Chefe da Embratur cita sexo por orifício rugoso ao criticar peça e insulta gays

Em live com ministra Damares, Gilson Machado Neto disse que usar dinheiro público com obra sobre Jesus trans é canalhice

Brasília

O presidente da Embratur, o Instituto Brasileiro de Turismo, Gilson Machado Neto, criticou nesta quarta-feira (24), a peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", monólogo com a atriz e travesti Renata Carvalho em que ela encarna um Jesus transexual.

Na ocasião, uma live sobre o direito à vida e a dignidade que contou ainda com a presença de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ele afirmou não ter “nada contra quem usa seu orifício rugoso infralombar” para fazer sexo, em referência ao ânus.

Mas disse que, sim, era contra "querer impor a sexualidade a uma grande maioria de cristãos e querer desvirtuar a forma que Jesus Cristo veio à Terra", continuou. "E está escrito na Bíblia. Jesus Cristo nasceu, cresceu, foi crucificado e ressuscitou em forma de homem.”

Ele ainda afirmou que o uso de dinheiro público para apresentar obras desse tipo são uma “canalhice”. Em seguida, Machado Neto pediu desculpas pelo "desabafo".

O monólogo vem causando rebuliço desde que estreou, há quatro anos, no Festival Internacional de Londrina, o Filo. Então, as apresentações aconteceriam numa capela ecumênica, mas tiveram de ser transferidas depois de protestos de religiosos.

Meses depois, a montagem sofreu duas censuras judiciais —uma em Jundiaí, no interior paulista, em setembro, depois revertida, e outra em Salvador, em outubro. As justificativas eram de desrespeito religioso.

Dois anos mais tarde, o governo pernambucano cancelou a apresentação do espetáculo no Festival de Inverno de Garanhuns em resposta à pressão de patrocinadores, descritos como "estratégicos e nobres", que ameaçaram boicotar o evento. A cantora Daniela Mercury mencionou o incidente num show que realizou no mesmo mês.

A equipe por trás do espetáculo também relatou à Folha ter se deparado constantemente com manifestações de ódio, além de ter dificuldade para encontrar palcos e patrocínio.

O monólogo escrito pela britânica Jo Clifford recria a história de Jesus como uma transexual. A dramaturga, ela mesma trans e cristã, escreveu a peça como forma de lidar com sua religião quando já tinha decidido mudar de sexo e abandonar o nome de batismo, John.

Segundo uma entrevista concedida ao jornal na época das primeiras apresentações, ela afirmou que o texto não era uma crítica à igreja, mas um discurso sobre a aceitação.

No ano retrasado, a protagonista de "O Evangelho" se juntou a outros três artistas que viveram episódios de censura —o coreógrafo Wagner Schwartz, acusado de pedofilia ao encenar uma performance nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, era um deles— para "Domínio Público", peça-palestra em que respondem questões sobre polêmicas e agressões sofridas por eles.

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