Descrição de chapéu

Entenda por que Gal Gadot ser a Cleópatra não ofende os árabes

Estrela de 'Mulher-Maravilha', atriz israelense interpretará a famosa rainha do Egito em nova produção para o cinema

A atriz Elizabeth Taylor em cena do filme 'Cleópatra' (1963) Reprodução

A atriz israelense Gal Gadot é uma escolha historicamente aceitável para interpretar Cléopatra 7ª Filopator, a mais famosa das rainhas do Egito? Apesar da pouca semelhança entre as duas mulheres –as imagens contemporâneas da governante egípcia que chegaram até nós são de um rosto com feições mais duras e nariz adunco–, o fato de Gadot ser branca não é problemático do ponto de vista histórico.

Isso porque Cléopatra, embora descendesse de uma família que governava o Egito havia quase 300 anos quando ela conheceu seus futuros amantes Júlio César e Marco Antônio, era etnicamente grega. Para ser mais exato, seus ancestrais eram macedônios, povo do norte da Grécia que, liderado por seu rei Alexandre, o Grande, conquistou vastas regiões da Ásia e do norte da África a partir do ano 334 a.C.

Cleópatra descendia de dois dos principais generais macedônios de Alexandre, Ptolomeu 1º, o fundador da dinastia que governava o Egito, e Seleuco 1º, que manteve sob seu mando a Síria e a Mesopotâmia, o atual Iraque.

Alguns de seus ancestrais também tinham origem persa, ou iraniana. Os membros da família de Ptolomeu aderiram ao costume egípcio de casamentos consanguíneos que vinha da época dos faraós –a própria Cleópatra chegou a se casar com seu irmão mais novo–, mas não há registro de que algum deles tenha se casado com egípcias ou egípcios “nativos”.

Mesmo no caso do povo que habitava o Egito desde os tempos faraônicos, no entanto, a maioria das evidências arqueológicas e genéticas indicam um parentesco mais próximo com grupos do Oriente Médio e do Mediterrâneo, e não com os africanos que viviam ao sul do deserto do Saara.

É o que sugere, por exemplo, um estudo publicado em 2017, na revista Nature Communications, por Verena Schuenemann e seus colegas da Universidade de Tübingen, na Alemanha. Eles analisaram o DNA de 90 múmias encontradas na localidade de Abusir el-Meleq, com idades que vão de 1400 a.C. a 400 d.C. As populações mais semelhantes a essa amostra egípcia são as de locais como a Arábia Saudita, a Jordânia, o Iraque e antigos habitantes da Turquia.

Os pesquisadores concluíram que a contribuição genética dos africanos negros para os egípcios antigos ficava entre 6% e 15%, embora tenha aumentado de lá para cá, chegando a até 20% hoje, provavelmente por causa do tráfico de pessoas escravizadas.

Retratos funerários de egípcios feitos na época romana, pouco tempo depois da morte de Cleópatra, parecem confirmar esse cenário, com muitas pessoas de tez morena e cabelos crespos, mas sem negros nas imagens.

Isso não significa que os egípcios não tivessem contato com povos negros. É sabido que o Egito faraônico era relativamente multiétnico, com diferentes populações comerciando e colonizando o território. Nos séculos 8º a.C. e 7º a.C., o reino de Cush, no atual Sudão, chegou a pôr todo o Egito sob o domínio dos chamados faraós negros.

E quanto aos israelenses atuais, como Gal Gadot? Tal como boa parte de seus conterrâneos, ela descende de judeus asquenazes (do Leste Europeu e de países de língua alemã).

Esse grupo judaico, conforme revelaram diversos estudos, tem contribuição genética predominante do Oriente Médio, bem como contribuições menores, mas importantes, de grupos do Mediterrâneo e da Europa Central. Não é uma mistura muito diferente da que predominava nos ancestrais de Cleópatra. ​

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