Descrição de chapéu Cinema festival de veneza

Sei o que é ser privilegiado no nosso país, diz Rodrigo Santoro em Veneza

Ator conta ter sentido culpa e ansiedade ao viver feitor moderno de '7 Prisioneiros', com produção de Fernando Meirelles

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Veneza

Há três anos, o cineasta Alexandre Moratto ganhou um importante reconhecimento no Independent Spirit Awards, premiação dedicada ao cinema independente. Seu filme de estreia, “Sócrates”, garantiu a ele o prêmio Someone to Watch, que em inglês significa algo como “alguém para ficar de olho”.

A Netflix seguiu a dica da honraria e apostou suas fichas no diretor, nascido nos Estados Unidos mas também cidadão brasileiro. O serviço de streaming é uma das forças por trás do longa “7 Prisioneiros”, dirigido por Moratto e exibido no Festival de Veneza agora, fora de competição.

Com Fernando Meirelles entre os produtores, o longa narra uma situação nacional dura, mas que o cinema ainda não tinha tratado com atenção. Mostra rapazes de origem muito humilde que são levados para São Paulo com a promessa de trabalho com carteira assinada e ganhos razoáveis. Mas o que os aguarda é bem diferente. Eles se tornam prisioneiros em um ferro-velho, onde trabalham em condições análogas à escravidão —sem descanso, direitos e muito menos dignidade.

O administrador do lugar é Luca, interpretado por Rodrigo Santoro, que não hesita em agir com extrema violência caso os rapazes tentem reagir. Só um deles consegue se adaptar à nova vida, Mateus, vivido por Christian Malheiros, que logo se torna o braço direito de Luca. Ele conseguirá no crime um tipo de base material e de respeito que a vida fora dali talvez jamais proporcionasse.

cena de filme
Christian Malheiros em cena de '7 Prisioneiros', filme da Netflix com produção de Fernando Meirelles que estreou no Festival de Veneza 2021 - Aline Arruda/Divulgação

Santoro se despe de qualquer glamour para interpretar o personagem, um sujeito fisicamente desleixado e moralmente asqueroso. Justamente por não ser uma opção óbvia para o papel, Moratto conta que achou interessante dar o desafio a ele.

“Nunca olho um personagem como um vilão ou um mocinho. O que eu faço é trabalhar para que ele tenha humanidade, para que o espectador consiga entender”, diz Santoro, em entrevista a este repórter, em Veneza. “Você pode odiar o personagem, e eu não culpo quem odeia —eu mesmo odiei. E foi muito dolorido para mim [fazer o personagem].”

A entrega ao papel foi intensa. “Cresci numa família de classe média, em Petrópolis, o que é ser privilegiado no nosso país. E estava fazendo um personagem bem diferente. Tem até uma frase em que ele diz que veio de um barraco, na beira do esgoto. E como eu poderia dizer essa frase?”, diz Santoro, que visitou comunidades e ouviu testemunhos de pessoas que trabalharam em condições sub-humanas em sua pesquisa para viver Luca.

“Eu senti culpa, ansiedade, angústia, porque realmente me aproximei do personagem. A gente sabe o que acontece no nosso país, mas é muito diferente você se propor a se pôr nesse lugar, e eu durante três meses fiz isso.”

Rodado em São Paulo pouco antes do início da pandemia, o filme foi recebido com aplausos, mas também com dúvidas por parte do público europeu, sobretudo se existem de fato situações degradantes como as que o filme mostra.

“A ideia é que o filme primeiro eduque sobre esse tema e que levante essa discussão. O ferro-velho é um microcosmo, mas ele representa todo um sistema. Devemos levantar essa discussão, e ela pode ser mais abrangente que o específico do trabalho análogo à escravidão”, diz.

Santoro diz acreditar que Luca também é produto desse sistema ultracapitalista, que não consegue oferecer ao personagem "a possibilidade de caminhar sozinho, de ter uma vida decente, o mínimo para viver", afirma. "Ele escolhe esse caminho. E dá, também, uma opção para o Mateus”, diz o ator sobre o longa, que deve estrear na Netflix ainda neste ano.

Outro filme brasileiro exibido em Veneza, na mostra Semana da Crítica, é o drama “Salamandra”, primeiro longa do pernambucano Alex Carvalho. Conta a história de uma francesa que passa um tempo no Recife, onde se sente deslocada. Ela se envolve com um rapaz negro e mais jovem, vivendo um romance que externa suas fragilidades, enquanto estrangeira, e também as do rapaz, pela questão racial.

O filme se baseia no romance “La Salamandre”, do premiado escritor francês Jean-Christophe Rufin, que já viveu no Brasil. “O livro me remetia a memórias que eu tinha da adolescência, de bares e outros lugares que eu frequentava”, afirma Carvalho. Nascido em Pernambuco, ele mora há mais de uma década no Reino Unido.

“Eu tinha uma identificação muito grande com a personagem, porque também saí do meu lugar e tive essa sensação de estrangeiro, de adaptação, mutação”, prossegue o cineasta. O elenco é encabeçado pela a prestigiada atriz francesa Marina Foïs, em reluzente performance no papel principal.

Vencedora do prêmio de melhor documentário sobre cinema em Veneza há dois anos, com “Babenco, Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, Bárbara Paz voltou ao Lido, agora com um curta-metragem. “Ato” marca sua estreia dirigindo uma ficção, narrando o encontro de uma mulher solitária que ajuda um viúvo a aplacar o vazio de ambos.

Paz diz ter se sentido muito feliz com o convite do festival. "A cultura brasileira de alguma forma sobrevive para outros continentes, apesar do desgoverno contra ela”, diz a cineasta. “O filme é um pequeno ato sobre a solidão. Nasceu no isolamento, num mundo onde a solidão foi a maior protagonista, com palcos vazios e medo constante da morte”, conclui.

Do Brasil, está ainda em Veneza o trabalho em realidade virtual “Lavrynthos”, de Fabito Rychter e Amir Admoni. É uma simpática narrativa em 3D, em que uma garota encontra um monstro em um labirinto, com quem aprende lições de vida.

O longa “Deserto Particular”, de Aly Muritiba, que integra o evento paralelo Venice Days, completa o time brasileiro no Lido.

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