'Retrato de Uma Jovem em Chamas' é ode à arte e ao feminino, dizem debatedoras

Longa francês vencedor em Cannes foi debatido no primeiro Ciclo de Cinema e Psicanálise de 2021

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Ao longo de duas horas, “Retrato de Uma Jovem Em Chamas” é completamente dominado por personagens e questões femininas, concedendo poucos minutos para os homens, que são insignificantes para o enredo.

"O tempo todo o filme é o nascimento do feminino, seja pelo fogo, pela água, pela terra. Como nenhum homem aparece, ele fica livre para nascer ali. É como se aquele momento fosse de plena liberdade", afirmou a psicanalista Magda Khouri, que participou do Ciclo de Cinema e Psicanálise, nesta terça-feira (26).

O filme, dirigido por Céline Sciamma, foi premiado pelo roteiro no Festival de Cannes e ganhou o César de melhor fotografia.

A história se passa numa ilha isolada na França do século 18 e mostra o relacionamento da pintora Marianne, papel de Noémie Merlant, com a jovem Héloïse, vivida por Adèle Haenel. Depois do suicídio da irmã, Héloïse a precisa substituir num casamento arranjado e o retrato será enviado para assegurar a união com o pretendente, que ela não conhece.

A ligação delas começa com a tarefa de Marianne, que precisa retratar a outra sem que ela saiba, função já fracassada por outro artista. O convívio se desdobra na amizade e, posteriormente, na paixão das duas mulheres.

A psicanalista Luciana Saddi, que fez a mediação do debate, elogiou o trabalho da diretora por ela conseguir elevar a beleza do amor a um patamar que beira o sagrado e, ao mesmo tempo, retrata a realidade das questões de autonomia e emancipação frente às exigências sociais e patriarcais da época.

Segundo Saddi, o nascimento da paixão delas é o “contraste entre a eternidade do amor e da arte diante da inexorável irrelevância da materialidade mundana, da passagem do tempo e das mudanças históricas".

Khouri destaca que a experiência amorosa do filme tem um alcance universal, que ultrapassa questões de gênero, idade e momento histórico. "O fogo entre elas representa a paixão e a pulsão, que na psicanálise a gente fala que não cessa, é um motor da nossa vida que não tem uma lógica."

Para além do processo de se apaixonar, Marcella Franco, jornalista e colunista da Folha, vê no filme outra temática, a do autoconhecimento feminino. Na visão dela, Héloïse não se conhecia como indivíduo e era guiada pelas ordens e desejos dos outros. Já Marianne tinha tido uma oportunidade maior de formar sua identidade, com instruções do pai para desempenhar o ofício de pintora e experiências amorosas anteriores.

"Antes do reconhecimento do outro, precisamos falar de quanto nos conhecemos. Quando a Héloïse se abre para a Marianne, não é só para o amor, mas para, através desse olhar do outro, ela enxergar a si mesma."

“O filme é ode à arte, ao amor e ao feminino”, afirmou Magda Khouri. Segundo ela, tal como uma mãe introduz a cultura para o bebê em todos os gestos, Marianne apresenta a arte para Héloïse e faz uma “abertura para o mundo onde as referências simbólicas vão dando espessura a toda a nossa vida”.

O público da transmissão, que chegou a 194 pessoas, indagou como as debatedoras viam a questão da diferença de classes entre as mulheres no filme. Enquanto Marianne e Héloïse eram um casal com muita simetria nos aspectos físicos, a empregada Sophie, papel de Luàna Bajrami, tinha uma altura consideravelmente menor.

Segundo Franco, há uma união no lugar do feminino, principalmente quando Sophie faz diversas tentativas de aborto e recebe o apoio das duas. “O patriarcado que ficou lá na beira da praia não é bem-vindo e não entrou. Sem essas limitações, as mulheres podem ganhar a mesma altura, dividir as experiências.”

Por fim, as debatedoras discutiram de que modo o suicídio da irmã de Héloïse se perpetua, após ter sido brevemente citado no começo do filme.

"O que fica no ar é o insuportável destino de ser prometida para alguém dessa forma tão autoritária e repressiva da época. Esse abismo está o tempo todo no filme, com a dor e o sofrimento”, disse Khouri.

Segundo Franco, a morte da irmã serve como um artifício do roteiro para dramatizar ainda mais o sofrimento de uma mulher forçada a se casar. "Essa morte está sempre rondando a relação das duas em vários aspectos, seja na irmã, no aborto ou no casamento que será a morte do amor das duas."

O Ciclo de Cinema e Psicanálise é um evento promovido quinzenalmente pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, com apoio da Folha e do Museu da Imagem e do Som. O debate pode ser conferido na íntegra pelo canal do MIS no Youtube.

A próxima edição do ciclo será no dia 9 de fevereiro, às 20h, para discutir o filme mexicano "Ya no Estoy Aquí", disponível na Netflix.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.