Descrição de chapéu feminismo

Quem é a artista que abriu uma vulva gigante num canavial e viralizou nas redes

Criada pela artista Juliana Notari, instalação foi recém-inaugurada na Usina de Arte, em Pernambuco

São Paulo

Uma enorme fenda vermelha que rasga a paisagem canavieira de uma antiga usina de açúcar em Pernambuco causou alvoroço nas redes sociais nestes primeiros dias de 2021.

Criada pela artista pernambucana Juliana Notari, “Diva” é uma land art de proporções superlativas. Seus 33 metros de altura, 16 de largura e seis de profundidade foram talhados e recobertos por concreto armado e resina pintada em tons avermelhados para remeter, ao mesmo tempo, a uma vulva e a uma ferida.

Numa postagem nas redes sociais feita no último dia 30, a artista celebra a entrega do projeto, fruto de uma residência artística na Usina de Arte, onde a obra está instalada, e de um convênio da Usina de Arte e do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, o Mamam, no Recife.

Não demorou para que as selfies que Notari fez para registrar o processo da obra inundassem as redes sociais, na maioria das vezes acompanhadas de críticas.

Das fotos publicadas, chama a atenção uma em que ela, branca, posa com a equipe responsável pela escavação, formada por homens negros —”a questão mais delicada apontada pelo público”, reconhece.

“Eu e a equipe estávamos em harmonia, mas quando você vê a imagem, realmente, ela mostra a diferença de classes, a racialização. Tirei a foto e na minha branquitude reafirmei um processo de trabalho típico do contexto brasileiro”, diz. “Eu poderia ter tido mais cuidado. Mas acho que é preciso ter cautela na hora de relacionar isso com a obra. A imagem extrapola o campo da arte e entra no contexto do que é o Brasil.”

A repercussão não ficou só no âmbito racial e social. Houve ainda quem chamasse a obra de transfóbica, de genitalista, quem questionasse a necessidade de se gastar dinheiro com arte feminista em vez em projetos sociais, aqueles que se preocuparam com a questão ambiental e por aí vai.

Mesmo diante da agressividade dos ataques, a artista avalia que há algo de positivo na discussão. “As pessoas também estão falando da relação social, de gênero, de natureza, de ambiente.”

Mesmo que muita gente só dê atenção para a vagina gigante que brota da terra, a artista reforça que ali também há uma ferida. “Se fosse só a vulva, eu teria feito os grandes lábios, o clitóris. É uma ferida também. A partir do momento que ela aparece, o campo de interpretação da obra se abre para outras dimensões, como a da exploração da terra pelo capitalismo”, afirma.

Com a inauguração de “Diva”, o parque artístico Usina de Arte, nos arredores do Recife, amplia sua lista de obras de arte contemporânea, de autoria de nomes como José Spaniol, Joan Barrantes, Hugo França e Carlos Garaicoa.

Declaradamente inspirado no Instituto Inhotim, o projeto ocupa uma antiga usina de açúcar, falida nos anos 1980. “Tem gente falando que houve desmatamento [para a instalação da obra], mas ali já não tinha mata virgem”, diz Notari. Outra preocupação era sobre a resina usada —a artista diz que o produto não teve contato com a terra. “Será que essas pessoas não têm caixa d’água em casa?”

Aos 46 anos, ela trabalha com diversas linguagens artísticas, performances, vídeos, fotografias e desenhos, além das instalações. Esta não é a primeira vez que ela usa a vagina como tema. Tampouco é a sua primeira polêmica.

A anatomia feminina é base de obras da pernambucana desde 2003, com a performance “Dra. Diva”, apresentada na galeria Vermelho, em São Paulo, e na École Supérieure d’Art d’Aix-en-Provence, na França. Nela, a artista abre fendas na parede com ajuda de martelo e escopo, depois as banha com sangue de boi e introduz nas aberturas espéculos de aço inoxidável.

Notari também usou camadas de um painel de Paulo Climachauska na 26ª Bienal de São Paulo, em 2004, para criar a “Ferida da Bienal”. Nela, o processo de prospecção —também em formato de fenda— revela uma intensa cor vermelha nas paredes do prédio que abriga o evento artístico, em dimensões e contornos variados.

Houve ainda a intervenção urbana “Spalt-me”, de 2009, na qual a fotografia da obra “Dra. Diva” ocupou muros e paredes de ruas de Berlim, Veneza, Amsterdã e Aix-en-Provence.

Já com “Mimoso”, de 2014, apresentada em “À Nordeste”, exibida em 2019 no Sesc 24 de Maio, Notari teve o primeiro contato com a tensão nas redes sociais.

Na performance, ela é arrastada nua por um búfalo na ilha de Marajó, no Pará. O animal foi castrado no dia seguinte à filmagem e a artista incorporou a operação à obra. Ela comeu o testículo na hora em que ele foi retirado, com garfo e faca, e registrou no vídeo. A obra causou polêmica e o Facebook tirou imagens da obra do ar. “Realmente, era muito pesado”, avalia. “Mas nada como está sendo agora. A coisa extrapolou.”

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