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'Gênesis' toma liberdades e mistura a Bíblia até com os dinossauros

Cenas da novela são uma versão repaginada do que alguns dos geólogos do início do século 19 costumavam propor

Um paradoxo curioso rondou os primeiros capítulos da novela “Gênesis”, aposta da TV Record para o horário das 21h que estreou nesta semana.

Em tese, a narrativa seguiria tão de perto o primeiro livro da Bíblia que até os números de capítulos e versículos são mostrados na tela, remetendo o telespectador a passagens das Escrituras. Na prática, porém, não são poucas as passagens que subvertem tanto a letra quanto a lógica do texto bíblico.

E isso não é só por causa do jeito extremamente econômico de contar histórias que caracteriza o Gênesis.

De fato, nesse ponto não havia mesmo o que fazer além de imaginar detalhes e preencher lacunas.

Se a narrativa do Antigo Testamento só diz que Adão “gerou filhos e filhas” (quantos?), não indica se os irmãos primordiais Caim e Abel tinham problemas de relacionamento antes que o primeiro matasse o segundo ou evita explicar o porquê de Deus ter rejeitado as oferendas de Caim, cabe aos autores da novela transformar as pistas esparsas numa história que funcione.

Seria possível argumentar ainda que a trama erra ao não retratar pelo menos Adão e Eva como negros —a origem da humanidade na África é bem estabelecido pela genética.

No entanto, como a novela adota deliberadamente uma interpretação literal (ainda que idiossincrática) do texto bíblico, essa possibilidade ficou de lado. A maioria dos atores tem aparência europeia, ainda que alguns não ficassem deslocados no Mediterrâneo oriental onde Israel surgiu.

Os primeiros momentos foram, contudo, muito além dessas fronteiras. Não há como casar o Gênesis bíblico com as cenas nas quais a rebelião do anjo Lúcifer, papel de Igor Rickli, e seus asseclas é responsável por, enfim, extinguir os dinossauros.

Não, o leitor não leu errado —ao serem arrojados do Céu por Deus, o Demônio e seus comparsas funcionam como uma chuva de meteoritos que dizima os grandes répteis, ao menos na novela da Record.

As cenas, aliás, são uma versão repaginada do que alguns dos geólogos do início do século 19, os chamados catastrofistas, costumavam propor.

Segundo eles, a Terra teria passado por diversas criações no passado, encerradas por catástrofes —a mais importante seria o dilúvio bíblico— e seguidas por novos ciclos de criatividade divina.

É mais ou menos o que a novela mostrou logo depois. Após a revolta de Lúcifer, Deus “zera o cronômetro” do Cosmos e cria terras, mares, astros, vegetais e animais (supostamente os dinossauros também precisavam de tudo isso para viver, mas abstraia).

A principal subversão do texto bíblico, entretanto, nem é essa. Uma leitura atenta do Gênesis, e da maior parte do Antigo Testamento, deixa claro que o Diabo mal chega a ser coadjuvante da narrativa —aliás, quase nunca é mencionado.

A própria serpente do Éden, cujos conselhos ardilosos levam o primeiro casal a comer o fruto proibido por Deus, em nenhum momento é associada diretamente ao Demônio —ela é só um animal falante matreiro, punida pelo Criador com a perda de suas quatro patas originais (algo que, seria de se imaginar, não teria efeito sobre um anjo caído).

Ao longo da narrativa do Gênesis, o centro são sempre a ação e as escolhas humanas, enquanto a novela da Record faz com que Lúcifer esteja postado, à espreita, todas as vezes que há uma desavença entre Adão, papel de Carlo Porto, e Eva, vidida por Juliana Boller, ou quando Caim, interpretado por Eduardo Speroni, reclama da vida dura de lavrador causada pela expulsão do Paraíso.

Não é por acaso que, para incluir Lúcifer na história, os autores tiveram de costurar uma série de textos díspares na tela, um dos quais do Novo Testamento, cujo ambiente literário e cultural é muito diverso do que se vê no Gênesis.

Por outro lado, a abertura, que já deixa entrever as fases seguintes da trama, com os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó como protagonistas, faz algumas referências interessantes à história e à arqueologia do Oriente Médio antigo.

É possível até reconhecer artefatos famosos, como o chamado estandarte de Ur, datado do século 26 a.C. (diz a Bíblia que a cidade de Ur era a terra natal de Abraão, o que provavelmente explica o uso do objeto), e os zigurates, templos-plataformas que teriam inspirado a história da torre de Babel.

Vai ser interessante ver como a narrativa incorporará esses elementos históricos na saga das origens do povo de Israel, que surgiu de modo relativamente tardio em meio às grandes civilizações do Oriente Médio. O Gênesis, no fundo, é o registro de como os antigos israelitas transformaram esse legado e o incorporaram em seu DNA cultural.

Gênesis
Seg. a sáb., 21h, na TV Record.

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