Caetano Veloso ataca Bolsonaro e cita Billie Eilish no single 'Anjos Tronchos'

Música integra 'Meu Coco', primeiro disco de inéditas do cantor desde 'Abraçaço', de 2012, e previsto para outubro

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São Paulo

Caetano Veloso canta sobre um mundo tecnológico, globalizado e conectado em “Anjos Tronchos”, seu novo single, lançado na noite desta quinta (16). “Agora a minha história é um denso algoritmo/ Que vende venda a vendedores reais/ Neurônios meus ganharam novo outro ritmo/ E mais e mais e mais e mais”, ele canta na faixa.

O cantor e compositor Caetano Veloso
O cantor e compositor Caetano Veloso - Reprodução/Facebook

Ele versa sobre as “telas dos azuis mais do que azuis”, e os “anjos tronchos do Vale do Silício", bilionários que comandam as grandes empresas tecnológicas que estão por trás das redes sociais. Caetano cita a Primavera Árabe, uma onda revolucionária de manifestações no Oriente Médio que ficou marcada como uma das primeiras a ser organizada através de grupos em redes sociais.

Também fala que “palhaços líderes brotaram macabros”, numa referência ao presidente Jair Bolsonaro, que tem no palhaço Bozo um de seus apelidos. Bolsonaro também ascendeu, assim como o ex-presidente Donald Trump, numa onda de extrema direita ligada às fake news —e às redes sociais.

O centro da poesia de Caetano é o acesso a computadores pessoais e a internet —e tudo o que essas mudanças causaram no mundo. Entre menções ao vício e ao poder de controle dos bilionários que estão por trás das redes e do algoritmo, a música surge como salvação, e ele termina a canção de maneira enigmática, dizendo que “miss Eilish faz tudo no quarto com o irmão”.

Billie Eilish ficou conhecida em 2019 quando despontou na indústria e se tornou uma estrela do pop mundial com um álbum inteiramente gravado no quarto da casa dos pais, ao lado do irmão e produtor, Finneas. É como se o feito da cantora pusesse um contraponto entre os acontecimentos ruins causados pelos efeitos da ultraconexão proporcionada pela internet e pelos smartphones.

Guiada por guitarras graves e sujas, a música soa quase toda experimental, praticamente sem nenhum tipo de percussão. No que pode se entender como o refrão, as guitarras soam saturadas, e há uma inserção rápida de triângulo, no que parece a colagem de uma levada de forró.

Logo após o lançamento da música, Caetano disse que coisas horrendas aconteceram na vida política de várias sociedades graças à internet. “Na nossa [sociedade] sem dúvida nenhuma, por causa da força dessa estrutura de comunicação que nasceu com a internet”, ele afirmou, em bate-papo no Twitter.

Em um dos versos da música, que ele afirmou se tratar sobre o presidente do Brasil, Caetano fala que “palhaços líderes brotaram macabros, no império e em seus vastos quintais”. “Toda a campanha de Trump, na qual a do Bolsonaro foi inspirada, teve orientação do Steve Bannon. Isso foi um negócio que causa essa doença social, um aspecto apavorante, horrendo, nesse desenvolvimento da internet e das redes sociais”, ele disse.

“Falo que aconteceu no império e nos seus vastos quintais, porque também aconteceu aqui, mas aconteceu nas Filipinas, na Polônia, na Hungria, e não deixa de ter sua importância em toda parte —na intensa afirmação da China, na quase desesperada atitude geopolítica da Rússia.”

Caetano ainda comentou que a população vive hoje “na carne” as consequências dessas eleições. “O Brasil agora vive a ressaca dessa eleição. A maioria da população rejeita o Bolsonaro, mas ele é o presidente.”

Ele também falou sobre os versos que citam a cantora Billie Eilish. “É uma coisa boa também, o fato de uma menina tão talentosa fazer esse neocool a partir do quarto dela, com o irmão dela. São coisas boas da tecnologia, como o desenvolvimento altamente vanguardista do funk carioca, sua passagem por Santos, e implantação em São Paulo através de Kondzilla. É toda uma história que tem vitalidade, força e beleza também. Agora, a gente tem sofrido mais as coisas horrendas que vieram com isso.” ​

“Anjos Tronchos” ganha um videoclipe na próxima sexta, a partir das 20h. A nova canção de Caetano vai integrar “Meu Coco”, próximo álbum de inéditas do cantor, que foi gravado no primeiro semestre deste ano e tem lançamento previsto para outubro.

É o primeiro álbum de Caetano em quase dez anos, dando sequência a “Abraçaço”, que saiu em 2012. “‘Anjos Tronchos’ é uma canção que terminou ficando extremamente densa. Vivemos hoje mergulhados num mar de algoritmos, possibilidades diversas de redes sociais e aparatos tecnológicos que avançam muito depressa”, disse o cantor e compositor na publicação com o anúncio do lançamento do single.

Caetano lança “Anjos Tronchos” logo depois de voltar de uma turnê pela Europa. Segundo o jornalista Mauro Ferreira em sua coluna no G1, o novo disco de Caetano tem 12 faixas, sendo que “Pardo” já foi gravada em 2019 pela cantora Céu, “Noite de Cristal” saiu em 1988 na voz de Maria Bethânia e “Autoacalanto” foi cantada em uma live. Todas são composições do baiano que ele nunca gravou.

“Meu Coco”, também segundo Ferreira, foi gravado com o ritmista Marcelo Costa, o percussionista Marcio Victor —líder da banda Psirico—, o sanfoneiro Mestrinho e o multi-instrumentista Vinicius Cantuária.

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