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Western dirigido por mulher arranca aplausos no Festival de Berlim

'First Cow' narra a amizade entre um americano e um chinês, no Noroeste americano, no século 19

Berlim

A americana Kelly Reichardt saiu na dianteira na primeira rodada da briga pelo Urso de Ouro, no Festival de Berlim. Foi bastante aplaudida por seu “First Cow”, espécie de western contemplativo sobre a amizade entre um americano e um chinês, no Noroeste americano, no século 19.

O filme já havia sido exibido no Festival de Telluride (EUA) do ano passado, mas foi recebido em Berlim no último sábado como novidade. É um retorno à mesma época e local do longa que lançou Reichardt, “O Atalho” (2010).

Cena de 'First Cow'
Cena de 'First Cow' - DIvulgação/IMDb

E também uma volta ao mesmo tipo de narrativa morosa, sem nenhuma pressa, para analisar relações humanas —agora em uma agridoce trama sobre dois homens muito diferentes que se unem em um negócio inusitado (a venda de biscoitos) para sobreviver em uma terra inóspita.

“[A trama] Pareceu-me, de uma certa forma, com uma história de imigração, com personagens tentando se encaixar”, disse Reichardt na conversa com a imprensa. E essa tentativa de encaixe, segundo o filme, só é possível quando há a união entre os dois desvalidos —caso do americano, que largou o pouco que tinha na costa leste atrás de ouro, e do chinês, que além de tudo ainda precisa lidar com o racismo.

É um filme por vezes bem cansativo, mas de fato a diretora acerta em optar pelo ritmo quase dormente. Alguma coisa acontece nos tempos mortos de modo que o espectador tenha uma compreensão mais profunda e uma resposta emocional mais intensa ao que a câmera apresenta. É uma diretora que sabe o que faz.

Já o veterano francês Philippe Garrel teve uma recepção menos calorosa com “Le Sel des Larmes”, melodrama sobre relações amorosas que o diretor mais uma vez filma em preto e branco. Acompanha um rapaz do interior que vai a Paris e conhece uma garota em um ponto de ônibus. Logo na primeira troca de olhares surge um forte clima de flerte.

Cena de 'Le Sel des Larmes'
Cena de 'Le Sel des Larmes' - Divulgação

Existe uma delicadeza adoravelmente antiquada na maneira como Garrel apresenta esse primeiro encontro, que se torna uma pequena e rara história romântica praticamente impensável em um mundo acelerado como o de hoje. O casal se aproxima aos poucos e evita se beijar nos lábios por um bom tempo.

Nas mãos de um cineasta menor, as cenas poderiam soar lastimavelmente assexuadas ou intoleravelmente cafonas, mas Garrel tem tal sabedoria no manejo dos elementos às suas mãos (a música, as atuações, a montagem) que consegue tornar tudo extremamente excitante. E sem perder a ternura.

Mas, em seguida, o filme toma novos rumos, e o rapaz se revela um bocado menos encantador que no começo. O longa torna-se um painel sobre as relações afetivo-sexuais de um rapaz francês, branco e heterossexual, na mesma tradição tão explorada pelo próprio Garrel e outros cineastas conterrâneos (sobretudo Jacques Rivette).

“Quando falamos da juventude, é da nossa juventude que estamos falando”, disse o cineasta, hoje setentão, à imprensa. De fato, o filme é obra de um homem falando com conhecimento de causa, mas o problema é que ser jovem nos anos 1960 não era o mesmo que ser jovem em 2020. E o mundo atual deu nova régua avaliar o comportamento desses mesmos rapazes franceses, brancos e heterossexuais: muita atitude antigamente tida por “charmosa”, hoje se tornou inaceitável. A condescendência do diretor com o protagonista mina o filme.

“El Prófugo”, da argentina Natalia Meta, também não empolgou a Berlinale. É um malfadado exercício de cinema de gênero com pretensões feministas sobre uma mulher que começa a ter repentinas alucinações sexuais, sobretudo após a misteriosa morte do namorado. A protagonista é a excelente Érica Rivas (a noiva de “Relatos Selvagens”), mas o filme é por demais desnorteado para que ela consiga segurar tudo sozinha.

Cena de 'El Prófugo'
Cena de 'El Prófugo' - Divulgação/IMDb

Já o ator italiano Elio Germano supera qualquer deficiência de “Volevo Nascondermi”, de Giorgio Diritti. Tem uma atuação primorosa como o pintor Antonio Ligabue, expoente da arte naïf no século 20, que tinha sérios problemas psíquicos e de saúde —vai ser difícil alguém tirar o Urso de melhor ator das mãos dele.

Diritti usa o personagem para mostrar o processo de aburguesamento pelo qual uma pessoa passa quando tem acesso a dinheiro. No caso de Antonio, que era em tudo um pária, foi a partir de suas conquistas materiais que ele viu a chance de se tornar um homem como os outros. Perdeu-se na própria exaltação econômica e morreu na miséria. É um belo filme, mas que terá o azar (ou seria sorte?) de ser lembrado para sempre pela performance de Germano, sobretudo.

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