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'Nova Ordem', de Michel Franco, abre a Mostra dissecando o fascismo

Filme do cineasta mexicano premiado no Festival de Veneza dá início a evento paulistano nesta quinta

Nova Ordem

  • Quando De 22 a 23 de outubro
  • Onde Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo)
  • Preço R$ 6 por visualização
  • Elenco Samantha Yazareth Anaya, Dario Yazbek Bernal e Patricia Bernal
  • Produção México e França
  • Direção Michel Franco

O diretor Michel Franco diz que seu novo longa, “Nova Ordem”, é “um filme-catástrofe mexicano”. Mas o vencedor do grande prêmio do júri do Festival de Veneza deste ano pode ser transportado para quase toda a América Latina e até mesmo alguns países do primeiro mundo.

“Nova Ordem”, que abre a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nesta quinta, soa quase como um bloco de noticiário televisivo. No México de um futuro próximo, a desigualdade social extrema e a corrupção desenfreada eclodem em protestos violentos que são reprimidos à força pelos militares, que tomam o poder e passam a controlar com brutalidade a vida de todos os cidadãos, ricos ou pobres. Soa familiar?

Franco é um mestre provocador. Seja na mistura de luto, manipulação e bullying de “Depois de Lúcia", de 2012, seja nas relações humanas de “Chronic”, de 2017, o diretor e roteirista mexicano não faz cinema para passar a mão na cabeça do espectador. Seu estilo é cru, observador, sombrio e sempre inesperado.

Homem branco de cabelo cacheado segura prêmio
O diretor mexicano Michel Franco posa com estatueta do grande prêmio do júri do Festival de Veneza deste ano - AFP

Esses adjetivos todos se encontram no seu longa mais ambicioso, que abandona as câmeras estáticas das obras anteriores em troca da agilidade das handycam. Como seu compatriota Alfonso Cuarón fez em “Filhos da Esperança”, de 2006, e Paul Greengrass tornou famoso em “Domingo Sangrento”, de 2002, Franco captura protestos e embates com os militares como um repórter ficcional sem medo de morrer.

O resultado é uma Cidade do México apinhada de pichações de “morte aos ricos”, monumentos destruídos e barreiras de controle por todos os lados —Franco diz que o filme custou menos de US$ 10 milhões, ou R$ 55,6 milhões, mas parece bem mais caro. O cenário espelha o mundo nos últimos meses, de Hong Kong a Portland, nos Estados Unidos.

O cineasta tenta não tecer julgamentos. São conclusões que o espectador deve tirar a partir da festa de casamento de um casal da elite mexicana –propinas de grandes empresários levadas como dotes, executivos mancomunados com militares corruptos e todos os convidados brancos recebidos pelos empregados de feições indígenas. Bem-vindos a “O Poderoso Chefão” versão América Latina em 2020.

No início, o filme é como um cruzamento de “Parasita", do ano passado, com “Roma”, de 2018, mas “Nova Ordem” ganha aspectos mais sinistros quando a dona da (opulenta) casa percebe que a torneira do (espaçoso) banheiro jorra tinta verde. Em seguida, os oprimidos, fartos de tanta desigualdade e armados, invadem a mansão numa cena que poderia muito bem fazer parte dos pesadelos de “O Som ao Redor”, de 2012. O povo cansa e cobra com sangue.

Esse cenário de caos é o terreno fértil para a disseminação do fascismo. Franco mostra como os poderosos espalham essas sementes ao custo de milhares de vidas. A desordem é alimentada pelos mesmos que se beneficiam do caos com o apoio dos alienados que enxergam os protestos como um absurdo e não como resultado de anos de violência socioeconômica. “Sem justiça, sem paz”, poderia dizer algum personagem a essa pessoa.

Michel Franco, que tanto prima por histórias íntimas emocionantes na sua curta filmografia, só tropeça ao investir mais no plano geral, deixando a trama principal quebradiça. A noiva Marianne, papel de Naian Gonzaléz Norvind, escapa do massacre no próprio casamento ao tentar ajudar a mulher de um ex-empregado. Ela, no entanto, termina sequestrada pelos militares, que usam reféns para pedir resgates milionários.

A partir desse momento, o mexicano não poupa o espectador. Estupros coletivos, torturas psicológicas e físicas, corrupção canibalesca e execuções a sangue frio se sucedem. A capital entra em lei marcial, as classes altas e baixas pagam o preço de um “novo regime” mais tenebroso que o anterior.

O cineasta continua fascinado pela ambiguidade humana, tema recorrente das suas obras. Ao mesmo tempo em que mostra uma família rica com relações patronais extremas (da intimidade à humilhação), ele desafia o público ao escolher a filha com mais empatia pelos menos favorecidos para sofrer nas mãos dos militares.

O que acontece com Marianne na ficção, acontece com muitas pessoas todos os dias. E talvez você não sinta o mesmo grau de compaixão, porque está fechado numa realidade cômoda ou repleta de outros problemas. “Nova Ordem” é um tapa na cara, mas cabe ao espectador assumir seu papel e entender que nem tudo é um jogo de futebol com dois lados.

O filme só tem uma certeza –todos nós perdemos no fim.

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