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Cinema

'Tenet' é espetacular, mas não tem genialidade de Christopher Nolan

Diretor combina teoria e entretenimento, mas deixa ambição de lado, e resultado não é dos melhores

Tenet

  • Quando Estreia em 29 de outubro
  • Onde Cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Elenco John David Washington, Robert Pattinson e Elizabeth Debicki
  • Produção Reino Unido/EUA; 2020
  • Direção Christopher Nolan
  • Duração 150 min

“Christopher Nolan, um dos maiores nomes do cinemão.” “‘Tenet’, o filme que vai salvar a lavoura de 2020 do cinema (indústria e exibidores).” Ambas as afirmações são válidas, o que não impede o mais aguardado filme do ano de ser uma decepção.

“Tenet” oferece tudo o que se espera do cinema-espetáculo –grandes momentos de ação, um vilão complexo, cenas em locações deslumbrantes, uma personagem feminina vítima da masculinidade tóxica e, mais importante, uma trama engenhosa.

O universo de ficção especulativa dá o motivo —o tempo e seus paradoxos— que atrai Nolan desde seus primeiros trabalhos. Aqui, não é só a ordem cronológica das sequências que o diretor altera. O nó da trama é um algoritmo que inverte os movimentos no tempo.

Em vez das convencionais viagens rumo ao passado ou ao futuro mil vezes contada na ficção científica, o palíndromo “Tenet” anuncia uma tecnologia de vaivém, uma reversão temporal que possibilita a ação do futuro sobre o presente, assim como a sobreposição de temporalidades em camadas.

A ideia corresponde à explorada por Nolan em “A Origem”, no qual se suspendia a distinção entre a dimensão real e a sonhada. Esses temas estão por aí desde o início da história do cinema, mas Nolan os soube reativar combinando teoria e entretenimento, criando filmes imersivos que fazem pensar, inoculando subtextos em gêneros ultracodificados e, assim, provocando milhares de “interpretações” nas redes sociais.

O que falta a “Tenet” é esse “toque Nolan”, a ambição e a desmesura que alçaram o diretor britânico ao posto de prestígio que ele ocupa na indústria e junto ao público.

A ambição se revelou na inversão da cronologia em “Amnésia”, de 2000. A desmesura ganhou força em meio à trilogia de Batman, com “A Origem”, de 2010, e, sobretudo, “Interestelar”, de 2014, filmes em que Nolan alcançou o complexo equilíbrio entre experimentação narrativa e especulações metafísicas sem precisar trair as qualidades comerciais. “Dunkirk”, de 2017, seu penúltimo longa, anunciava uma expansão do viés conceitual ao explorar a dimensão sensorial da sala de cinema e, assim, demarcar a diferença de intensidades entre as múltiplas formas de exibição hoje disponíveis.

Segundo essa lógica, “Tenet” parece um recuo. É como um 007 assinado por um diretor de primeira linha. Entretém, mas não gera especulações. É espetacular, mas pouco imersivo. É tenso, mas não tanto quanto o medo que sentimos quando alguém espirra, tosse ou pigarreia dentro do cinema.

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