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Cinema

Dizer quem foi Alice Guy, a primeira das cineastas, justifica filme narcisista

Ilustre desconhecida, a diretora francesa dos primórdios da sétima arte é tema de documentário

Alice Guy-Blaché: a História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

  • Quando A partir de 29 de outubro
  • Onde Cinemas
  • Preço 12 anos
  • Direção Pamela B. Green
  • Gênero Documentário
  • Duração 120 minutos

​​Alice Guy, ou Alice Guy-Blaché é, ainda hoje, a mais antiga e ilustre desconhecida da história do cinema. Quem a apresenta é o documentário de Pamela B. Green, “Alice Guy-Blaché - A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”.

O documentário tem lá seus problemas. O caráter midiático (a mania de trazer personalidades hollywoodianas com cara de surpresa dizendo “quem é, nunca ouvi falar” etc.) é um deles. Outro é a autorreferência frequente. Parece até que, não fosse este filme, Alice Guy nunca teria nenhum reconhecimento, quando desde os anos de 1970 há especialistas (mulheres, na verdade) que pesquisam sua vida e trazem à luz sua obra.

Passemos pelo traço narcisístico. O que há dentro dele é fundamental. Alice Guy foi a primeira cineasta da Gaumont. Aliás, foi por insistência de sua até então secretária-estenógrafa que Leon Gaumont aceitou entrar para o ramo das filmagens.

Até que ponto o fato de ela ser mulher pesou na ignorância de seu trabalho? Pesou, certamente. Assim, vários de seus filmes seus foram creditados a Louis Feuillade, por exemplo. Feuillade foi um grande cineasta, não há dúvida, mas foi com Alice Guy que deu seus primeiros passos no cinema. Pesou também o fato de que não se dava importância ao cinema naquele tempo, que os filmes nem ao menos eram assinados, que sua produção se perdeu em grande medida etc.

Existe ainda o acaso. Leon Gaumont, ela própria conta, se preparava para lançar uma história da companhia, na qual daria pleno crédito ao trabalho realizado pela amiga em sua empresa entre o fim do século 19 e o começo do século 20. Mas Gaumont morreu, os originais desapareceram, e o trabalho de Guy continuou na sombra.

Houve reconhecimentos esparsos, pela FIAF, a Federação Internacional de Arquivos Fílmicos, fotos com Henri Langlois, o fundador da Cinemateca Francesa etc. Mas uma aura de desconfiança, mesmo nesses locais, parece acompanhar a presença de Alice Guy.

À parte tudo isso, no entanto, a razão central de Guy ter ficado tanto tempo nas sombras, ela, uma das primeiras a descobrir o país das maravilhas cinematográficas, talvez esteja em outra parte. É que sua obra de certa maneira obriga a recontar toda a história dos primórdios do cinema, que até então se assentava na dupla Lumière (o real) ou Méliès (o sonho). Alice traz algo como um sonho real, o real narrado à história de um cinema até então baseado nas atrações.

Sua importância e seu interesse está longe de se restringir ao fato de ser “a primeira mulher”. Mas ela trouxe ao cinema, é verdade, certa sensibilidade feminina. Só como exemplo, pensemos na deliciosa comédia (“Madame A des Désirs”) sobre uma grávida e seus desejos nos horários e nas situações menos adequadas.

Alice Guy já era cineasta feita quando decidiu casar (com o senhor Blaché, britânico apesar do nome) e mudar para os Estados Unidos, onde juntos fundaram a Solax. Blaché foi mais um peso do que outra coisa nos negócios de Guy, e os filmes que ele fez não têm, ao que parece, nenhuma importância.

Já Guy acompanhou a evolução do cinema americano até que, por volta de 1920 dois fenômenos complementares arruinaram de vez sua carreira –a expulsão das mulheres da atividade cinematográfica (como diretoras, sobretudo) e o incêndio do estúdio Solax.

Existe um terceiro fator. O cinema começava a se tornar uma grande indústria, e esse momento coincide com a expulsão das mulheres do negócio. Fenômeno nunca explicado claramente, mas verificável empiricamente.

A tudo isso se soma o divórcio; em resumo, Alice Guy voltou com as filhas para a França e nunca mais filmou. De todo modo, o restauro de seus filmes para a Solax dá conta de uma cineasta atenta à evolução de sua arte, passando ao uso do sistema de montagem criado por Griffith com total desenvoltura.

Se tem problemas aqui e ali, o trabalho de Pamela B. Green merece crédito pelo estoicismo com que procura parentes de Alice Guy, documentos a respeito dela e mesmo nos traz uma entrevista feita pelo historiador Victor Bachy, seu vizinho em Bruxelas e o primeiro a redescobrir seu trabalho.

Além disso, o documentário nos introduz à importância e aos métodos da preservação e recuperação de filmes antigos (não esquecer: a Cinemateca Brasileira, ocupada sob mão armada pelo governo Bolsonaro, continua fechada, e com seu acervo em perigo de degradação).

Descobrir Alice Guy (ou Alice Guy-Blaché) é uma maneira agradável de revisitar o primeiro cinema, conhecer uma de suas inventoras, entrar em contato com a obra de uma cineasta talentosa como poucos e, para quem preferir, até mesmo de questionar a história do cinema como foi tantas vezes contada.

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