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'Emilio Renzi' traz diário de escritor que escapou da ditadura por um fio

Anotações de Ricardo Piglia revelam detalhes de quando autor viveu na semiclandestinidade e escreveu 'Respiração Artificial'

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Daniel de Mesquita Benevides

O terceiro volume dos diários do alter ego de Ricardo Piglia, Emilio Renzi, chega cercado de expectativas.

Inspirador como os anteriores, traz as anotações que o autor fez nos anos da ditadura argentina. Nesse período, ele só não foi preso por um fio. Teve de abandonar seu apartamento e biblioteca para viver na semiclandestinidade, "circulando como um fantasma pelas ruas de Buenos Aires".

Traz também detalhes do processo de escrita de seu romance mais elogiado, "Respiração Artificial", cuja frase inicial é sintomática –"dá uma história?".

A forma de lidar com o tempo é uma preocupação determinante. "No presente tudo é intensidade e confusão, mas se nos instalamos no futuro para voltar a ver o que vivemos, então algo se esclarece."
O escritor argentino fala com paixão crítica sobre literatura, cinema, música, séries de TV, política, amor, como se fosse um músico de jazz improvisando com as cordas da memória.

Escreve pós-diários, na trilha dos pós-tangos de seu amigo Gerardo Gandini. Revisões das centenas de cadernos que foi acumulando desde 1957, quando nem imaginava que seria um escritor importante e lutava "contra o vazio".

ricardo piglia
O autor argentino Ricardo Piglia, que lança a última parte dos 'Diários de Emilio Renzi' - Roberto Pera/Folhapress

A linguagem das lembranças, notas de leituras e conversas, se assemelha bastante aos seus trabalhos ficcionais. A reflexão, o devaneio, as citações de autores admirados, a memória incerta, são longas hesitações ante a ação, que raramente se consuma, ou se consuma lentamente.

O adiamento do fim é prolífico. Nas últimas páginas lemos o baixar de cortina desse livro híbrido, que flui entre a primeira e a terceira pessoas ("é preciso viver na terceira pessoa"), um narrador ambíguo, confissões intelectuais, uma novela autobiográfica e os estoicos desabafos finais, quando não conseguia mais escrever por causa da doença degenerativa que o matou.

Piglia nunca é sentimental, nem escorrega em clichês, o que dá originalidade aos relatos, mesmo quando fala de coisas comezinhas, compras, problemas domésticos. O leitor acompanha em tempo real cada linha, como se o passado estivesse vivo, acontecendo ali, sob a luminária. É o efeito de uma intimidade distanciada, brechtiana.

Assim, sentamos com ele na mesa de bares, onde bebemos vinho e uísque, discutimos Adorno e Hemingway com seus amigos e ouvimos de Janis Joplin aos quartetos de Beethoven em sua sala. A política está sempre à espreita, um ruído necessário, urgente.

Acompanhamos com emoção as histórias de amigos presos e torturados, dos desaparecidos, dos que perderam o emprego ou tiveram de abandonar o país, com o gosto amargo de quem sabe, infelizmente, do que ele está falando. A relação entre escritor e leitor resulta em cumplicidade, um certo alívio para o pesadelo.

Piglia-Renzi emerge desse contexto sombrio como uma versão menos exaltada do personagem de "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, um historiador de si mesmo fazendo um experimento literário, "o catálogo do saber microscópico de um náufrago".

Pois o que interessa mesmo a ele —ainda que a política tenha um papel fundamental em sua vida— é a literatura e suas possibilidades. Como narrar, o que narrar, para quem narrar? São questões que percorrem o livro, um laboratório aberto.

A investigação dos motivos e meios que levam o intelectual a escrever, e a ética dessa postura, a do escritor solitário e independente, muito próxima à dos detetives de Dashiell Hammett e David Goodis, que tanto gostava, é o pano de fundo, o cenário móvel.

Mais especificamente, Piglia se pergunta a todo momento qual a razão de se escrever um diário, e se engaja em diálogos espirituosos com Kafka, Brecht e Pavese, entre outros, que também preencheram páginas e páginas com exames de consciência e pensamentos soltos, epigramáticos.

Em meio a essa serena balbúrdia, elabora projetos de livros nunca escritos ou inacabados, como uma garantia de que o futuro será permanente —um futuro de "horas lentas e anos velozes". Escrever, ao fim, é a busca de fixar um sentido. E então sobreviver.

UM DIA NA VIDA: OS DIÁRIOS DE EMILIO RENZI

  • Preço R$ 89,90 (336 págs.); R$ 54,90 (ebook)
  • Autor Ricardo Piglia
  • Editora Todavia
  • Tradução Sérgio Molina
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