Descrição de chapéu Moda Coronavírus

Grifes apostam em máscaras multicoloridas e lucram com a pandemia de coronavírus

Tecidos de proteção ganham novos significados e ares que vão da exclusividade à política

São Paulo

No teatro e no Carnaval, elas criam personagens, em movimentos revolucionários, já serviram para proteger a identidade de manifestantes e, nos hospitais e consultórios médicos, são itens de prevenção do contágio de infecções.

Em meio à pandemia de Covid-19, as máscaras ganharam status de peça do vestuário. Algumas marcas de roupas decidiram entrar em campo e pôr no mercado itens de grife, candidatos a objeto de desejo.

“Estamos vivendo a ocidentalização das máscaras”, conta o estilista Thomaz Azulay, 33, da grife carioca The Paradise. “Não vamos mais sair de casa sem elas, como já se faz na Ásia há muito tempo”, diz.

Ao lado do sócio, Patrick Doering, ele criou dez estampas para as peças (de sarja e tricoline), vendidas, cada uma, por R$ 30 (duas peças por R$ 50). “Comecei a fazer máscaras para funcionários e amigos, mas os pedidos aumentaram muito’’, conta Azulay. “Foi uma forma também de manter a grife funcionando.”

Sobras de tecidos de coleções passadas, além de lotes das atuais e até das próximas, ganharam novos recortes, de acordo com as necessidades do momento. “Se fosse uma guerra, estaríamos confeccionando uniformes”, diz ele.

Quem vier a adquirir as máscaras da dupla poderá cobrir o rosto com imagens caras à mitologia grega e à arte clássica, com desenhos de folhas e com paisagens do Rio de Janeiro.

A Osklen tentou surfar a onda das máscaras, mas sua ação de marketing foi rejeitada nas redes sociais. No início do mês, depois de anunciar um kit com duas máscaras por R$ 147, com direito à doação de uma cesta básica a uma comunidade do Rio, a grife carioca foi bombardeada na internet por clientes assombrados com o preço das peças e acabou retirando o produto do ecommerce.

Recém-formada em moda pela Universidade Federal de Minas Gerais, Aline Rodrigues, 30, galgou seu espaço usando tecidos de origem africana –a samakaka, de Angola, e a capulana, de Moçambique. “É uma forma de mostrar a identidade pelo vestuário”, define essa baiana de Caetité, que vive em Belo Horizonte.

A samakaka exibe formas geométricas nas cores da bandeira angolana (vermelho, preto e amarelo) ou em preto, branco, bege e marrom.

O tecido capulana contém uma diversidade maior de estampas, multicoloridas, que retratam temas comemorativos ou trazem motivos florais.

Cada peça custa R$ 12, mas há opções de complemento ao figurino. A peça pode vir acompanhada de chapéu, a partir de R$ 70 o conjunto, e também de blusa ou turbante, por R$ 60 cada kit.

A temática africana é uma homenagem de Rodrigues à bisavó materna, com quem conviveu até o fim da adolescência. Católica, parteira e benzedeira, a bisa Sátira representava o sincretismo, que começava a ganhar formas e cores aos olhos da menina.

Ao apostar numa moda inclusiva, sem gênero nem distinção de idade, o estilista Issac Silva caiu no gosto de atrizes, como Taís Araújo e Camila Pitanga, e de cantoras, como Elza Soares e Liniker. Na hora do sufoco, ele regressou à máquina de costura.

“A miscelânea de tudo o que é Issac Silva está virando máscara”, sintetiza. No mês passado, fez uma limpa nos estoques. O lote foi doado a um grupo de seis costureiras da Brasilândia, bairro da zona norte de São Paulo com o maior número de mortes pela Covid-19, a cargo das quais ficou a tarefa de produzir máscaras de proteção. O uso do acessório se tornou obrigatório em muitas cidades brasileiras.

Mais –ele criou um kit de seis itens, vendido a R$ 49,90 sob a condição de o comprador levar quatro unidades e destinar duas à doação. Do material vendido, 250 máscaras foram doadas até agora, 80% delas a uma ONG voltada a imigrantes e os 20% restantes à população de rua do centro.

“Nunca jogo fora retalho. Além do forte impacto no meio ambiente, esses tecidos sempre têm serventia, como estamos vendo agora”, explica.

Para o designer de moda Antonio Borges, 31, tecidos reciclados estão ganhando um novo significado nestes tempos sombrios. “Sempre estoquei”, reforça. Com a mercadoria armazenada em casa, passou a criar máscaras (R$ 10). A peça, de dupla face, segundo a recomendação dos médicos, ganhou modelos em quatro tamanhos (baby, kids, adulto e adulto ampliado), de modo que fique bem ajustada ao rosto e seja usada como manda o figurino –sobre a boca e o nariz, nunca arregaçada no queixo.

A cara de gente como o ex-ministro Sergio Moro e o presidente Jair Bolsonaro inspirou o designer gráfico e ilustrador Julihermes Cavalcanti, 38, de Natal, a desenhar uma coleção de máscaras em nove estampas, todas elas de cunho político (R$ 7).

Uma laranja dentro da boca de um Moro amarelado, um Bolsonaro aprisionado numa camisa de força vermelha, a imagem do novo coronavírus vestindo a faixa presidencial, ou mesmo dizeres como “eu avisei” e “fora, Bozo”, são uma prova de que, no Brasil, tanto a pandemia como a política estão na ordem do dia.

As máscaras de hoje podem cobrir a boca, mas não vão deixar ninguém calado.

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