Descrição de chapéu

Imagens de bichos à solta em cidades vazias revelam a nossa ruína

Com quarentena, fotos e vídeos de animais selvagens em espaços urbanos se multiplicaram nas redes

Imagem da série de filmes na obra "Barulho de Fundo", exposta pela artista Renata Lucas há 14 anos, na Bienal de São Paulo. Uma pantera é flagrada por uma câmera de segurança
Imagem da série de filmes na obra "Barulho de Fundo", exposta pela artista Renata Lucas há 14 anos, na Bienal de São Paulo - Divulgação
São Paulo

Nunca mais vai haver silêncio na floresta, porque a voz furiosa dos trovões vai ressoar sem trégua. A mata ficará escura e fria. Marimbondos e cobras gigantes atacarão os humanos. Onças vão devorar a todos. Até que, como ato final, o próprio céu vai despencar com um grande estrondo sobre nós.

"A Queda do Céu", a autobiografia do xamã e líder ianomâmi Davi Kopenawa lançada pela Companhia das Letras, termina assim, com uma profecia sobre o fim do mundo.

O apocalipse segundo Kopenawa soa como uma vingança da natureza contra o homem branco. Espíritos furiosos vão romper os alicerces do céu e derrubar o firmamento. Uma das causas de tal fúria seria a morte dos xamãs —causada, em partes, pelas epidemias dos brancos.

Com a pandemia do coronavírus, a internet foi inundada de imagens da natureza —em especial, de animais selvagens que, ao verem cidades transformadas em enormes vazios abandonados, resolvem desfilar por suas ruas.

Enquanto corpos se empilhavam na Itália, Veneza ganhava as notícias também pela visão de peixes e tartarugas em suas águas, agora claras e sem barcos para revolver o leito de seus canais. No Rio de Janeiro, macacos roubam pão francês pelas janelas e se alegram ao nadar na piscina de um condomínio.

A lista pelo mundo é grande —porcos selvagens nas esquinas, jacarés na calçada, golfinhos se aproximando de píeres, cangurus saltitando por avenidas vazias, pinguins que passeiam desengonçados pelo aquário. Talvez eles pensem que estejamos extintos.

Estaremos?

Há imagens falsas também, mas é curioso que tenham se multiplicado e sejam consumidas logo agora. Elas embalam o medo que a pandemia trouxe e fazem pensar em quanto tempo, caso sumíssemos, a vida selvagem tomaria de volta as nossas cidades.

São cenas como as que a artista Renata Lucas imaginou, há 14 anos, na Bienal de São Paulo, ao criar uma série de filmes em que câmeras de segurança flagrariam bichos soltos no pavilhão vazio do Ibirapuera —como um veado descansando diante da janela ou uma pantera na rampa de acesso.

O fascínio que tais imagens têm despertado vem do fato de que, ao nos depararmos com elas, é como se contemplássemos a nossa ruína.

Há uma tradição de imagens do tipo. No livro "O Prazer das Ruínas", a historiadora Rose Macaulay lembra os relatos de viajantes que estiveram em Petra, na Jordânia —eles tremiam não só diante da "melancolia intimidadora" do lugar, mas faziam descrições macabras de um cenário "animado pelos gritos estridentes de águias, falcões e corujas".

Macaulay lembra ainda o apreço do romantismo por representações dessa natureza, sempre com a presença de raposas, morcegos, corujas e lagartos para dar um ar mais decadente às ruínas.

Mas agora, numa cultura online cheia de GIFs de gatinhos, toda essa fofura perde espaço para o assombro.

Na visão dos povos ameríndios, que Kopenawa representa, os animais também são dotados de subjetividade, e a noção de ser humano ou não é só uma questão de perspectiva, como diz a antropologia atual.

Já de acordo com as sociedades ocidentais é o contrário, eles representam a irracionalidade, os instintos aos quais o homem renunciou para construir uma civilização e o próprio Estado —mas que estão sempre à espreita como sedução e ameaça.

O fato de o novo coronavírus ter vindo dos animais é a nota irônica desta história.

As produções culturais alimentam narrativas em que o nosso mundo é devorado pela natureza. No começo do filme "Eu Sou a Lenda", Will Smith caça veados numa Nova York depauperada.

Outro clássico que reúne ruínas e animais é "12 Macacos", de Terry Gilliam, inspirado no curta "La Jetée", no qual Chris Marker imaginava uma Paris arrasada pelo que seria a Terceira Guerra Mundial.

Gilliam conta a história de uma sociedade destruída por um vírus, obrigando os seres humanos a fugir do planeta. No meio dos destroços, passeiam os bichos —como uma coruja que grita nos destroços de uma catedral ou um leão que ruge em um telhado.

Em filmes apocalípticos, cidades são engolidas por ondas gigantes, devastadas por meteoros. Mesmo os zumbis, no fim das contas, não passam de homens reduzidos à animalidade —e que, ironicamente, sentem fome de cérebros.

Enquanto a civilização é confrontada pela natureza, não parece à toa que justo agora um dos programas de maior sucesso pelo mundo seja "A Máfia dos Tigres", da Netflix.

A série documental fala dos zoológicos privados de grandes felinos nos Estados Unidos a partir da história de Joe Exotic, dono de um deles —figura a um só tempo perturbadora e fascinante. Embora mantenha os animais enjaulados, o personagem parece fascinado pela liberdade dessas feras magníficas.

No comando de lugares onde contemplar essas criaturas, Joe e os outros donos de zoológicos são párias da sociedade que questionam justamente o pacto entre o Estado e o indivíduo —e querem para eles a liberdade a qual se renuncia nesse acordo.

Ao sentir que seu espaço pode ser invadido pela polícia, Joe promete reagir com armas. É seu direito criar os animais que quiser e ninguém tem nada com isso, diz repetidas vezes. Mais à frente, numa cena no zoológico de um ex-chefão do tráfico surge uma placa com a imagem de uma pistola —"aqui não ligamos para o 911", diz uma frase nela.

A isso se soma uma galeria de personagens entregues às suas paixões —o desejo de vingança, a luxúria, o prazer das drogas. Joe e outro dono de zoológico são poligâmicos.

O protagonista, ele próprio um pária, também atrai para trabalhar com ele ex-presidiários, figuras punidas exatamente por desrespeitarem o pacto civilizatório.

Não é uma surpresa que, quando resolve ser candidato a governador, e, depois, a presidente, Joe escolha um partido libertário. O movimento tem crescido pelo mundo, par a par com a nova direita, e rejeita de forma mais radical a interferência do Estado na vida das pessoas.

Os diretores da série passada no Sul escravocrata americano, contudo, parecer sugerir um paradoxo —o desejo de liberdade sob viés libertário seria uma ameaça à liberdade de outros.

As imagens de bichos nas ruas e os tigres de Joe trazem os animais para expressar dois olhares diferentes —o medo da derrocada da civilização e o desejo de que, em parte, isso aconteça.

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