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Cinema

'Duna' é estonteante e mostra que Villeneuve consegue se superar

Obviamente, longa foi concebido como um blockbuster e, como tal, há um maniqueísmo inerente ao gênero

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Duna

  • Quando Estreia nesta quinta (21)
  • Elenco Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Issac
  • Direção Denis Villeneuve

Denis Villeneuve conseguiu de novo. Depois de sua grande estreia no mundo da ficção científica com “A Chegada”, há cinco anos, e a subsequente revisitação de sucesso a um universo já conhecido dos fãs, em “Blade Runner 2049”, de 2017, o diretor canadense entrega um filme estonteante, deslumbrante mesmo, baseado na obra-prima do americano Frank Herbert.

Escrito em 1965, “Duna” se tornou um clássico instantâneo do gênero, ajudando inclusive a fundar o movimento da new wave, ou ficção científica "soft". Essa nova onda se punha diretamente em oposição à ficção científica "hard" que marcou toda a primeira parte do século 20, tendo Isaac Asimov, de “Fundação”, como um de seus maiores expoentes –uma série inspirada em sua obra, aliás, está agora no catálogo do serviço de streaming Apple TV.

A new wave se caracterizou pelo abandono da fé cega à ciência, às descrições minuciosas de armas ou funcionamento das viagens estelares, os detalhes da biologia de espécies alienígenas et cetera. Havia ainda uma ambição literária maior e um dos pontos mais fortes dessa onda, visto em diversos livros, era a existência de uma figura messiânica.

No caso, esse messias parece ser Paul Atreides, em interpretação contida e impressionante de Timothée Chalamet, indicado ao Oscar por “Me Chame pelo Seu Nome”, de 2017. Ele é o herdeiro da Casa Atreides, num universo que mistura uma organização política medieval com uma tecnologia pouco exuberante, embora haja naves espaciais.

No entanto, não há computadores, proibidos pela religião interplanetária, ponto pouco explorado por Villeneuve no filme. Humanos com talentos especiais, capazes de uma rapidez de cálculo digna das máquinas, tomam o lugar deles. Esses humanos aparecem no filme, mas nada disso é explicado.

Esse medievalismo, com uma hierarquia rígida, facilita a compreensão da trama. Obviamente, “Duna” foi concebido como um blockbuster e, como tal, há um maniqueísmo inerente ao gênero —assim como à ficção científica literária em geral. A Casa Atreides é um exemplo de honra e dignidade, praticamente obrigando o espectador a ver seus integrantes como os heróis do filme.

No início da trama, o duque Leto Atreides recebe um novo feudo do imperador, o planeta Arrakis. Coberto totalmente por um deserto, por isso apelidado de Duna, o planeta é o único no universo que produz a especiaria que possibilita as viagens espaciais, além de alterar as percepções de quem entra em contato com o pó mágico. A mãe de Paul, vivida por Rebecca Ferguson, faz parte de uma ordem de feiticeiras que, nos bastidores, tenta traçar as rotas políticas do império.

No entanto, há uma questão que se impõe. Além de gigantescos vermes que vivem sob as areias do deserto, Duna também tem seus habitantes humanos, chamados de fremen. E a chegada dos Atreides por ali os põe como colonizadores interessados nas riquezas de uma terra bárbara.

Os fremen são claramente caracterizados como árabes. Tem pele escura, usam véus de beduínos, falam uma língua de raízes árabes, inclusive no livro original, e se organizam de forma tribal, com espaço para desafios másculos pela liderança. Resta pouca dúvida de que há uma metáfora clara entre o Oriente Médio e o seu precioso petróleo, disputado a tapas pelas potências ocidentais.

Do outro lado do espectro, temos a Casa Harkonnen, que, por 80 anos, controlou Duna e faturou muito dinheiro com a especiaria. Violentos, sem preocupação com os fremen e ávidos por recuperar Duna, são os vilões que se espera de uma ópera espacial. O barão Vladimir Harkonnen, aliás, em interpretação assustadora do sueco Stellan Skarsgard, é um dos vilões mais temíveis já vistos no cinema atual.

Quando Herbert escreveu “Duna”, a obra foi vista como um romance ecológico. Hoje, é possível dizer que tem preocupações ambientais, mas um grande desafio para o filme neste século será tratar das relações entre conquistadores e conquistados da forma que o nosso tempo exige.

Isso, no entanto, deve ficar para a segunda parte da obra. “Duna” não está sendo vendido com um filme em duas partes, mas ele é. Com duas horas e 35 minutos de duração, ele termina abruptamente quando Paul faz contato com os fremen. “Duna 2”, que já está em pré-produção, não é uma nova aventura, mas a conclusão da novela original de Herbert.

Com duplo sentido, o filme traz um elenco estelar –Jason Momoa, Josh Brolin, Javier Bardem e Charlotte Rampling dividem espaço com Zendaya, protagonista da festejada série “Euphoria” e interesse romântico de Peter Parker nos últimos filmes do Homem-Aranha.

O visual é fantástico. A exemplo do que havia feito em “A Chegada” e “Blade Runner 2049”, Villeneuve apresenta cenários e naves gigantescos e, ao mesmo tempo, minimalistas. A música, entre militar e fúnebre, é outro ponto alto de “Duna”.

Os mais velhos lembrarão que, em 1984, David Lynch havia se aventurado pela adaptação do livro. Aquele filme, que trazia Kyle MacLachlan como Paul Atreides e Sting como um dos vilões, contava a história toda em duas horas e 15 minutos. É médio e está na Netflix, para quem quiser se aventurar.

Também vale lembrar a influência que o livro “Duna” exerceu em “Star Wars”, de George Lucas, no qual uma figura, Luke Skywalker, se descobre predestinado a salvar o mundo de um império galáctico e vem de um planeta deserto, Tatooine, um xerox de Arrakis.

Frank Herbert escreveu cinco sequências de “Duna” e, depois de sua morte, seus herdeiros permitiram que outros autores assinassem mais de uma dúzia de livros passados naquele universo.

Duas séries de TV já foram feitas e uma nova, da HBO Max, com Denis Villeneuve dirigindo o primeiro episódio, foi anunciada para o ano que vem. Ainda não há data programada para a estreia de “Duna 2”, mas tudo indica que os anos vindouros serão tempos desérticos.

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