Pandemia não impede que baladeiros se aglomerem em bairros pobres e ricos de SP

Ruína financeira leva profissionais a promoverem noitadas com centenas de pessoas que desrespeitam medidas contra o vírus

Multidão dança e filma festa com celulares. Árvores brilham com luzes neon rosa

Festa em Tottenham Marshes, no norte de Londres; na Inglaterra, multidões estão se aglomerando para eventos organizados nas redes sociais e aplicativos de mensagens, apesar dos riscos Alex Marshall via The New York Times -31.jul.2020/

São Paulo

No fim de semana em que o Brasil atingia as 120 mil mortes por Covid-19, produtores de uma balada em São Paulo enviaram a seus contatos um convite prometendo uma festa inesquecível. “Não vamos deixar de fazer nossa vibe esse 'finde'. Mais do que isso, vamos fazer uma edição que vai marcar a melhor vibe dessa 'quarantine'!” A noite começaria numa fábrica no Ipiranga e se estenderia até a piscina de uma boate na manhã seguinte.

O mesmo grupo está prometendo para este final de semana um festival para 2.000 pessoas em um endereço a 30 minutos do centro da cidade, que será divulgado pouco antes da festa. Chamado de "Indústria Club", a estrutura incluirá dois palcos, bar, piscina, lounge e food trucks. Segundo o convite, também distribuído por WhatsApp, serão 12 DJs renomados tocando por 20 horas, entre sábado (12) e domingo (13). Os ingressos custam a partir de R$ 80. A mensagem pede ainda que quem a recebeu não divulgue o evento.

Além das listas de aplicativos de mensagem, quem mora na cidade do país com mais mortes causadas pelo coronavírus e quer curtir uma pista de dança sem máscara e festejando como se não houvesse pandemia também descobre a boa da noite pelas redes sociais.

Da periferia aos Jardins, casas noturnas de diversas regiões de São Paulo anunciam no Instagram e no Facebook baladas de música eletrônica, funk, hip-hop e shows de pagode —quando o endereço não é divulgado, basta mandar uma mensagem privada para descobrir.

Uma das soluções pensadas por estabelecimentos para reabrirem seguindo as medidas dos governos foi a de promover jantares animados, em que um grupo de amigos reserva uma mesa e pode curtir, sentado, o set de um DJ, como no caso da Sutton, restaurante e bar na avenida Brigadeiro Faria Lima, frequentado por endinheirados. O problema é que muitos dos clientes desrespeitam as regras, transformando o jantar em festa.

Em vídeos nas redes sociais, o público da casa aparece dançando hip-hop aglomerado, segurando taças de bebida, celular em mãos para registrar tudo. “É humanamente impossível controlar as pessoas”, diz Eduardo Barbeiro, dono da Sutton. Ele afirma que acaba se tornando babá. “Eu peço, eles sentam, colocam a máscara, mas depois de dois minutos já tiram e levantam." O empresário diz que as cenas nas redes não são frequentes e só acontecem às vezes.

Barbeiro afirma achar o Plano SP “ridículo”. A estratégia, desenhada pelo governo de João Doria, determina cinco fases para a reabertura gradual das atividades econômicas do estado —a capital está na terceira, a fase amarela, que não permite eventos com público em pé.

Em julho, quando reabriu, a Sutton foi interditada por funcionar além do horário limite. “Eu não sabia como tirar as pessoas, como eu expulso um cliente? Puxo pela orelha?”, pergunta o empresário.

O circuito de festas para o público de alto poder aquisitivo tem ainda baladas de música eletrônica numa espécie de galpão abandonado no Brás, endereço tradicional de eventos de techno e house antes da quarentena. Segundo profissionais envolvidos, eventos em julho e agosto reuniram entre 500 e 800 pessoas e aconteceram numa área do lugar de onde vaza menos som para a rua.

Pessoas ligadas a uma dessas festas indicaram Greg Habib como o produtor de ao menos duas noitadas. Habib é ligado ao The Fat Group, empresa que fez a produção executiva, no Brasil, das apresentações de alguns artistas na edição virtual do Tomorrowland, o maior festival de música eletrônica do mundo. Procurado, ele não quis comentar. Um dos responsáveis pelo galpão no Brás diz que não houve baladas por lá e que só fez festas para comemorar o aniversário de seus filhos.

