Isolamento do coronavírus provoca ódio a celulares e reinvenção de sexo e prazer

Segundo o filósofo Franco Berardi, é possível que a pandemia provoque aversão aos relacionamentos virtuais

São Paulo

No diário virtual em que comenta a escalada do coronavírus em seu país, o filósofo italiano Franco Berardi conta que precisou cancelar um jantar com seus irmãos. “Velhos como nós estão em perigo”, escreveu em março, antes do auge da crise.

“Entendo que estou em uma encruzilhada. Se eu não cancelar o jantar, posso ser o portador de um vírus físico que pode matar meu irmão, que sofre de diabetes. Se eu cancelar, me torno um espalhador do psico-vírus, o vírus do medo e do isolamento.”

Para um autor que se dedica tanto a pensar a deterioração das relações afetivas entre as pessoas, o momento atual oferece um estudo de caso amargo.

berardi com o rosto apoiado em uma mão
O filósofo italiano Franco Berardi - Divulgação

Em “Asfixia”, livro recém-lançado no Brasil pela editora Ubu, Berardi já se mostra preocupado com o esgarçamento do tecido da solidariedade social, desfeito por décadas de precarização do trabalho.

Segundo ele, os laços entre as pessoas de mesma condição social se tornaram mais frágeis conforme o mundo passou a ser mais regido pelo abstrato capitalismo financeiro. A digitalização das relações pessoais, com a crescente mediação das redes sociais, só agravou o problema.

Agora, o coronavírus deixou os indivíduos ainda mais apartados, e quase todo tipo de relação —de trabalho, amizade, educação— se transferiu para a esfera online. O italiano diz, entretanto, que o choque pode produzir uma espécie de efeito reverso.

“E se esta sobrecarga de conexão quebrar o feitiço?”, ele se pergunta, em entrevista por email. “Quero dizer que cedo ou tarde a pandemia vai se dissolver (espero, embora não a minimize). É possível que leve a nossa psique à identificação de que online é igual a doença.”

“É possível que as pessoas fiquem fartas da abstração, com o isolamento virtual, e que um movimento de solidariedade social abra caminho para a volta da ajuda mútua e do erotismo expandido”, continua. “Talvez o excesso de isolamento empurre grande parte dos jovens a desligar as telas, como uma lembrança de um tempo de desgraça e solidão.”

Berardi, que foi professor de teoria da mídia na Academia de Belas Artes de Milão e forjou seu ativismo intelectual nas ruas do Maio de 1968, usa uma concepção de erotismo em linha próxima aos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, com quem trabalhou.

O corpo erótico que, segundo ele, a sociedade precisa resgatar é uma interação social prazerosa, em oposição às relações meramente funcionais que a ordem econômica capitalista impõe sobre a convivência.

É uma ideia de erotismo que transborda a esfera da sexualidade, que está presente na cultura, na comunicação, nas artes —e por que não, na sedução— que ocupam o dia a dia. É ver o outro como uma fonte de prazer, não como uma ferramenta.

“O capitalismo reduziu o erotismo a uma ferramenta de publicidade, mas os movimentos sociais não só exigem uma forma social diferente, mas também são eles mesmos a participação imediata em uma expansão corporal, na reativação erótica do social.”

O filósofo comenta sobre como a sensibilidade corporal está “embotada e desgastada” pelos tempos de neoliberalismo e sobre como o desejo se confunde pela “orgia frígida da pornografia”. Sua análise política é inseparável de todos esses conceitos.

“Por três décadas”, ele diz, em referência ao período em que a ordem neoliberal se tornou dominante, “nós fomos obrigados a acelerar, a ser mais e mais competitivos e agressivos, e a sacrificar nossas necessidades concretas à abstração do dinheiro. E aí, de repente, um agente biológico entrou no contínuo social e provocou uma implosão, forçando o corpo à inação”.

O corpo, real e palpável, sempre predominará em última instância sobre as construções intangíveis que regem a sociedade (“o dinheiro e a linguagem têm algo em comum –não são nada e põem tudo em movimento”, escreve Berardi no livro).

Segundo o italiano, alguns líderes como o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, sempre irão considerar —em vão— que o dinheiro e as empresas são mais importantes. “As grandes instituições financeiras podem jogar bilhões e bilhões e bilhões na economia, mas o dinheiro não ressuscita um corpo morto. Não reativa a respiração dos nossos pulmões e não pode nos aliviar da depressão, do desespero.”

Um dos ensaios reunidos no livro se chama justamente “Respiração”, o que soa tragicamente premonitório agora que todos estamos ameaçados por uma pandemia que ataca o sistema respiratório —e que muitos se sentem sufocados dentro de casa.

No seu entender, a respiração conjunta das multidões, ressoando no mesmo ritmo, é uma representação fundamental da união dos indivíduos em solidariedade.

“A respiração de que falo é uma metáfora, mas não só. Ioga é uma atividade terapêutica que ajuda pessoas a lidar com situações angustiantes. E é um exercício de respiração consciente, de sintonia do corpo individual com o cósmico. Eu acho que movimentos sociais são essencialmente similares a esse tipo de exercício.”

Os dois longos ensaios de “Asfixia”, aliás, formam uma crônica da euforia e decepção da esquerda nos anos 2010.

Se o primeiro, “Insurreição”, se empolgava com a possibilidade de as primaveras e os movimentos Occupy daquele começo de década criarem um novo paradigma, o segundo, “Respiração”, está contaminado por uma constatação melancólica –o que veio junto com essa nova vitalidade foi “uma reafirmação agressiva da identidade” nacional, étnica e religiosa que formou as bases do trumpismo.

É inegável que esses movimentos falharam no nível político, segundo o filósofo, o que mostrou a força das finanças abstratas. “Mas agora as finanças são impotentes, vazias. A pandemia criou uma nova situação. Não um colapso financeiro, mas um colapso do corpo.”

E agora, Berardi já ergueu um muro de ceticismo. Mas ainda dá para ver algumas rachaduras.

“Eu não tenho certeza de que o mundo que vai emergir será melhor. Não mesmo”, afirma, resoluto. “Talvez entremos num estado permanente de controle tecnototalitário, agressividade e medo permanente. Isso é provável.”

É possível, por outro lado, que surja um mundo mais apoiado no compartilhamento, em que o prazer esteja acima da acumulação e no qual alimentemos um comportamento “emancipado do estilo de vida doentio” de outrora, nas palavras do italiano. “E eu prefiro enfatizar a possibilidade, no lugar da probabilidade”.

Asfixia - Capitalismo Financeiro e a Insurreição da Linguagem

  • Preço R$ 54,90
  • Autor Franco Berardi
  • Editora Ubu
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