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Mostra de Cinema de SP resiste a ano de adversidades com versão enxuta e online

Evento anuncia programação em formato virtual e sessões em drive-in para sua 44ª edição

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São Paulo

Foi um ano de dificuldades para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Não só por causa da pandemia, mas pelo desgaste na relação do governo federal com o setor cultural e por uma perda consistente de patrocínio.

Mesmo assim, a organização do evento anunciou, neste sábado (10), uma programação robusta para sua 44ª edição, que acontece entre os dias 22 de outubro e 4 de novembro.

Robusta porque tem cineastas de peso, como Ai Weiwei, Tsai Ming-liang, Lav Diaz e Mohammad Rasoulof —nomes que já haviam sido antecipados pela reportagem no início da semana.

“Foi um ano de adversidade para o Brasil como um todo e para a Mostra não podia ser diferente. Eu acho que há um sentimento de luto geral no país, então com certeza esse não é um ano de festa, é de adversidade e de resistência —e eu acho que a Mostra, do jeito que está, representa isso, resistência”, disse Renata de Almeida, diretora do evento, a este jornal, poucos dias antes da entrevista coletiva.

Nesta edição, por causa da pandemia, a Mostra vai exibir a maior parte de sua programação online. Para isso, desenvolveu uma plataforma de streaming exclusiva, em parceria com a mesma empresa responsável por viabilizar as sessões digitais dos festivais de Toronto e Tribeca, em Nova York, e do mercado de Cannes —mesmo cancelado, o evento francês manteve aberta a seção destinada a quem trabalha na indústria, mirando a venda de títulos.

O valor do ingresso virtual para cada filme é de R$ 6. Trinta filmes serão exibidos gratuitamente, porém, metade deles em parceria com o Sesc e metade em parceria com a Spcine.

Diferentemente de outros festivais de cinema que aconteceram recentemente no Brasil, a Mostra não terá “sessões”, com horários específicos para cada título ser exibido. A organização optou por disponibilizar todos os títulos na plataforma a partir das 20h do dia 22.

A exceção é o filme de abertura, "Nova Ordem", do mexicano Michel Franco. Ganhador do prêmio do júri do Festival de Veneza deste ano e descrito como polêmico por Almeida, ele ficará disponível às 0h01 do dia 23 e poderá ser assistido por 24 horas.

Já os demais filmes poderão ser vistos até que uma cota de público seja preenchida —na maioria dos casos, ela será de 2.000 espectadores. Ou seja, apenas os primeiros 2.000 espectadores que comprarem ingressos para determinado filme poderão assistir.

“A gente tem as desvantagens de fazer o evento pela internet, então por que não ter as vantagens? E a vantagem é poder ver os filmes quando quiser. A gente tem esse limite, claro, mas é a mesma lógica das salas de cinema”, diz a diretora.

Mesmo assim é preciso ficar esperto para garantir ingressos, já que a quantidade de filmes deste ano caiu significativamente. Se no passado eram pouco mais de 300, agora a lista é formada por 198 filmes —reflexo de adversidades financeiras que o evento enfrentou nesta 44ª edição.

“A gente perdeu patrocinadores importantes, o que é compreensível pela situação de pandemia atual. Estamos com um terço do orçamento que teríamos normalmente. Claro que não temos gasto com passagem e hotel para convidados, mas tivemos gastos com essa nova plataforma, com um site melhor”, diz Almeida, que chegou a pedir um empréstimo em nome da Mostra no começo do ano.

Mesmo sem a presença de atores e realizadores internacionais que costuma conferir glamour à Mostra, a seleção internacional é caprichada, com muitos títulos selecionados por festivais de renome mundial, muitos dos quais realizados em condições excepcionais.

Da Berlinale, chegam o vencedor do Urso de Ouro "Não Há Mal Algum", de Mohammad Rasoulof; "Dias", de Tsai Ming-Liang; "Sibéria", de Abel Ferrara; "Nadando até o Mar Se Tornar Azul", de Jia Zhangke (autor do pôster desta edição); e "Todos os Mortos", de Caetano Gotardo e Marco Dutra.

De Veneza, aterrissam "Gênero, Pan", de Lav Diaz, e "City Hall", do documentarista Frederick Wiseman, homenageado pelo evento com o Prêmio Humanidade. Da seleção de Cannes, há "Mães de Verdade", de Naomi Kawase, e o brasileiro "Casa de Antiguidades", do estreante João Paulo Miranda Maria.

Documentários que tratam da pandemia também têm vez na programação. Além de "Coronation", longa doo artista e ativista chinês Ai Weiwei que registra o lockdown do epicentro do novo coronavírus, em Wuhan, na China, há ainda "Sportin’ Life", de Abel Ferrara, em que o cineasta medita sobre a sua relação com a própria obra ao mesmo tempo em que a pandemia começa a se alastrar pela Europa.

Uma novidade desta edição é a participação de cinemas drive-in. O Belas Artes Drive-in, no Memorial da América Latina, terá duas sessões diárias, exceto às segundas-feiras, quando fecha. Já o cinema a céu aberto do Sesc recebe programação no fim de semana e no feriado de Finados.

No evento para a imprensa em que apresentou a programação da mostra, Almeida afirmou que a decisão de não fazer sessões presenciais afora aquelas nos drive-in se deveu a uma preocupação com o público.

As salas de cinema brasileiras, disse, já são naturalmente pequenas, limitadas a 150 assentos em sua maioria. Com as limitações da reabertura no pós-pandemia, enfim autorizada nesta sexta (9), a quantidade de poltronas a serem ocupadas seria ainda menor –ainda mais considerando-se que os títulos costumam ser negociados por número de sessões, quatro ou cinco no máximo.

Na conversa com a Folha, Almeida ainda falou sobre como a situação política atual do país contaminou o evento. Este ano, a Mostra dará o prêmio Humanidade, destinado a personalidades que sustentam valores humanistas, aos funcionários da Cinemateca Brasileira, que passaram meses trabalhando sem salário, devido ao descaso do governo federal com o instituto.

A diretora da Mostra diz que a decisão foi tomada por impulso, durante uma reunião em defesa da Cinemateca. Ao ouvir o depoimento de uma das funcionárias, Almeida ficou emocionada e pensou que aquele grupo de pessoas merecia um prêmio pelo comprometimento na preservação do maior acervo audiovisual do país. Foi assim que decidiu e já anunciou quem receberia a láurea.

“Eu acho que esse governo elegeu a cultura como inimiga. Desde as eleições existia uma questão de escada —você precisa de um inimigo para fazer de escada, para aparecer. E eu acho que a cultura continua fazendo esse papel, porque qualquer obra cultural é polêmica”, diz a diretora da Mostra.

“Eu acho que falta ao governo entender isso. Uma coisa é propaganda, outra coisa é arte. A arte vive do conflito, principalmente o cinema. Se não existe conflito, não existe história. O governo entende algumas obras como se fossem mera questão de falar mal, mas não é isso. A arte sempre espalha os conflitos reais."

A lista com todos os filmes que integram a seleção da Mostra pode ser encontrada no site do evento.

Colaborou Clara Balbi

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