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Italiano filma 'Pinóquio' sombrio e Hollywood tem onda de releituras delirantes

Matteo Garrone lança adaptação mais fiel para a história de Carlo Collodi, que segue sendo cobiçada por cineastas e estúdios

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Federico Ielapi em cena do filme

Federico Ielapi em cena do filme "Pinóquio", de Matteo Garrone Divulgação

São Paulo

Que criança nunca ouviu que seu nariz cresceria caso ela contasse mentiras? A advertência, é claro, vem da história de Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Ela sozinha já seria prova suficiente de que “As Aventuras de Pinóquio”, do italiano Carlo Collodi, é um livro atemporal, que vem encantando várias gerações desde 1883.

Mas nos últimos anos uma onda de ostentosas adaptações para o cinema tem buscado reaver o apelo inesgotável da marionete. Ao todo, quatro versões cinematográficas da obra máxima de Collodi estiveram em desenvolvimento ao mesmo tempo.

Elas engrossam a lista de cerca de 30 títulos que já beberam da fonte de “Pinóquio” no passado —de animações até “A.I. - Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg, que transformou o corpo amadeirado do boneco em lataria.

Desse novo quarteto de filmes, o que saiu na frente foi o de Matteo Garrone, que chega agora aos cinemas. “Pinóquio” é um projeto inspirado nas histórias que, quando pequeno, o cineasta ouvia da mãe, e tem sido alardeado como uma versão mais respeitosa ao original.

“Essa é uma história antiga, porém clássica, então ela é sempre moderna”, afirma Garrone, em conversa por telefone. “Queria fazer uma adaptação que fosse pessoal e ao mesmo tempo fiel ao livro, porque, quando o li, há seis anos, percebi que estava cheio de surpresas e de coisas das quais não tinha memória.”

Isso porque, ele reconhece, muitos dos que sabem do boneco hoje nem chegaram a ler o material de origem. A obra acabou sendo eternizada muito por causa da animação de Walt Disney, com seu Pinóquio fofo e desajeitado. O longa virou um clássico, mas não sem fazer alterações profundas na criação de Collodi.

Tanto que Garrone afirmou ao jornal britânico Telegraph, em agosto, que em sua versão queria fazer o oposto do que a Disney fez em 1940, num filme que foi “bonito, mas que traiu a história original de várias formas”. Hoje ele prefere fugir do assunto, mas destaca a importância de ressaltar o contexto no qual “As Aventuras de Pinóquio” foi escrito.

“Eu queria fazer um Pinóquio muito, muito italiano. Queria falar da Toscana, onde Collodi escreveu o livro. Isso não significa que meu filme é melhor, mas essa obra-prima do Collodi é italiana e eu sou um diretor italiano”, afirma.

Sua visão para “Pinóquio”, de fato, é mais italiana do que a da concorrência. Filmada na língua de Garrone, ela ganhou uma dublagem em inglês para o mercado internacional, mas com a voz de atores italianos falando com sotaque.

Enquanto isso, as próximas adaptações de “Pinóquio” vêm de Hollywood e prometem adotar uma liberdade artística maior. Uma delas, na verdade, parece ter se assustado com o cenário superpovoado por bonecos de madeira.

Há anos rumores sustentavam que a Warner estaria desenvolvendo uma adaptação, com Robert Downey Jr. no elenco e Tim Burton na direção —mas, sem novidades, ela parece ter sido descartada.

Outras duas grandes e caras adaptações, no entanto, seguem de pé. A primeira é um stop-motion de Guillermo Del Toro, que pretende envernizar o boneco de madeira com tons mais realistas e levar a trama à Itália fascista dos anos 1930. O chamariz é o elenco estrelado, com vozes de Cate Blanchett, Tilda Swinton, Christoph Waltz e Ewan McGregor. O filme deve chegar à Netflix ainda neste ano.

Já a Disney, como tem feito com outros de seus clássicos animados, vai refilmar “Pinóquio” com atores de verdade. A direção vai ser de Robert Zemeckis, e Tom Hanks vai assumir o papel de Geppetto.

Enquanto Del Toro e Zemeckis pretendem desprender suas releituras das páginas, Garrone quis preservar a essência de Collodi, apresentando uma miríade de personagens que outros filmes desprezaram, como uma simpática velhinha que é metade caracol.

No novo longa, as montanhas verdejantes da Toscana se erguem atrás da marionete protagonista, que se perde de seu pai, Geppetto, pouco depois de ganhar vida. Ela caminha perdida com seu casaquinho e gorro vermelhos, seduzida pela beleza que a cerca, mas sem perceber o quão perverso o mundo pode ser.

Os visuais de Pinóquio e de seus companheiros de cena são bastante realistas e chegam a ser desconcertantes. Quando o boneco vai parar na boca de uma baleia, por exemplo, é surpreendido por um atum falante —o corpo é de peixe, mas um rosto humano o torna no mínimo bizarro.

Garrone conta que, no caso de Pinóquio, não quis usar efeitos especiais e, com isso, o pequeno Federico Ielapi precisou passar quatro horas por dia na cadeira de maquiagem. O resultado é assombroso.

A mistura entre encanto e estranhamento faz sentido num filme do mesmo diretor de “Gomorra” e “Dogman”, ambos premiados em Cannes e que se debruçam sobre uma Itália muito mais violenta e desesperançosa do que a apresentada em “Pinóquio” —por mais que este seja sombrio à sua própria maneira.

“Em todos os meus filmes eu falo de personagens que lutam por sua vida. Neste universo criado por Collodi, ele mostra às crianças quão perigosa a vida pode ser se tomarmos decisões erradas. Então o lúgubre é intrínseco a essa obra”, diz Garrone.

Para quebrar essa melancolia, coube ao ator Roberto Benigni, de “A Vida É Bela”, injetar doses de humor na trama como Geppetto. E sua presença é mais uma prova do apelo atemporal de “Pinóquio”, já que o próprio Benigni dirigiu e atuou, dessa vez no papel da marionete, numa outra versão do livro, há duas décadas.

O ator italiano Roberto Benigni em cena do filme "Pinóquio", de 2002
O ator italiano Roberto Benigni em cena do filme "Pinóquio", de 2002 - Divulgação

Marionetistas

Matteo Garrone
O cineasta lança no Brasil uma versão mais italiana e autêntica de "Pinóquio", com personagens pouco vistos em outras adaptações e Roberto Benigni como Geppetto

Guillermo Del Toro
Com previsão de estreia para este ano, a versão do cineasta mexicano será em stop-motion e mais sombria, com o cenário do fim do século 19 sendo substituído pela Itália fascista dos anos 1930. No elenco de vozes estão estrelas como Cate Blanchett, Tilda Swinton, Christoph Waltz, Ewan McGregor, Ron Perlman e Finn Wolfhard

Robert Zemeckis
Na onda de adaptar seus clássicos animados, a Disney resolveu refilmar sua versão do livro de Collodi, a animação "Pinóquio", lançada em 1940, mas desta vez com atores de carne e osso. A direção vai ser de Robert Zemeckis, enquanto Tom Hanks foi contratado para o papel de Geppetto

Pinóquio

  • Quando Estreia nesta quinta (21)
  • Classificação 10 anos
  • Elenco Federico Ielapi, Roberto Benigni e Gigi Proietti
  • Produção Itália/França/Reino Unido, 2019
  • Direção Matteo Garrone
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