Descrição de chapéu Cinema Coronavírus

Em meio a coronavírus, salas de cinemas com 10 pessoas são consideradas cheias

No Espaço Itaú de Cinema, apenas 60% dos assentos de cada sala estão sendo vendidos

São Paulo

Os cinemas estão em uma época que é normalmente fértil. Por causa do Spring Break —espécie de férias de primavera que acontecem nos Estados Unidos— grandes estúdios hollywoodianos decidem estrear alguns de seus principais e mais populares títulos neste período do ano.

Mas, nos últimos dias, uma série de adiamentos de blockbusters esvaziou o calendário de estreias de março e abril, como resultado da pandemia de coronavírus.

Grandes promessas de bilheteria de 2020, como “Sem Tempo para Morrer” e “Mulan”, perderam suas datas originais de lançamento, deixando um vácuo jamais visto na programação cinematográfica desse par de meses.

Seja por respeito aos pedidos de autoridades, que tentam evitar aglomerações, ou por medo de ver filmes com gordos investimentos não dando o lucro que poderiam porque cinemas estão fechados, Hollywood decidiu que o melhor a fazer é esperar.

E, mesmo que o Brasil ainda seja novato nesta pandemia, se comparado às situações de China, Europa e agora também Estados Unidos, as projeções afirmam que o cenário por aqui logo será similarmente preocupante.

O medo que se instaurou na população brasileira já começou a respingar nos cinemas daqui, que agora precisarão lidar com um esvaziamento tanto de estreias, quanto de público.

O Espaço Itaú de Cinema, por exemplo, já está tendo baixas na audiência. Não necessariamente porque seu público cativo está mais preocupado com a pandemia, mas porque a rede adotou, nesta semana, medidas de segurança para evitar contaminações.

De acordo com a assessoria de imprensa do complexo, apenas 60% dos assentos de cada sala estão sendo vendidos. Nas bilheterias, funcionários orientam os clientes a escolherem lugares distantes daqueles já ocupados.

A reportagem visitou, no começo da noite desta sexta-feira (13), diversas salas de cinema na região da avenida Paulista que, justamente pela localização, costumam ter frequência considerável na véspera do fim de semana.

No cinema do shopping Frei Caneca, funcionários brincavam com a baixa frequência pelos corredores, dizendo que uma sala com cerca de dez espectadores estava "até que cheia comparada com as outras".

Na bombonnière, meia dúzia de atendentes conversavam enquanto esperavam por clientes que nunca apareciam.

Em outro cinema, o Reserva Cultural, uma atendente na bilheteria, ao ser questionada sobre a frequência nos últimos dias, comentou que ela estava atipicamente baixa, mas não soube dizer o porquê.

Com programação, em grande parte, dedicada a filmes europeus, o endereço costuma atrair um público mais velho —formado inclusive por aqueles que, pelas estatísticas, são os mais suscetíveis a complicações causadas pelo coronavírus.

No Cinemark do shopping Cidade São Paulo, todas as sessões do começo da noite tinham apenas entre cinco e 15 assentos vendidos. Um funcionário, no entanto, disse que o cenário não tinha relação com a pandemia: devido ao recente fim das férias escolares, era natural que as salas ficassem mais vazias.

Na Itália, o segundo país mais atingido pela pandemia depois da China, todos os cinemas estão fechados desde a última quarta (11) por ordem do governo. Mas, para Roberto Stabile, diretor internacional da Anica, associação italiana de audiovisual, os cinemas são lugares seguros apesar da alta concentração de pessoas.

“Os cinemas podem ser alguns dos lugares mais seguros se nós tivermos em mente algumas regras: boa circulação de ar, higienização após cada sessão, distância segura entre as pessoas e fim do contato físico”, diz. “Os cinemas precisam abrir porque as pessoas precisam escapar dos problemas causados pelo vírus.”

Fabiano Ristow, jornalista do site especializado em programação e bilheteria de cinema Filme B, chamou atenção, na semana passada, ao publicar nas redes sociais que a quinta-feira, dia 5 de março, havia sido o pior dia de estreia nas bilheterias brasileiras desde janeiro de 2017.

Em conversa com a reportagem, ele afirmou que a quinta passada, dia 12, apresentou números ainda piores. Foram 86 mil espectadores, contra os 101,4 mil observados —e já pouco expressivos— de sete dias antes.

“Eu, pessoalmente, cogito que possa ter [relação com o coronavírus]. Mas oficialmente ainda é cedo para dizer”, explica. “Tem filme forte em cartaz, então tudo indica que pode ter relação, mas ainda não podemos afirmar com certeza.”

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