de Butler fala de um homem tomado de pavor diante de uma entidade maligna. A moldura sonora não poderia ser mais assustadora. Quando a banda concluiu a gravação, ficou evidente que era algo diferente de tudo que o rock produzira antes. Incorporada aos shows, passou a ser um momento de catarse.

Tudo o que fizeram para aquele que seria o álbum de estreia foi norteado por devoção a terror, ocultismo e magia negra. O disco foi gravado numa sessão de 12 horas no estúdio, em outubro de 1969. Trouxe dois covers, “Evil Woman”, da banda americana Crow, e “Warning”, do baterista e bandleader inglês Aynsley Dunbar.

Mas a revolução está mesmo nas tenebrosas canções originais do quarteto. “Behind the Wall of Sleep” é inspirada em um conto do mestre americano do horror H.P. Lovecraft. “Sleeping Village”, talvez a mais soturna, tinha como primeiro título “Devil’s Island”, tido como explícito demais até para o Black Sabbath.

“The Wizard” vem de mais uma inspiração literária. É fácil relacionar o personagem-título com Gandalf, o feiticeiro de “O Senhor dos Anéis”. Para muitos fãs, a favorita é “N.I.B.”, cuja letra é narrada do ponto de vista de Lúcifer. Uma vez na Terra, o demônio se apaixona por uma mulher.

A temática do terror vai além das músicas. Na capa do álbum, uma modelo posa de bruxa. Para a data de lançamento, a escolha foi a primeira sexta-feira 13 que viria a seguir no calendário. No caso, em fevereiro de 1970.

Os dois álbuns seguintes, “Paranoid” (1970) e “Master of Reality” (1971), são incursões mais radicais no som grave e arrastado e nas letras satanistas. Com esse três discos, o Sabbath não só formatou o heavy metal como originou diretamente dois subgêneros, o doom metal e o gothic metal.

Em seu quarto álbum, “Vol. 4” (1972), a banda cometeu a aparente heresia de introduzir sintetizadores no rock pesado. Esse movimento se revelou fundamental na posterior criação do metal progressivo.

A partir da segunda metade dos anos 1970, os problemas de relacionamento na banda, em boa parte motivados por álcool e cocaína, levaram o Sabbath a uma incessante troca de integrantes pelos 20 anos seguintes. Com algumas reuniões dos membros originais de tempos em tempos, apenas Tony Iommi participou do grupo por toda a carreira. Ele, Ozzy e Butler estavam no show de despedida, em 4 de fevereiro de 2017.

Fora da banda, Ozzy tem uma bem-sucedida carreira solo. Em sua maluquice turbinada por drogas, ele se transformou numa poderosa figura midiática. Foi protagonista de um episódio bizarro, ao morder um morcego morto atirado ao palco durante um show nos anos 1980. 

Ele criou em 1996 o festival Ozzyfest, maior evento itinerante de metal no mundo, em vários países, com várias edições estreladas por ele ou pelo Black Sabbath. Na TV, exibiu sua vida familiar em “The Osbournes”, marco fundamental nos reality shows. Aos 71 anos, diagnosticado com Parkinson, lança novo álbum solo no próximo dia 21, “Ordinary Man”.

Sem Ozzy, o Sabbath teve outros nove vocalistas, embora só quatro tenham gravado com a banda: Ronnie James Dio, Ian Gillan, Glenn Hughes e Tony Martin. Dio foi o mais aclamado, cantando em quatro álbuns, entre eles o reverenciado “Heaven and Hell” (1980). Já “Born Again” (1983) ganhou notoriedade por ser o único disco com a voz de Gillan, cantor do Deep Purple.

Mas a força do Sabbath está nos três primeiros álbuns. A própria banda reconhece, já que o repertório de sua longa turnê de despedida foi praticamente concentrado neles.

Muito além da paternidade do heavy metal, é preciso reconhecer que os últimos 50 anos não seriam os mesmos sem o Black Sabbath. Nada mal para pobretões fanáticos por bebidas e filmes de terror.

Os herdeiros do Black Sabbath

Doom metal 
Esse subgênero do rock pesado nasceu do som do Sabbath em seu terceiro álbum, “Master of Reality” (1971). Bandas como Candlemass e Pentagram beberam na fonte

Gothic metal 
Outro subgênero em que qualquer teste de DNA musical vai indicar a paternidade do Sabbath. Paradise Lost e Type O Negative assumem a influência

Prog metal 
Os grupos dessa tribo pesada não teriam surgido sem a ousadia do Sabbath ao incluir sintetizadores e elementos do progressivo a partir do seu quarto álbum, “Vol. 4” (1972)

Grunge/stoner rock 
O grunge do Alice in Chains ou o stoner rock do Kyuss simplesmente não existiriam sem a influência dos riffs graves e bem arrastados dos três primeiros discos do Black Sabbath

Aleister Crowley
O destaque atual do ocultista inglês nascido no século 19 seria muito menor se Ozzy não tivesse apresentado o escritor a novas gerações com a música “Mr. Crowley”

Chifrinhos
A saudação mais comum entre os fãs do heavy metal, com a mão simulando uma cabeça com chifres, foi popularizada por Ronnie James Dio nos shows do Black Sabbath

Ozzfest 
Ozzy usou sua popularidade para organizar a partir de 1996 o maior festival anual itinerante de rock pesado. Até hoje, 503 bandas tocaram em 340 dias de shows, em 17 países

Famílias na TV 
O sucesso de “The Osbournes”, exibido entre 2002 e 2005, motivou outras produtoras e criar seus reality shows com famílias, como “Keeping Up with the Kardashians”

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