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Artes Cênicas

Entenda por que Eva Wilma encontrou na TV o caminho do estrelato

No início da carreira, tudo conspirava para que sua trajetória no cinema ganhasse corpo, mas a indústria feneceu

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O começo dos anos 1950 não era o melhor momento para uma jovem atriz se lançar no cinema. Depois de começar na comédia “Uma Pulga na Balança", de Luciano Salce, em 1953, na Vera Cruz, Eva Wilma logo se projeta em “O Homem dos Papagaios”, de Armando Couto.

Na verdade, o filme girava em torno de um Procópio Ferreira meio aloprado e sempre às voltas com problemas de dinheiro. Eva entrou como terceiro nome do elenco, fazendo a filha do protagonista: era uma garota em fim de adolescência, atraente e com boas intenções, que tinha de segurar as inúmeras bobagens que o pai fazia.

No mesmo ano, fez um dos papéis principais de “O Craque”, de José Carlos Burle. No ano seguinte, novamente sob a direção de Armando Couto, roda “A Sogra”. Em 1955, participa de uma coprodução Argentina-Brasil: “Chico Viola Não Morreu”.

Tudo parecia conspirar para que sua carreira no cinema ganhasse corpo, inclusive o fato de ser promovida a um dos principais nomes dos estúdios Multifilmes.

Eva estava na TV Tupi, e logo deve ter se dado conta de que o cinema, no Brasil, era atividade razoavelmente insegura, ao contrário da televisão: a Multifilmes logo encerrou suas atividades, enquanto na Tupi ela se firmou estrelando, desde 1953 (e até 1964) o seriado “Alô, Doçura”, ao lado de John Herbert, com quem se casaria em 1955.

O seriado girava em torno das atribulações, desconfianças, encontros e desencontros de um casal —o que parecia de acordo com o tipo de Eva Wilma: se chamava a atenção pela beleza dos olhos e a expressividade suave, havia algo nela que a predispunha muito mais aos papéis de jovem (ou mulher) burguesa; a boa moça, em suma.

Ela tinha desde o início uma presença muito concreta: nada a predispunha ao mito. Lembrava de algum modo uma Audrey Hepburn mais caseira e muito menos saliente. Parecia feita para o papel de amiga de alguém que se interessará por ela bem mais por conta de suas virtudes do que outra coisa. Não era um tipo apaixonante.

Ao contrário. Naquele que talvez seja seu melhor papel no cinema, em “Cidade Ameaçada” (Roberto Farias, 1960), ela é a amiga de infância de um hoje famoso ladrão (no filme, Passarinho; na vida real, Promessinha, uma dessas personagens mitificadas pela imprensa policial). Ao se reencontrarem, ela é uma das poucas pessoas —talvez a única— capaz de ver que, além da terrível fama, existe um bom rapaz. Isso os aproxima e vai colocá-la, obviamente, em apuros.

Mas, sendo Eva Wilma no papel, o que sobressai é a simpatia, a gentileza atenciosa, a suavidade que lembra uma enfermeira. O tipo inspira tanto respeito quanto simpatia. Em definitivo, é a vocação doméstica que se impõe, mesmo quando vira mulher de bandido (mas o bandido é um bom sujeito).

Até meados dos anos 1960, é preciso lembrar, a TV não era veículo privilegiado. Atores se dividiam com frequência entre teatro, TV e cinema. Mas o tipo predispunha Eva Wilma mais à TV do que ao cinema (o teatro não era veículo de massa).

Talvez por isso seu horizonte tenha se limitado, mesmo atuando com Walter Hugo Khouri (famoso como diretor de atrizes) em um filme de grande bilheteria, como “A Ilha” (1963) e, a seguir, em “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

mulher no canto da imagem olhando para a camera segura copo d'água, ao fundo, homens com câmera de cinema
Eva Wilma, à direita, durante as filmagens de "São Paulo S/A", de Luís Sérgio Person - Divulgação

Novamente ela se distingue como a moça suave, que, primeiro como estudante, encontra num curso de línguas o futuro marido (Walmor Chagas). Mas ele parece achá-la doméstica demais, monótona demais, e algum tempo depois abandona a jovem Luciana em uma cena especialmente cruel. Ele estava mais próximo de garotas vampirescas, como a personagem de Darlene Glória.

Desde então, Eva Wilma dedicou-se muito mais ao teatro e à TV, com raras participações em filmes quase sempre menos interessantes. Mais valia fazer um “Esperando Godot” com Antunes Filho e ao lado de Lilian Lemmertz e Lélia Abramo.

Ou dedicar-se à TV, não raro ao lado de Cassiano Gabus Mendes, filho de Octavio Gabus Mendes, um dos melhores diretores de cinema da era muda. Mas Octavio logo notou —e Cassiano o seguiu— que o rádio e a TV eram caminhos mais seguros e suaves.

Para uma atriz que também se destacou pela suavidade e pela iconografia doméstica, a TV foi, em definitivo, um caminho melhor para o estrelato.

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