Ilustração que marcou encontro de Tintim com a China vai a leilão em Paris

Arte de capa do livro 'O Lótus Azul', do cartunista belga Hergé, pode ser vendido por R$ 17 milhões

Tobias Grey
The Wall Street Journal

“É bom demais para crianças!”, exclamou Georges Remi, falando sobre “O Lótus Azul”, o quinto de sua série de livros de quadrinhos sobre o intrépido menino repórter Tintim. Mais conhecido entre seus leitores por seu pseudônimo Hergé, Remi criou o personagem em 1929 para um jornal belga, mas foram os livros que tornaram Tintim mundialmente famoso; 23 deles foram publicados antes da morte do cartunista, em 1983.

Hergé tinha 29 anos e se aproximava do pico de sua capacidade artística em 1936, quando “O Lótus Azul” foi publicado. “Em termos de qualidade, há um antes e um depois de ‘O Lótus Azul’”, diz Eric Leroy, especialista em histórias em quadrinhos da casa de leilões Artcurial, de Paris.

No próximo 14 a Artcurial vai leiloar a arte de capa original de “O Lótus Azul”, feita em nanquim, aquarela e guache sobre papel. A ilustração mostra Tintim e seu cãozinho Milu enfiando a cabeça para fora de um vaso Ming e dando de cara com um gigantesco dragão pintado sobre a parede atrás deles. Tanto eles quanto o dragão ostentam uma expressão de espanto.

A estimativa prévia mais alta feita para a ilustração é de US$ 3,4 milhões, ou R$ 17,6 milhões, pouco abaixo do recorde já alcançado por um trabalho de Hergé em leilão –US$ 3,6 milhões, em 2014.

A ilustração mostra Tintim e seu cãozinho Milu enfiando a cabeça para fora de um vaso e dando de cara com um dragão pintado sobre a parede atrás deles. Tanto eles quanto o dragão ostentam expressão de espanto.
A capa original de 'O Lótus Azul', do cartunista belga Hergé, será leiloada em Paris, em janeiro de 2021. - Herge Moulinsart 2020

Como seu criador, Tintim é belga francófono, mas suas aventuras o levam a percorrer o mundo todo, e os leitores se renderam às ilustrações cuidadosas de locais exóticos feitas por Hergé. Os primeiros livros da série levaram Tintim e seus fiéis companheiros a aventuras na União Soviética, no Congo belga, no Egito e nos Estados Unidos. Em “O Lótus Azul”, ele viaja à China, onde testemunha o imperialismo japonês e arrisca o próprio pescoço para desarticular uma rede internacional de contrabando de ópio.

A arte de capa que irá a leilão em janeiro é única e singular. Quando Hergé a ofereceu a seu editor, Louis Casterman, ela foi considerada cara demais para ser reproduzida pelo método padrão de impressão em quatro cores.

Hergé criou uma versão mais simples para ser usada no livro, mas deu a ilustração original ao filho pequeno de Casterman, que dobrou o papel em seis e o guardou numa gaveta. Agora seus herdeiros decidiram vender o desenho. “Eu diria que é a obra de arte de Hergé mais bonita a chegar ao mercado que ainda se encontra em mãos de particulares”, diz Leroy.

Uma das inspirações de Hergé quando criou a ilustração foi uma capa de revista que mostrava a atriz Anna May Wong, estrela do filme “O Expresso de Xangai”, de 1932, tendo como pano de fundo um dragão vermelho.

Michael Farr reproduziu a imagem há 20 anos em seu livro “Tintin: The Complete Companion”, algo como o guia completo de Tintim, que investiga as fontes na vida real das aventuras fictícias de Tintim. Farr, que conheceu Hergé em 1978, o descreve como um “candidato frustrado a jornalista”. “Foi por isso que ele criou Tintim, o intrépido correspondente no exterior que ele próprio queria ter sido.”

Farr vê “O Lótus Azul” como um grande passo do artista, o livro em que “tudo se alinhou artisticamente e em termos da narrativa”. Foi o primeiro livro sobre Tintim desenhado no estilo que se tornaria a marca registrada de Hergé, conhecido como a “linha clara” por empregar traços fortes e todos da mesma espessura, sem hachura ou jogo de sombras.

O catalisador do desenvolvimento desse estilo foi o encontro de Hergé com o estudante de arte chinês Zhang Chongren em Bruxelas. Hergé procurou Zhang depois de ser persuadido por um amigo que “O Lótus Azul” deveria representar uma versão menos estereotipada da China do que era a mais comum na Europa na época. Hergé dizia que Zhang o ensinou sobre “o vento e o osso –ou seja, o vento da inspiração e o osso de uma linha de desenho firme”.

“Até aquele livro, Hergé usava bico de pena para desenhar com nanquim. Mas com Zhang ele aprendeu a usar pincel fino também e descobriu que com isso era capaz de nuançar o efeito, para que não fosse tão nítido e direto quanto o criado com o uso do bico de pena”, diz Farr.

A narrativa de Hergé em “O Lótus Azul” foi inspirada em acontecimentos reais, de uma maneira que ele não havia feito até então. Parte da história é baseada no episódio conhecido como Incidente de Mukden, em 1931, em que soldados japoneses detonaram uma seção da ferrovia do sul da Manchúria e atribuíram o ato aos chineses, criando um pretexto para a invasão japonesa da Manchúria.

“Hergé se opôs à visão majoritária”, diz Farr. “Quando ‘O Lótus Azul’ foi publicado inicialmente, em 1934, em formato de série, os europeus ocidentais eram tremendamente pró-Japão.” A história levou o governo japonês a apresentar um protesto formal junto ao Ministério do Exterior belga.

Mas a reputação de Hergé parece ter emergido intacta. “Hoje ele é tremendamente popular em toda a Ásia”, diz Farr. “‘O Lótus Azul’ é o livro de Tintim mais vendido no Japão, uma ironia tremenda, e na China, onde ‘Tintim no Tibete’ também é altamente popular.”

Farr atribui a Hergé uma capacidade notável de antever o futuro. “Se você olhar para o grande número de aviões e navios de guerra japoneses reunidos em ‘O Lótus Azul’, isso pressagia o que aconteceria sete anos mais tarde em Pearl Harbor”, ele diz. “E levar Tintim à Lua em 1953 [no livro ‘Rumo à Lua’] foi impressionante. Isso foi 16 anos antes de Neil Armstrong.”

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.