As casas noturnas estão fechadas desde meados de março, quando o governo decretou a primeira quarentena no estado. Quase seis meses depois, eventos com pessoas em pé e demais atividades que geram aglomeração ainda estão proibidos, causando imenso prejuízo econômico ao setor de eventos. Discotecas e danceterias podem funcionar apenas como bar ou restaurante.

Promoter de festas há cinco anos, Luiz Fellype Ceragioli viu a renda de sua família zerar durante a pandemia. Ele, que garante o sustento da mãe e dois irmãos, ficou três meses parado e, em meio a dificuldades financeiras, decidiu retomar as baladas com um grupo de amigos.

“Minha necessidade é maior que o meu medo”, garante o profissional, que já foi infectado pelo novo coronavírus, assim como toda a família. "Não peço para ninguém não postar vídeos das festas porque já tá estampado na cara de todo mundo que tá tendo festa clandestina", acrescenta.

Nas baladas de funk, os clientes de Ceragioli gastam até R$ 5.000 numa noite. As atrações são artistas em início de carreira, ele afirma, já que os mais conhecidos têm medo de serem pegos e preferem não participar. Uma das estratégias para continuar funcionando é não repetir o endereço das festas para evitar a mira da prefeitura e da polícia.

A agonia financeira é também a principal preocupação de Lanzinho, popular DJ de funk que voltou a se apresentar há pouco, em bailes onde os frequentadores, em grande parte jovens, estouram garrafas de espumante com sinalizadores pirotécnicos e compartilham narguilés. Ele relata ter ficado com dívidas de mais de R$ 7.000 devido à falta de trabalho.

Lanzinho ainda se diz contra as medidas de restrição e que a quarentena deveria ter sido imposta só ao grupo de risco. "Praia lotada, busão lotado, avião lotado, 25 de Março lotada, Santa Ifigênia lotada, e a gente aqui só se ferrando."

Fim de semana de praia lotada em Santos, na altura do canal 3, em meio à pandemia - Alexsander Ferraz -30.ago.2020 / A Tribuna

Em nota, a prefeitura reforça que todos os eventos estão proibidos. O município afirma também que fiscaliza todos os dias, com apoio da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar, os estabelecimentos que excedem o horário permitido de funcionamento —mais de mil já foram interditados.

Para o descumprimento do horário, o valor da multa é de R$ 9.231,65, aplicada a cada 250 m². A título de comparação, a Lei do PSIU, que prevê o silêncio entre 1h e 5h, prevê multas a estabelecimentos que variam de R$ 8.000 a R$ 30 mil.

O movimento pela retomada dos eventos se intensificou nas últimas semanas entre os profissionais da noite e ganhou mais força com a circulação de imagens do litoral abarrotado no feriado de Sete de Setembro. A responsabilidade pela saúde do público parece dar lugar a um sentimento de injustiça pelo fato de o setor de entretenimento não ter voltado enquanto o resto da economia reabriu.

André Almada, dono da tradicional boate gay The Week, disse numa rede social que as casas noturnas precisam de um plano de volta, com ou sem vacina, "caso contrário sucumbiremos". Segundo Barbeiro, da Sutton, "as praias estavam lotadas no Rio de Janeiro e vão estar, as pessoas não estão mais nem aí para isso, essa é a verdade".


BALADA NA PANDEMIA

Sutton: Jantares animados na Faria Lima podem virar pista de dança

Poderoso Lounge Bar: Na zona norte, happy hour de funk em terraço ao ar livre é lotado

Virote Bar e Restaurante: A noite é animada com cerveja e roda de samba nesta casa da av. Eng. Caetano Álvares

Exclusive Lounge Bar: Em Guarulhos, recebe centenas de pessoas para noites de funk, hip hop e pagode

DJ Lanzinho: Em sua conta no Instagram (@djlanzinho), anuncia festas e divulga o endereço por mensagem privada

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