Carreata em marcha a ré une arte e protesto contra Bolsonaro na Paulista

Teatro da Vertigem e Nuno Ramos fazem cortejo fúnebre em homenagem a mortos por Covid-19

Cerca de cem carros vão em marcha a ré da Fiesp até o cemitério da rua da Consolação Eduardo Knapp/Folhapress

São Paulo

Uma sinfonia composta pelo som de respiradores mecânicos e monitores cardíacos de UTI tomou conta do trecho entre o prédio da Fiesp, na avenida Paulista, e o cemitério da Consolação, na noite desta terça.

A trilha sonora macabra vinha das caixas de som de cem carros com as janelas abertas, num comboio que percorreu, em marcha a ré, o trecho de um quilômetro e meio entre os dois pontos, a uma velocidade média de letárgicos cinco quilômetros por hora.

No comando do lento trânsito estavam Nuno Ramos, um dos principais nomes das artes plásticas no país, e Antônio Araújo, um dos fundadores da companhia Teatro da Vertigem, conhecida por ambiciosas intervenções em espaços públicos da cidade.

Vestidos com roupas brancas de laboratório, botas, máscaras e escudos faciais, eles guiavam motoristas concentrados, de expressão preocupada. Além de dirigir no sentido contrário, era preciso coordenação para não bater no carro da frente ou no de trás.

Dois carros funerários encabeçavam as pontas deste cortejo fúnebre chamado “Marcha a Ré”, um misto de performance e protesto criado por Ramos com o Teatro da Vertigem, que vai virar um curta-metragem pelas lentes do cineasta Eryk Rocha a ser exibido na Bienal de Berlim deste ano.

A ideia do evento era “usar a linguagem bolsonarista, mas às avessas”, afirma Ramos. A produção se valeu de elementos de apoiadores do presidente, como as carreatas contra o distanciamento social durante a pandemia e o hino nacional, para criticar um país que vive “a nacionalidade do pesadelo, com tudo andando em marcha ré”, acrescenta o artista.

Na chegada da carreata ao cemitério, um trompetista tocou o hino nacional ao contrário, se apresentando em cima do pórtico da entrada depois que uma bandeira com a ilustração do rosto de uma mulher em agonia fosse estendida de cima a baixo.

A imagem faz parte do conjunto “A Série Trágica - Minha Mãe Morrendo”, do artista Flávio de Carvalho, que registrou em carvão sobre papel os últimos momentos de vida de sua mãe, levada pelo câncer. É um dos trabalhos mais fortes e transgressores do modernista brasileiro que também inspira a atual Bienal de Berlim.

A poucos dias de o país bater os 100 mil mortos de Covid-19, a performance é uma forma de prestar uma homenagem e de fazer o luto das vidas perdidas, afirma Araújo. “O foco é a Covid, mas na verdade a ação do governo como um todo, em relação a todas as outras mortes, na arte, na cultura, na educação, a destruição ambiental.”

Pensada para a avenida Paulista —região apropriada pela direita e depois pela extrema direita a partir do impeachment de Dilma Rousseff há quatro anos, segundo Ramos— a execução da performance envolveu 250 pessoas, entre atores, motoristas, produção, bombeiros, ambulância e agentes de trânsito.

O fechamento de duas pistas de uma das ruas mais movimentadas da cidade se deu com a ajuda da Spcine, que auxiliou no trâmite burocrático junto à prefeitura para a liberação de uma filmagem complexa. Em uma situação normal, transitar em marcha a ré é considerado uma infração grave pelo código penal, a não ser em pequenas manobras.

Os ensaios aconteceram no estacionamento do Itaquerão, com 40 carros, e a totalidade de motoristas para a performance foi captada nas redes pessoais e profissionais da equipe de produção. Não houve divulgação em redes sociais para evitar aglomeração de público, segundo os organizadores.

Quem observava o mar de carros na contramão e a equipe de produção no meio da Paulista coordenando tudo pouco entendia. “Caraca, que treta”, disse um ciclista. “Doideira”, falou outro. Quase na esquina com a Consolação, uma terceira pessoa que vinha a toda velocidade de bicicleta perguntou “é a fila da vacina?”.

O artista Nuno Ramos, durante a performance "Marcha a Ré", na avenida Paulista - Eduardo Knapp/Folhapress

A surpresa dos ciclistas em nada se parecia com a dos poucos pedestres nas calçadas, que olhavam com curiosidade resignada. O segurança de um prédio disse que a procissão era bonita, e um entregador de comida usou o adjetivo bacana para descrever o que via.

“Marcha a Ré” foi encomendada pela Bienal de Berlim, que acontece entre setembro e novembro na capital alemã. A ideia inicial dos criadores era fazer uma performance-caminhada em Berlim tendo como ponto de partida o primeiro templo da Igreja Universal do Reino de Deus na cidade, mas a pandemia de coronavírus quase impossibilitou as viagens intercontinentais, forçando uma mudança de planos.

Ramos se diz contente por realizar um evento público de grandes proporções em um momento no qual todos estão “imobilizados pelo Zoom”. “O nosso público vem dentro do carro, não estamos expondo ninguém —mas, dentro dessa restrição de possibilidades que a Covid traz, a gente consegue propor uma coisa na rua, ao vivo.”

Este é seu segundo trabalho envolvendo o governo Bolsonaro. Durante as eleições de 2018, o artista concebeu uma série de três performances nas quais os atores interagiam, ao vivo, com os debates presidenciais na TV.

O Teatro da Vertigem também tem uma longa história com a ocupação de espaços públicos paulistanos. A primeira peça da companhia, “Paraíso Perdido”, de 1992, foi encenada na igreja Santa Efigênia, enquanto “O Livro de Jó”, de 1995, tomou salas e corredores do hospital Umberto 1º. Uma das experiências mais radicais do grupo, no entanto, foi “BR-3”, de 2006, que pôs os atores em barcos navegando pelo poluído rio Tietê.

A megalomania de “Marcha a Ré” tem paralelo com o espetáculo “Hopscotch”, da companhia americana de ópera experimental Industry. No final de 2015, o grupo executou uma ópera com seus integrantes divididos em 24 carros em movimento pelas ruas de Los Angeles. Alguns veículos carregavam também membros da audiência e faziam paradas no meio do caminho, onde músicos se apresentavam.

Segundo Antonio Duran, membro do Teatro da Vertigem que ajudou a desenvolver a ação na Paulista, “Marcha a Ré” contribui para instaurar “um certo tipo de afeto solidário num contexto social de apatia e anestesia” diante dos mortos por coronavírus.

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