Descrição de chapéu oriente médio

Artista da Bienal de São Paulo disseca o som de um soco para decifrar a tortura

Lawrence Abu Hamdan, artista escalado para a mostra em setembro, estuda ruídos da violência em crimes de guerra

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São Paulo

Não é difícil supor que, quando pensamos num soco, o seu som está próximo ao que estamos habituados a escutar nas produções cinematográficas. Mas os barulhos reais desse e de outros atos violentos podem ser bem distantes das referências sonoras de Hollywood.

Esse foi um dos elementos descobertos na investigação minuciosa do artista jordaniano Lawrence Abu Hamdan de testemunhos de prisioneiros sobre crimes que foram ouvidos —e que motivou seu trabalho "After SFX", que será exibido na próxima Bienal de São Paulo.

Homem branco veste óculos e camisa azul
O artista Lawrence Abu Hamdan, um dos nomes da 34ª edição da Bienal - Miro Kuzmanovic

O projeto começou ainda em 2013, quando o artista já recolhia esses depoimentos. "Eu tentava ajudar a entender o que acontecia dentro da prisão pela perspectiva do que os prisioneiros escutavam", conta, em entrevista por videoconferência.

A prisão, no caso, é a de Saydnaya, na Síria, onde pelo menos 13 mil oponentes do regime sírio foram enforcados e outros morreram de tortura ou fome, segundo relatório publicado pela Anistia Internacional.

Ele conta que tentou usar efeitos sonoros das bibliotecas da BBC e da Warner durante as conversas com as testemunhas para reconstituir o que acontecia dentro da prisão, mas que os efeitos eram "muito teatrais".

Os depoimentos também eram atravessados por outros estranhamentos em relação ao sons. O primeiro era a própria falta de uma linguagem para descrever esses barulhos. "Usamos todos os tipos de metáforas de outras dimensões sensoriais. Dizemos que eles são nítidos, ou brilhantes, mas não há um vocabulário para ser realmente preciso e para descrever os sons", diz.

O segundo era que, habituadas aos efeitos sonoros cinematográficos, as testemunhas muitas vezes nem sequer identificavam atos violentos pelos seus barulhos reais. "Esses elementos começaram a surgir, e ele se tornou um trabalho sobre como traduzimos, pensamos e guardamos esses sons."

Lawrence Abu Hamdan se tornou um colecionador de objetos e gravações para criar seu próprio inventário sonoro desde então —e suas investigações já foram usadas como prova em tribunais e para sustentar dossiês de organizações, como a própria Anistia Internacional.

"A diferença entre o som de uma tranca e de uma outra tranca [na prisão] pode soar como um detalhe, mas, na verdade, se a gente consegue entender como cada um soa, podemos corroborar testemunhos sobre como guardas se movimentavam pelas celas, quais portas eles estavam abrindo e tentar achar padrões sobre como e onde as táticas de tortura estavam acontecendo", afirma o artista.​

Um dos dois desdobramentos criados a partir desse inventário, que já passou pela Tate Modern, em 2018, é o que será exibido em São Paulo em setembro, quando acontece a Bienal de São Paulo. Na instalação que ele chama, paradoxalmente, de seu trabalho visual, são exibidos textos animados de alguns depoimentos e uma composição de sons por cerca de 20 minutos.

A definição vem da ideia de que, nessa versão do trabalho, o público precisa imaginar visualmente as referências sonoras das testemunhas —na versão que ele considera auditiva, o espectador precisa criar relações entre 96 objetos dispostos numa sala e quais sons eles emitiriam.

E as analogias sonoras que surgiram nesses depoimentos são poucos óbvias. O soco, por exemplo, é relacionado ao barulho de um ovo se quebrando —e essa comparação se repete na fala de outros vários ex-detentos.

"Testemunhas auditivas não são algo de nicho, acontece em quase todo julgamento porque crimes acontecem intencionalmente fora de vista. E, mesmo assim, alguns resquícios vazam através do som pelas paredes, pelas janelas", afirma.​

Abu Hamdan também foi um dos vencedores da edição de 2019 do prêmio Turner, o principal do Reino Unido, num evento inusitado. Ele e os outros três artistas finalistas —Oscar Murillo, Tai Shani e Helen Cammock— formaram um coletivo para que todos recebessem o prêmio, com a justificava de que todos apontavam para questões políticas urgentes.

"Os que conheciam nosso trabalho gostaram da decisão. Os que não gostaram do trabalho e não gostam da maneira que a arte está se tornando essa mídia para política nos destruíram, o que foi bom", diz, rindo. "Isso limpou um pouco o ar."

Durante a pandemia, ele se dedica a outra investigação sonora —a das violações israelenses no espaço aéreo libanês.

"Era importante não só embarcar numa maneira de narrar esse momento histórico da pandemia, mas de, alguma forma, entender o que estava surgindo e crescendo a partir disso, e como esses barulhos estão sendo modulados num contexto em que o mundo está em silêncio", afirma o artista, sobre esse evento que, segundo ele, mostra como as fronteiras físicas se dissolvem e se tornam mais duras ao mesmo tempo.

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