Tutuca, que deve comandar Ancine, é visto como manipulador e boa-praça

Funcionários do órgão cogitam levar ao Ministério Público denúncia de que pastor participou de campanha política

Rio de Janeiro

Para alguns, um cara boa-praça, para outros, um babaca. É assim que Edilásio Santana Barra Júnior é visto na Ancine, órgão que pode em breve comandar. Conhecido em Brasília como Tutuca, apelido de infância propagado por seu primo, o deputado delegado Éder Mauro, do PSD, ele é hoje o nome mais cotado para a presidência da instituição responsável pelo fomento, regulação e fiscalização do audiovisual brasileiro.

Mas antes, ele precisa se tornar um dos diretores efetivos da Ancine, a Agência Nacional do Cinema. No último dia 21, o presidente Jair Bolsonaro enviou ao Senado a indicação de Tutuca e a de Veronica Brendler, produtora cultural responsável por um festival de cinema cristão, para a diretoria da instituição. Para assumir, ambos devem antes ser sabatinados e aprovados pelo Senado.

O apresentador Edilásio Barra, o Tutuca, que assume a superintendência de desenvolvimento econômico da Ancine
O apresentador Edilásio Barra, o Tutuca, que assume a superintendência de desenvolvimento econômico da Ancine - Reprodução

Edilásio, porém, já dá expediente na Ancine desde outubro, quando foi nomeado para comandar a Superintendência de Desenvolvimento Econômico, responsável pela gestão do FSA, o Fundo Setorial do Audiovisual. Em 5 de fevereiro, foi convocado por Alex Braga, presidente interino da Ancine, para ocupar uma vaga de diretor substituto, possibilidade aberta por indicação presidencial de 31 de janeiro.

Estaria nas mãos de Tutuca reestruturar o FSA e criar novos editais, alinhados às ideias bolsonaristas. Procurado, disse que só daria entrevista depois da sabatina no Senado, ainda sem data para acontecer. Ao telefone, explicou que é “boca aberta” e que não falaria porque ainda é diretor substituto.

Em entrevista ao Diário de Pernambuco, cinco dias após ser convocado como substituto, Tutuca disse ser “liberal na economia e conservador nos costumes com muito orgulho”.

“O que há de errado em produzir, dentro da lei, filmes que fomentem os valores dos brasileiros comuns e da família?”, perguntou na mesma ocasião. Disse ainda que pretende buscar “formas de descentralizar, desburocratizar e agilizar as operações de fomento indireto e os editais do FSA”.

Nas entrevistas que tem dado desde que foi cotado para assumir a Secretaria do Audiovisual, em junho —o que não se concretizou—, Tutuca insiste que os incentivos ao audiovisual devem ser mais bem distribuídos pelas regiões do país.

Depois de ser criticada pelo deputado federal Alexandre Frota, então do PSL, e por setores bolsonaristas, a indicação de Tutuca para a pasta fez água, mas, em julho, ele foi nomeado para dirigir o departamento de Políticas Audiovisuais da secretaria.

O paraense tem mais de 30 anos de experiência no audiovisual, segundo diz em entrevistas. Formado em jornalismo, participou da novela “Roque Santeiro”, de 1985, como um dos membros da equipe que vai à cidade de Asa Branca para filmar a história de Roque.

E gravou, como Edilásio Jr. em 1987, o disco “Fui o Culpado”, com músicas de pop rock na levada típica do fim dos anos 1980 e com letras de duplo sentido. Em uma das faixas, “Tina”, sobre uma garota que gosta de sanduíche, o músico pergunta no refrão “Tina catchup?”, ao que uma voz de mulher responde “Quero!”. Na televisão, Tutuca apresentou por anos um programa ao estilo coluna social, o “VIP”.

Como pastor, fundou em 2011 a Igreja Continental do Amor de Jesus. Em 2012, concorreu a vereador pelo PSD carioca. Sua igreja, com CNPJ registrado num imóvel na Barra da Tijuca, já não funciona, e hoje ele se descreve como pastor independente.

Em fevereiro do ano passado, passou a fazer vídeos para a TV EB. Num deles, Tutuca apresenta seu canal no YouTube como tendo o compromisso de divulgar “tudo que for da direita para endireitar o nosso país”. O primeiro vídeo mostra Tutuca com Jair Bolsonaro desejando boas festas; a legenda diz que foi filmado no Natal de 2016. O último vídeo postado, uma fala de seu primo Éder Mauro, data de 25 de maio.

Tutuca é descrito por funcionários da Ancine ora como disponível, simpático, educado e bonachão, ora como alguém que se vale de suas capacidades como ator e pastor para persuadir os outros. No dia a dia, Tutuca, segundo pessoas ouvidas pela reportagem, insiste em dizer que é pastor e menciona com frequência suas influências políticas.

Ele organiza ainda momentos de oração em sua sala. Segundo servidores, ele não obriga a participação e foram os funcionários cristãos que, após saberem do hábito de Tutuca, passaram a frequentar sua sala. Para um dos servidores, que conta ter visto pessoas de mãos dadas orando, o ambiente se torna “constrangedor”.

Morador do Flamengo, Tutuca vai ao trabalho de metrô. Embora seja comum na agência que os homens usem camisa —alguns funcionários trabalham de bermuda e tênis— ele faz questão de estar sempre de terno e gravata, algo incomum até mesmo entre os diretores.

Para os que trabalham mais próximos a ele, comentou ter visto o filme brasileiro “Minha Mãe É uma Peça 3”, recordista de bilheteria, e o longa de guerra “1917”. Mas ainda não viu “Parasita”, o sul-coreano vencedor do Oscar.

Pelo menos desde o afastamento de Christian de Castro da presidência da Ancine, denunciado por calúnia, difamação, prevaricação e associação criminosa, o clima entre funcionários é de insatisfação, agravado pela possibilidade de serem transferidos para Brasília. Agora, alguns cogitam levar ao Ministério Público ou a algum senador uma denúncia contra Tutuca, que não poderia ser indicado à diretoria.

A Lei das Agências Reguladoras proíbe a indicação para o conselho diretor de alguém que tenha “atuado, nos últimos 36 meses, como participante de estrutura decisória de partido político ou em trabalho vinculado a organização, estruturação e realização de campanha eleitoral”.

Em entrevista à BBC News em junho, Tutuca disse que ajudou “a organizar e fazer quatro deputados federais no Rio Grande do Sul, quatro estaduais, uma mulher chamada Carmen Flores”. Disse ainda ter ajudado “na coordenação, no marketing e nas plataformas digitais”. Após funcionários mencionarem o caso, Tutuca teria dito que sua participação não era oficial.

Procurado, o TRE do Rio Grande do Sul diz não ter registros oficiais dos coordenadores de campanha. Mas o deputado federal Nereu Crispim, presidente do PSL no estado, diz que Edilásio estava sempre com Carmen Flores e que ele participou da campanha estadual do PSL.

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