Artistas que faziam bicos para se bancar não sabem como vão pagar o aluguel

Cantora e compositora, Jenna Camille Henderson tinha três empregos, mas perdeu todos eles por causa do coronavírus

Jillian Steinhauer
The New York Times

Jenna Camille Henderson, cantora e compositora que vive em Washington, não tinha só um emprego. Em lugar disso, como muitos outros músicos e profissionais da criatividade nos Estados Unidos, ela ganhava a vida combinando múltiplas fontes de renda.

Esse processo delicado, que muita gente entre os freelancers costuma descrever como viver “na batalha”, pode ao mesmo tempo oferecer um tipo especial de liberdade e independência, aos trabalhadores autônomos. Pode ser até reconfortante saber que seu destino econômico pessoal não depende de apenas uma companhia ou ramo de atividade.

Jenna Henderson, cantora que equilibrava sua carreia artística com três empregos
Jenna Henderson, cantora que equilibrava sua carreia artística com três empregos freelance - Gabriella Demczuk/The New York Times

Até que chega uma pandemia, e todos os lugares em que você costumava trabalhar são afetados.

No começo de março, Henderson estava ganhando dinheiro regularmente graças a três trabalhos: como segurança no 9:30 Club, uma casa de música muito querida; como empregada da equipe de apoio em uma escola privada; e fazendo um show semanal em um bar local. Em menos de uma semana, cada um desses três trabalhos terminou cancelado ou suspenso por conta de medidas tomadas para tentar conter a difusão do coronavírus.

Henderson, 29, não tem seguro de saúde, e não tem uma fonte de renda, pelo futuro previsível. Como quase todo freelancer, ela disse, “acho que a gente sempre acredita que haverá algum trabalho para fazer”.

“Eu jamais imaginei que talvez devesse considerar trabalhar com alguma coisa mais permanente, para o caso de algo assim acontecer”, ela acrescentou, “por que quantas vezes uma coisa assim acontece?”.
Foi dessa maneira que sua estrutura toda se desmantelou, como contou Henderson, com a ajuda de imagens de tela e mensagens de seu smartphone.

A primeira notificação surgiu em 11 de março, e veio do 9:30 Club, num email que informava que todos os shows da casa até o final do mês estavam cancelados. (Novos shows foram cancelados mais tarde.)

Isso eliminou o trabalho de Henderson, que envolvia receber pessoas à porta e controlar o público. Ela não ficou muito preocupada, de primeira, porque só trabalhava lá mais ou menos dois dias por mês.

Henderson está envolvida com música, de alguma maneira, desde os seis anos de idade. Ela cresceu em Accokeek, Maryland, logo ao sul de Washington, e começou a tocar de ouvido. Mais tarde, fez aulas de piano clássico e jazz. Seu talento a levou à renomada Duke Ellington School of the Arts, e ela em seguida estudou jazz na universidade.

Henderson lançou alguns singles e álbuns no serviço Bandcamp e em outras plataformas, mas canaliza boa parte de sua energia nos shows ao vivo, tocando com bandas e colaboradores da região de Washington. Isso exige que ela mantenha uma agenda flexível, e o trabalho como freelancer tornava o esquema possível.

O grande golpe surgiu dois dias mais tarde, quando ela descobriu que a escola de segundo grau onde trabalhava também fecharia temporariamente, depois de uma ordem da prefeitura. (Ela não quis revelar o nome da escola, afirmando que não desejava atrair atenção negativa a ela.) Ainda que não fosse empregada regular, Henderson passava muito tempo lá —muitas vezes trabalhando cinco dias por semana, inicialmente como professora substituta, cobrindo alguém que estava de férias. Essa pessoa não voltou, e Henderson continuou trabalhando na escola, ajudando em diversas aulas e atendendo a alunos com necessidades especiais.

“A escola é basicamente a maneira pela qual pago meu aluguel”, ela disse.

Porque ela era prestadora de serviços, no entanto, não terá direito a pagamento durante o período de fechamento. E embora a escola planeje retomar as operações de modo remoto, no final do mês, ela continuará excluída. “Sou da equipe de apoio a aulas”, ela disse. “Tecnicamente não haverá aulas a apoiar.”

Henderson ainda estava abalada com a notícia quando foi informada de que havia perdido seu terceiro trabalho fixo. Ela vinha tocando com uma banda chamada Trae & Company Neo Soul todas as quartas-feiras, no Harlot DC, uma casa noturna inaugurada no final do ano passado. A temporada da banda começou em fevereiro, e o público estava crescendo. Mas no domingo, a prefeita Muriel Bowser ordenou o fechamento de todas as casas noturnas da capital americana. “Nós tínhamos começado a criar público para esse projeto, e acabamos derrubados”, disse Henderson.

Ela agora está diante da perspectiva de algumas semanas, ou mesmo meses, sem renda, porque ninguém sabe por quanto tempo as suspensões vão durar. Porque trabalhava como freelancer, Henderson não tem direito a benefícios de desemprego. Ela tem algumas economias, que pretendia usar para pagar impostos, já que estes não são retidos na fonte, em seus trabalhos. Em lugar disso, ela provavelmente terá de gastar o dinheiro para pagar o aluguel.

“Inicialmente, eu estava tentando organizar as coisas, fazendo contas para determinar quanto dinheiro economizei”, ela disse. “Mas à medida que começou a ficar claro como a situação estava complicada, minha confiança em que estaríamos de volta em duas semanas começou a desaparecer. A situação começa a parecer muito preocupante”, ela disse. Henderson procurou a agência de empregos que a levou à escola em busca de novas vagas e sabe que o 9:30 Club está tentando encontrar trabalhos que as pessoas dispensadas possam fazer. Mas até agora não conseguiu coisa alguma.

A situação de Henderson nada tem de único. Artistas, músicos e cantores, assim como freelancers de toda espécie, estão lutando para encontrar trabalho agora que a crise do coronavírus desordenou diversos setores, aparentemente do dia para a noite. Muitos dos amigos dela também estão procurando por trabalhos temporários. Ela sugeriu a um amigo, que também trabalha como prestador de serviços a escolas, que se candidatasse a uma vaga na Mom’s, uma cadeia de supermercados especializada em produtos orgânicos.

Esquemas de ajuda mútua e verbas de assistência comunitária surgiram em todo país, o que Henderson encara como animador. Mas as solicitações e pedidos já são muitos —e de qualquer forma, ela diz, não substituem a intervenção do governo.

Henderson é um dos signatários de uma carta que cerca de 90 integrantes da comunidade de música de Washington enviaram ao gabinete da prefeita na segunda-feira (16), solicitando que o projeto de lei de assistência que está sendo votado em regime de urgência incluísse cláusulas de apoio aos trabalhadores da área de criatividade. O Legislativo municipal aprovou na terça-feira um projeto de lei que não parece atender à solicitação deles.

Enquanto isso, uma amiga de Henderson disse que seus pais tinham oferecido ajuda.

Se existe um lado positivo na situação, para Henderson, é que ela agora tem muito tempo livre para fazer música, “que é aquilo que me impede de enlouquecer”.

Esta semana mesmo, ela lançou um novo álbum no Bandcamp, um projeto que havia iniciado um mês atrás e que se sentiu inspirada a concluir rapidamente, sabendo que as pessoas estão cada vez mais presas em casa.

“A situação definitivamente redespertou minha inspiração”, disse Henderson, que a despeito de seus problemas vai “continuar indo em frente”.

Tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.