Tarô atrai cada vez mais interessados e extrapola mero misticismo

Prática que mistura esoterismo e arte, tarô tem adeptos ilustres como Salvador Dalí e Alejandro Jodorowski

São Paulo

As cartas estão na mesa. Ao lado delas, uvas verdes e cristais de diferentes tamanhos e cores. No chão, um gato preto chamado Tião às vezes espreita. Até que ela vira a primeira carta: o Diabo.

Eu, que sempre achei que a astrologia fosse a prima cirandeira da homeopatia, estou sentado em um apartamento no centro de São Paulo, rodeado de plantas e estátuas de duendes, para jogar tarô pela primeira vez. 

A prática atrai cada vez mais interessados e extrapola as fronteiras do misticismo, com livrarias que vendem uma série de títulos sobre o tema e os mais diferentes baralhos. Um dos mais recentes é o ilustrado por Salvador Dalí nos anos 1970, relançado no fim do ano passado pela editora Taschen.

Minha taróloga é Juliana Bernardo, exemplo dessa modernização do tarô, ao dar consultas pessoalmente e por WhatsApp —os jogos custam R$ 3 por minuto, independentemente da plataforma.

Pergunto se ela acha que o tarô vem se tornando a astrologia do hipster que procura algo mais exclusivo do que a conversa sobre signos.

“O tarô tem 78 cartas, o que é bem mais do que os 12 signos. Isso faz com que seja um pouco mais para iniciados. Mas não pertence só aos hipsters”, ela diz. “Aparecem aqui ex-padres, monges budistas, prostitutas, deputados, artistas...” 

Entre as cartas, 22 são arcanos maiores, que representam fases da vida, e 56, menores, divididos em quatro naipes, como o baralho comum que usamos para jogar buraco.

Quando as cartas são reveladas, elas contam uma história com imagens. Processo conduzido pelo tarólogo, mas que é recheado de significados por quem se consulta. E é a partir dessa narrativa visual que o tarô passa a ser também estética —e a ter um pé no mundo das artes.

As cartas do baralho criado por Dalí nos anos 1970 são um exemplo. Algumas das ilustrações foram feitas por ele, enquanto outras são obras de arte bem conhecidas, mas cheias de intervenções do artista.

O arcano número um, o Mago, é o próprio Dalí. No fundo, estão os arcos da Sainte-Chapelle, de Paris. À frente da figura do pintor, está uma mesa presente uma de suas obras, “A Última Ceia” (1955), exposta na National Gallery of Art, de Washington. Na carta, Dalí não é só o Mago —ele está na mesma posição que Jesus.

Há várias outras referências ao tarô nas artes. Como o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, que é também estudioso da prática e lançou um baralho no qual recupera o tarô de Marselha de 1400, um dos mais famosos. 

Nos anos 1970, quando Jodorowsky tentava produzir o filme de ficção científica “Duna”, ele chegou a chamar Dalí para ser um dos atores. E, para convencê-lo a conversar, enviou ao espanhol o arcano 12
(o Enforcado). Dalí topou, mas o filme nunca foi produzido.

Tentei falar sobre tarô com Jodorowsky, mas seu telefone só deu caixa postal. Cheguei a enviar a figura do Enforcado para o seu WhatsApp, mas ele não respondeu.

Mas, nos extras do seu filme "A Montanha Sagrada" e no livro “O Caminho do Tarot” (ed. Chave), o chileno conta um pouco da sua visão: “Se você o usa para prever o futuro, se converte em um charlatão.” Para ele, as cartas fazem um raio-x do presente.

Já na música, a banda Led Zeppelin colocou a ilustração do arcano Eremita em seu quarto disco. Renato Russo colecionava baralhos. E Aleister Crowley, que influenciou uma legião de artistas, tinha um tarô próprio (veja abaixo).

Enquanto as minhas cartas eram viradas na consulta e mostravam pistas sobre relacionamentos, vida financeira e outros pontos, pensava no porquê de esses baralhos atraírem tanta gente.

 

A busca por respostas é uma possibilidade. Mas há outra: o tarô é parecido com enxergar desenhos em nuvens.

O conjunto de cartas forma uma massa que ganha significado com as questões, angústias, desejos e o inconsciente de quem se consulta. Em outras palavras, uma mesmíssima nuvem pode parecer um elefante para você, mas lembrar um carro para outra pessoa.

“Pode até ser. Mas no seu jogo apareceu um elefante, depois outro elefante e mais um elefante”, comentou Juliana no fim do meu atendimento. 

Nas palavras dela, grande parte das minhas cartas trouxeram sinais de encerramentos e de começos. “Desde já, você está buscando experiências mais autênticas”, ela disse. 

Uma manada (e um gato preto) frequentavam a sala.

Exemplos de baralhos

Tarot Universal Dalí
Relançado no fim de 2019, traz as 78 cartas ilustradas pelo surrealista. Preços no Brasil podem chegar a R$ 429

Marselha
Um dos mais famosos. O cineasta Alejandro Jodorowsky relançou uma versão de 1400, com figuras e cores originais

Rider-Waite
Baralho britânico do início do século 20, é um dos mais conhecidos e influentes. Traz ilustrações para os arcanos maiores e para os menores

Thoth
Criado pelo ocultista britânico Aleister Crowley e ilustrado por Frieda Harris, o tarô se tornou um dos mais influentes 

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