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The New York Times Coronavírus

Parem de dizer que o coronavírus vai gerar grandes obras de arte

Pandemia faz artistas sofrerem consequências econômicas e serem pressionados a produzir

Ian Wheeler
The New York Times

É um refrão que ouvimos comumente quando coisas devastadoras acontecem –a criatividade florescerá sob condições como essas. Eu li coisas parecidas nos últimos dias, em meio a cancelamentos de turnês, adiamentos de produções de cinema e TV e isolamento adotado por causa do coronavírus.

Pense em todas as ótimas canções, livros e roteiros que surgirão a partir disso.

Existe uma expectativa que, como os artistas estão confinados em suas casas, eles criarão coisas maravilhosas. Compreendo o desejo de buscar um raio de sol em uma situação terrível —é um mecanismo natural para lidar com uma crise. Mas isso ignora o quanto é precária nossa estrutura de apoio aos artistas.

United Palace, em Nova York, completamente vazio durante pandemia do novo coronavírus
United Palace, em Nova York, completamente vazio durante pandemia do novo coronavírus - George Etheredge/The New York Times

Sou um dos fundadores de uma gravadora e do Talkhouse, veículo de mídia para músicos, atores e cineastas, e trabalhei com pessoas criativas em toda função imaginável pelos últimos 15 anos. As últimas semanas foram como um pesadelo. Fiquei deitado em minha cama pensando e não imaginei em nenhum momento que “os artistas vão produzir coisas ótimas agora".

A observação de que Shakespeare escreveu “Rei Lear” e “Macbeth” quando estava confinado durante uma praga vem sendo oferecida frequentemente como exemplo do florescimento da criatividade nas crises.

Mas, como apontou Daniel Pollack Pelzner recentemente em um artigo na revista The Atlantic, “o modelo de Shakespeare não oferece grande consolo: escreva enquanto espera o isolamento acabar, dependa de patronos ricos para seu sustento e explore o desastre que atingiu seus rivais”. A realidade é que os artistas estão perdendo muitas coisas nestes tempos —e devem perder ainda mais. Muitos, se não a maioria, não têm acesso a serviços de saúde. Vivem de um pagamento a outro.

A maioria dos músicos depende de uma infraestrutura próspera para shows ao vivo –casas de espetáculos (que estão realizando demissões em massa neste exato momento), gerentes de turnê, equipes de iluminação, profissionais de som, diversos fornecedores. O fechamento temporário das lojas de discos independentes causará danos graves, enquanto o avanço no volume de streaming digital (que não vem sendo confirmado pelos números disponíveis até agora; na verdade, o que temos visto é o oposto) nem começa a compensar a receita perdida em termos de venda de ingressos e mercadorias.

Não consigo pensar em qualquer outra profissão na qual exista uma expectativa de melhora na produção dos profissionais no momento em que as circunstâncias pioram. Ninguém diz que, se retirarmos a maior parte da renda dos empreiteiros e reduzirmos os ganhos dos operários especializados, isso vai inspirá-los a construir uma casa melhor.

Trabalhar melhor sob pressão talvez seja verdade para um estudante que está se preparando para uma prova ou vestibular, mas não funciona da mesma maneira se alguém tem de produzir uma canção de sucesso para colocar comida na mesa de casa.

Pomos muita pressão nos profissionais de criação para que produzam coisas que nos façam sentir melhor —e às vezes nos esquecemos de que eles também podem estar sofrendo. Como disse minha amiga Katie Harkin, que toca com Sleater-Kinney e Courtney Barnett, em um recente evento, “existe um mito de que você metaboliza a dor e faz dela arte; da arte, lucro; do lucro, felicidade”.

“Isso é muito prejudicial”, acrescentou ela. E será especialmente verdade ao longo da atual crise –os artistas terão dificuldade para fazer arte e para realizar lucros nos próximos meses. Sim, as pessoas recorrem e sempre recorrerão a filmes, músicas, peças de teatro e outras formas de entretenimento para se reconfortar. Mas muitos dos artistas responsáveis pela criação desse conteúdo foram deixados no limbo e estão inseguros sobre como pagarão suas contas.

Vivemos hoje uma situação que favorece artistas já privilegiados. Os patronos de Shakespeare eram condes e altos funcionários da corte. Mantiveram-no abrigado e alimentado e, em última análise, protegido contra os horrores da praga enquanto teatros estavam fechados.

Talvez exista uma lição mais produtiva a ser extraída dos anos de confinamento de Shakespeare do que o impulso da criatividade –precisamos de um sistema melhor de patronato para os artistas.

O site Patreon emergiu nos últimos anos como forma de os artistas manterem um diálogo com seus fãs e receberem um pagamento mensal de assinantes em troca de conteúdo exclusivo. Recentemente, a plataforma Bandcamp, que permite que músicos vendam mercadorias e músicas diretamente aos fãs, abriu mão de sua comissão sobre as vendas por um dia. A revista Billboard preparou uma lista de recursos de apoio aos profissionais de música que estiverem enfrentando dificuldades durante a pandemia.

Em todo o setor musical, companhias pequenas e independentes e indivíduos estão buscando maneiras de manter os pagamentos aos artistas que façam shows virtuais, transmitidos ao vivo de seus locais de isolamento.

Também existe um elemento humano que ajuda a negar a falácia de que tragédias resultam em arte grandiosa. Enquanto escrevo este texto, estou recebendo mensagens de texto e emails preocupados de amigos, colegas e parentes. Paro para olhar o Twitter a intervalos de alguns minutos e recebo alertas de notícias constantemente, cada qual mais terrível que a anterior. A ideia de que a criatividade possa florescer em circunstâncias como essas é absurda.

Não se sintam pressionados a produzir a próxima grande obra de arte durante este período –e resistam ao impulso de pressionar os outros. Tomem conta dos artistas que tomam conta de vocês. Precisaremos deles para passar por isso.

Tradução de Paulo Migliacci

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